quinta-feira, 26 de março de 2026

A escritora brasileira Nísia Floresta

 



Em 12 de outubro de 1810 nasceu em uma fazenda no município de Papari (hoje em dia chamado de Nísia Floresta), na então Capitania da Paraíba, no atual Rio Grande do Norte, a escritora, educadora e poetisa brasileira Dionisia Gonçalvez Pinto, que ficou conhecida como Nísia Floresta Brasileira Augusta. Era filha do do  advogado português Dionísio Gonçalves Pinto e da brasileira Antônia Clara Freire, herdeira de umas das principais famílias da região. Tinha três irmãos: Clara, Joaquim e uma terceira irmã do casamento anterior de sua mãe viúva.

Ela foi a primeira a se importar com uma educação com foco nas mulheres no Brasil, com destaque nas letras, jornalismo e nos movimentos sociais. Defendia ideais abolicionistas, republicanos e feministas. Ela influenciou na prática educacional brasileira, ultrapassando limites do que a sociedade da época impunha à mulher. Denunciou injustiças contra escravos e indígenas brasileiros. Numa sociedade onde havia a cultura de submissão da mulher, ela foi a primeira figura feminina a publicar textos em jornais, em um tempo que a imprensa brasileira estava ainda em seu começo. Foi diretora de um colégio para meninas na cidade do Rio de Janeiro. Escreveu obras defendendo os direitos das mulheres.

Nísia passou em sua infância e adolescência por períodos de acentuada convulsão social que tiveram influências em sua formação. Devido aos movimentos sociais que atingiam o Nordeste, a família Gonçalves Pinto estava constantemente de mudança, considerando a profissão do pai (que por vezes assumia causas que atingiam interesses de grandes proprietários de terras) e a sua nacionalidade portuguesa, pois houve perseguições antilusitanas de grupos revolucionários. As mudanças de locais permitiram um contato de Nísia com diversas culturas e realidades ao longo da vida.

Durante a Insurreição Pernambucana a família de Nísia sai de Papari para Goiana, um  município, mais desenvolvido econômica e intelectualmente. Lá Nísia começou seus estudos no convento das carmelitas.  Graças à influência de seu pai ela inicia um um primeiro contato de Dionísia Pinto com a cultura europeia e com o liberalismo. Com 13 anos de idade, seguindo a tradição, é obrigada a se casar com Manuel Alexandre Seabra de Melo, proprietário de terras, um casamento que dura alguns meses. Ela se separa do marido e volta para a casa dos pais, que a receberam, mas ela enfrentou o preconceito da época por ter deixado seu casamento. Em 1828 seu pai foi assassinado quando estava atuando em um caso contra a poderosa família Cavalcanti. Nísia disse sobre isso: : "Esse advogado, que fizera triunfar o direito de seu pobre cliente, alvo da injustiça atroz de um tal tirano, caiu de improviso sob os golpes de assassinos pagos por ele."  

Nísia começou em 1828 a namorar Manuel Augusto de Faria Rocha, acadêmico da Faculdade de Direito de Olinda e com ela teve uma filha, nascida em 1830. Teve ainda outro filho em 1831, que viveu pouco tempo. Nesse ano ela teve suas primeiras publicações escritas. Em um jornal pernambucano, chamado Espelho das Brasileiras, ela publica uma série de artigos sobre a condição feminina. O seu primeiro livro surge em 1832: Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens , começando a assinar como Nísia Floresta Brasileira Augusta. Ela escolheu Floresta em homenagem à fazenda onde nasceu, Brasileira para realçar o orgulho de ser brasileira e Augusta como uma homenagem  ao seu segundo companheiro a quem amava.

Segundo estudos dos  especialistas Pallares-Burke (1995) e Oliveira & Martins (2012)  essa primeira obra publicada de Nísia é uma tradução integral do livro La femme n'est pas inferieure a l'homme, publicado em 1750, por sua vez uma tradução de Woman Not Inferior to Men, de uma autora que só assina como Sophia.

Nísia, em um contexto influenciado por movimentos externos ao país, tem papel importante por sua capacidade de traduzir não apenas linguisticamente, como também culturalmente a obra estrangeira, construindo adaptações do discurso à realidade nacional. Nísia passa assim a ter o título incontestável de pioneira no movimento feminista brasileiro. Ela fazia denúncias sobre  o estado de inferioridade no qual viviam as mulheres de sua época e procurando combater os preconceitos que as cercavam. Em jornais de Recife, a partir de 1830 ela publicou contos, poesias, novelas e ensaios, que também foram publicados depois em jornais da cidade do Rio de Janeiro.

Em 1841 Nísia publicou seu segundo livro: Conselhos à Minha Filha. O livro foi um presente para a filha no seu aniversário de 12 anos. De 1847 em diante as obras dela foram direcionadas mais à educação, sem deixar de atentar para a questão de igualdade de gênero. Nesse ano de 1847 estavam as seguintes publicações: Daciz ou  A Jovem Completa,  Fany ou O Modelo das Donzelas e Discurso Que às Suas Educandas Dirigiu Nísia Floresta Brasileira Augusta.

Quando esteve na Europa, Nísia publicou diversos relatos de suas viagens. Muitas das obras dela se tornaram difíceis de se localizar pelos estudiosos porque se perderam ou devido ela publicar por meio de pseudônimos. Foram encontrados artigos dela assinados como "Quotidiana Fidedigna” nos jornais O Recompilador Federal e  O Campeão da Legalidade. O jornal carioca O Liberal, de maio a junho de 1851 publicou uma série de  artigos de Nísia com título de A Emancipação da Mulher. Nesses artigos ela ressaltava a importância da educação para as mulheres. Focando na questão pedagógica ela publicou em 1853 o seu livro Opúsculo Humanitário, no qual havia uma coleção de artigos sobre emancipação feminina. Tais escritos foram elogiados pelo autor francês Augusto Comte, o “Pai do Positivismo”. Além de sintetizar o pensamento da autora sobre a educação feminina, a autora na obra aborda a pedagogia de forma geral e faz críticas a instituições de ensino da época.

Em textos que Nísia escreveu, ela discorre sobre si mesma, sua infância, seu falecido marido e seus familiares. Ela ao escrever sobre suas viagens está tratando de uma rotina pessoal, como por exemplo o itinerário de uma viagem à Alemanha e três anos na Itália e uma viagem à Grécia.

Nísia passou a morar em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1832 .Em 1833 Manuel Augusto com quem vivia morre. Ela tinha vinte e três anos e passa a ser a responsável pela sua família composta por ela, sua filha, sua mãe e duas irmãs. De 1834 a 1837 ela administrou e lecionou em uma escola gaúcha. Com a eclosão da Revolução Farroupilha ela se mudou com a sua família para a cidade do Rio de Janeiro em janeiro de 1838. Nesse ano ela funda o Colégio Augusto, onde implanta propostas pedagógicas inovadoras. Ela comunica a inauguração de seu colégio no centro da capital, onde funcionou por dezessete anos. O projeto educativo do Colégio Augusto estava voltado para meninas, misturando o ensino tradicional feminino - totalmente voltado para a criação e preparação da menina para o matrimônio e maternidade como única possibilidade possível - com conhecimentos de ciências, línguas, História, religião, Geografia, Educação Física, Artes e Literaratura. 

A maior inovação do colégio fundado por Nísia era sua proposta de  uma educação às mulheres, equiparada aos melhores colégios masculinos da época. A mentalidade masculina na época gerou preconceitos contra as propostas educacionais de Nísia como a crítica publicada no jornal O Mercantil que dizia: "Trabalhos de língua não faltaram; os de agulha ficaram no escuro. Os maridos precisam de mulher que trabalhe mais e fale menos”. Ela considerava a ausência de uma educação formal feminina a maior causa da discriminação da mulher. A primeira legislação brasileira que abordava o tema, autorizando a abertura de escolas públicas femininas, tinha sido promulgada em 1827.

Nísia considerava importante haver uma educação formal feminina. A ausência dessa educação era para ela a a maior causa da discriminação da mulher. Ela defendia que se as mulheres tivessem acesso à educação elas ficariam conscientes da sua situação. Ela dizia:  "Quanto mais ignorante o povo, tanto mais fácil é a um governo absoluto exercer sobre ele o seu ilimitado poder”. Em relação à direção a ser tomada sobre a qualidade de ensino, igualdade de gênero, número de escolas e acesso ao ensino pelas meninas, a importância para ela estava essencialmente ligada ao pensamentos liberal, progressista e positivista. Ela passa a criticar o o sistema vigente, o qual considerava as ciências inúteis às mulheres,nas três obras suas do ano de 1847. Em Opúsculo Humanitário (1853), Nísia comenta o fracasso geral do padrão de ensino e denuncia, sem nomear, escolas da Corte administradas por estrangeiros, que considerava sem preparo para a função de orientadores ou lecionadores em relação à educação.

Em 1849, Nísia deixou a direção do Colégio Augusto e esteve na Europa para tratamento de saúde de sua filha e retornou em 1852, com dedicação à publicar artigos em jornais brasileiros. E em 1855 ela atuou como enfermeira voluntária durante uma pandemia de cólera que atingiu a cidade do Rio de Janeiro. Em 1856 ela foi  de novo para a Europa (onde ficou até 1872) e no mesmo ano o Colégio Augusto é fechado após 17 anos de funcionamento. Visitou cidades da Itália e Grécia. Publicou obras em em francês e escreveu seus relatos de viagens. Ela teve contato com o positivismo de Augusto Comte, em um curso de História Geral da Humanidade realizado pelo referido autor em Paris. Ela então se tornou uma amiga de Comte, e, posteriormente, deu ao filósofo um exemplar de seu livro Opúsculo Humanitário.Augusto Comte disse sobre a citada obra de Nísia para o filósofo positivista francês Pierre Laffitte em 30 de setembro de 1856:

“Desde que fiquei inteiramente livre, fiz as leituras excepcionais que espontaneamente prometera. O opúsculo em português, além de revelar-me que eu sabia indiretamente mais uma língua, inspira-me sólidas razões para esperar se tornar a nobre dama, sua autora, dentro em breve, uma digna positivista, susceptível de alta eficácia para a nossas propaganda feminina e meridional.”

Comte gostaria que Nísia fundasse o primeiro salão positivista em Paris. Em carta a Gaston d’Audiffret-Pasquier, membro da Academia Francesa,  ele disse: “Durante vossa visita de outono, comunicar-vos-ei especialmente as fundadas esperanças que me inspiram, para o nosso mais decisivo progresso, duas novas discípulas meridionais, uma nobre viúva brasileira, e sobretudo sua digna filha, contando respectivamente 47 e 22 anos. Estão em Paris há sete meses e tenho motivo de esperar que aqui se fixarão, de modo a poderem presidir o verdadeiro salão positivista que nos seria tão precioso. Ambas são eminentes pelo coração e suficientes quanto ao espírito. Acha-se, contudo, a mãe de tal modo imbuída dos hábitos do século dezoito, que pouco devemos esperar da plenitude de sua conversão, embora suas simpatias remontem ao meu curso de 1851, cuja influência ela não pôde, entretanto, receber senão através de uma única das sessões. Sua filha, porém, comporta uma incorporação completa, que a mãe secundará sem rivalidade disfarçada”.

Quando houve o funeral da escritora parisiense Clotilde de Vaux, Nísia discursou elogiando a escritora e esse discurso comoveu Comte. Nísia ao falar fez um paralelo com suas obras de cunho feminista, destacando as ideias de Comte como uma doutrina regeneradora capaz de libertar as mulheres da situação degradante em que se encontravam. Disse Nisia:

“Uma lágrima por prece, sobre o teu túmulo! Uma lágrima que te oferece um coração, tão cedo quanto o teu iniciado nos mistérios da dor!

Recebe este pequenino tributo de uma estrangeira, que o não seria, se lhe tivesse sido dada a ventura de conhecer-te em vida, pois corações como o teu não alimentam preconceitos nacionalistas, que dividem os homens e retardam o verdadeiro progresso da humanidade.

Alma pura e afetuosa, passaste apenas pela terra, como a flor primaveril! - Mais feliz do que ela, todavia, encontraste nos teus últimos dias, um grande guia, que conservou o teu perfume em seu nobre coração, como a vestal zelava pelo fogo sagrado do templo. Esse perfume ele o esparze, agora, pelo mundo inteiro, em incomparáveis trabalhos que te imortalizarão, tanto quanto a ele próprio.

Nova Beatriz, teu nome passará às gerações vindouras com uma glória ainda maior, pois não é a admirável ficção de um grande poeta, mas a doutrina regeneradora de um grande filósofo que tira, por teu influxo, a mulher da degradação em que ainda se encontra.

A ti, Clotilde de Vaux, as homenagens sinceras e o profundo reconhecimento de todas as mulheres de coração. A ti,minha prece de hoje, a ti, um voto de fraternidade: queira o Grã-Ser torná-lo tão eficaz quanto o foram tuas sublimes virtudes!

Dorme, anjo da doçura e de amor, dorme o sono dos justos em tua última jazida

Hei de evocar, doravante, a tua memória, em nome de todas as mulheres, para que realizem a nobre missão que tanto te preocupavas em inspirar-lhes.

Virei associar, à tua imagem, a daqueles a quem choro: Pai, Esposo e Mãe. A rememoração desta querida trindade que me foi, ai de mim!, tão cedo arrebatada, é digna (pelo amor da Humanidade, de que deu tantas provas) de ser incorporada à tua lembrança.”

No período de 1870-1871, devido ao cerco de Paris na ocasião dos combates da guerra entre França e Prússia e depois com os conflitos envolvendo a Comuna de Paris, Nísia saiu de Paris e foi para cidades suiças e espanholas, tendo retornado ao Brasil em 1872, que passava por vigorosa campanha ablolicionista liderada por Joaquim Nabuco. Em 1875 Nísia foi de novo para a Europa e morou em Londres, Berlim, Lisboa e Paris. Depois foi morar no interior da França e lá publicou em 1878 a obra Fragments d’un Ouvrage Inédit: Notes Biographiques.

Em 24 de abril de 1885, Nísia Floresta faleceu devido a uma pneumonia, na cidade francesa de Rouen, com 74 anos de idade. Foi enterrada em Bonsecours, Normandia, França. Em agosto de 1954 seus restos mortais foram levados para a sua terra natal no Brasil.

Segundo a autora Constância Lima Duarte, que escreveu o livro Nísia Floresta: Vida e Obra, Nísia está no que ela define como "bom feminismo". Para esta autora, Nísia não pretendia alterar de forma substancial as relações sociais, mantendo as mulheres nos limites ideológicos do privado:  "Ao evocar uma formação cultural feminina aprimorada, suas sugestões enclausuravam a mulher nas mesmas funções cotidianas, ou seja, o cuidado com a casa e a família”.

A autora Branca Moreira Alves, disse sobre Nísia que o feminismo de Nísia Floresta se misturava a uma visão romântica da mulher na qual a dedicação à família e ao lar ainda era a direção para a trajetória feminina: "No entanto, como esperar um posicionamento díspar da sua época?”

Ainda que com as limitações devido ao contexto, houve várias críticas de Nísia à forma como as mulheres eram tratadas e à educação da época, o que pode ser visto em dizeres dela em obras que ela escreveu:

“Não poderá haver no Brasil uma boa educação da mocidade, enquanto o sistema de nossa educação, quer doméstica, quer pública, não for radicalmente reformado [...]”

“Flutuando como barco sem rumo ao sabor do vento neste mar borrascoso que se chama mundo, a mulher foi até aqui conduzida segundo o egoísmo, o interesse pessoal, predominante nos homens de todas as nações.”

 “Todos os brasileiros, qualquer que tenha sido o lugar de seu nascimento, têm iguais direitos à fruição dos bens distribuídos pelo seu governo, assim como à consideração e ao interesse de seus concidadãos.”

“Se cada homem (…) fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, (…) reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens.”

“Se este sexo altivo quer fazer-nos acreditar que tem sobre nós um direito natural de superioridade, por que não nos prova o privilégio, que para isso recebeu da Natureza, servindo-se de sua razão para se convencerem?”

 “Que personagens singulares! (…) Exigir uma servidão a que eles mesmos não têm coragem de se submeter, (…) e querer que lhe sirvamos de ludibrio, nós, a quem eles são obrigados a fazer a corte e atrair em seus laços com as submissões mais humilhantes.”



Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História