quinta-feira, 26 de março de 2026

A escritora brasileira Nísia Floresta

 



Em 12 de outubro de 1810 nasceu em uma fazenda no município de Papari (hoje em dia chamado de Nísia Floresta), na então Capitania da Paraíba, no atual Rio Grande do Norte, a escritora, educadora e poetisa brasileira Dionisia Gonçalvez Pinto, que ficou conhecida como Nísia Floresta Brasileira Augusta. Era filha do do  advogado português Dionísio Gonçalves Pinto e da brasileira Antônia Clara Freire, herdeira de umas das principais famílias da região. Tinha três irmãos: Clara, Joaquim e uma terceira irmã do casamento anterior de sua mãe viúva.

Ela foi a primeira a se importar com uma educação com foco nas mulheres no Brasil, com destaque nas letras, jornalismo e nos movimentos sociais. Defendia ideais abolicionistas, republicanos e feministas. Ela influenciou na prática educacional brasileira, ultrapassando limites do que a sociedade da época impunha à mulher. Denunciou injustiças contra escravos e indígenas brasileiros. Numa sociedade onde havia a cultura de submissão da mulher, ela foi a primeira figura feminina a publicar textos em jornais, em um tempo que a imprensa brasileira estava ainda em seu começo. Foi diretora de um colégio para meninas na cidade do Rio de Janeiro. Escreveu obras defendendo os direitos das mulheres.

Nísia passou em sua infância e adolescência por períodos de acentuada convulsão social que tiveram influências em sua formação. Devido aos movimentos sociais que atingiam o Nordeste, a família Gonçalves Pinto estava constantemente de mudança, considerando a profissão do pai (que por vezes assumia causas que atingiam interesses de grandes proprietários de terras) e a sua nacionalidade portuguesa, pois houve perseguições antilusitanas de grupos revolucionários. As mudanças de locais permitiram um contato de Nísia com diversas culturas e realidades ao longo da vida.

Durante a Insurreição Pernambucana a família de Nísia sai de Papari para Goiana, um  município, mais desenvolvido econômica e intelectualmente. Lá Nísia começou seus estudos no convento das carmelitas.  Graças à influência de seu pai ela inicia um um primeiro contato de Dionísia Pinto com a cultura europeia e com o liberalismo. Com 13 anos de idade, seguindo a tradição, é obrigada a se casar com Manuel Alexandre Seabra de Melo, proprietário de terras, um casamento que dura alguns meses. Ela se separa do marido e volta para a casa dos pais, que a receberam, mas ela enfrentou o preconceito da época por ter deixado seu casamento. Em 1828 seu pai foi assassinado quando estava atuando em um caso contra a poderosa família Cavalcanti. Nísia disse sobre isso: : "Esse advogado, que fizera triunfar o direito de seu pobre cliente, alvo da injustiça atroz de um tal tirano, caiu de improviso sob os golpes de assassinos pagos por ele."  

Nísia começou em 1828 a namorar Manuel Augusto de Faria Rocha, acadêmico da Faculdade de Direito de Olinda e com ela teve uma filha, nascida em 1830. Teve ainda outro filho em 1831, que viveu pouco tempo. Nesse ano ela teve suas primeiras publicações escritas. Em um jornal pernambucano, chamado Espelho das Brasileiras, ela publica uma série de artigos sobre a condição feminina. O seu primeiro livro surge em 1832: Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens , começando a assinar como Nísia Floresta Brasileira Augusta. Ela escolheu Floresta em homenagem à fazenda onde nasceu, Brasileira para realçar o orgulho de ser brasileira e Augusta como uma homenagem  ao seu segundo companheiro a quem amava.

Segundo estudos dos  especialistas Pallares-Burke (1995) e Oliveira & Martins (2012)  essa primeira obra publicada de Nísia é uma tradução integral do livro La femme n'est pas inferieure a l'homme, publicado em 1750, por sua vez uma tradução de Woman Not Inferior to Men, de uma autora que só assina como Sophia.

Nísia, em um contexto influenciado por movimentos externos ao país, tem papel importante por sua capacidade de traduzir não apenas linguisticamente, como também culturalmente a obra estrangeira, construindo adaptações do discurso à realidade nacional. Nísia passa assim a ter o título incontestável de pioneira no movimento feminista brasileiro. Ela fazia denúncias sobre  o estado de inferioridade no qual viviam as mulheres de sua época e procurando combater os preconceitos que as cercavam. Em jornais de Recife, a partir de 1830 ela publicou contos, poesias, novelas e ensaios, que também foram publicados depois em jornais da cidade do Rio de Janeiro.

Em 1841 Nísia publicou seu segundo livro: Conselhos à Minha Filha. O livro foi um presente para a filha no seu aniversário de 12 anos. De 1847 em diante as obras dela foram direcionadas mais à educação, sem deixar de atentar para a questão de igualdade de gênero. Nesse ano de 1847 estavam as seguintes publicações: Daciz ou  A Jovem Completa,  Fany ou O Modelo das Donzelas e Discurso Que às Suas Educandas Dirigiu Nísia Floresta Brasileira Augusta.

Quando esteve na Europa, Nísia publicou diversos relatos de suas viagens. Muitas das obras dela se tornaram difíceis de se localizar pelos estudiosos porque se perderam ou devido ela publicar por meio de pseudônimos. Foram encontrados artigos dela assinados como "Quotidiana Fidedigna” nos jornais O Recompilador Federal e  O Campeão da Legalidade. O jornal carioca O Liberal, de maio a junho de 1851 publicou uma série de  artigos de Nísia com título de A Emancipação da Mulher. Nesses artigos ela ressaltava a importância da educação para as mulheres. Focando na questão pedagógica ela publicou em 1853 o seu livro Opúsculo Humanitário, no qual havia uma coleção de artigos sobre emancipação feminina. Tais escritos foram elogiados pelo autor francês Augusto Comte, o “Pai do Positivismo”. Além de sintetizar o pensamento da autora sobre a educação feminina, a autora na obra aborda a pedagogia de forma geral e faz críticas a instituições de ensino da época.

Em textos que Nísia escreveu, ela discorre sobre si mesma, sua infância, seu falecido marido e seus familiares. Ela ao escrever sobre suas viagens está tratando de uma rotina pessoal, como por exemplo o itinerário de uma viagem à Alemanha e três anos na Itália e uma viagem à Grécia.

Nísia passou a morar em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1832 .Em 1833 Manuel Augusto com quem vivia morre. Ela tinha vinte e três anos e passa a ser a responsável pela sua família composta por ela, sua filha, sua mãe e duas irmãs. De 1834 a 1837 ela administrou e lecionou em uma escola gaúcha. Com a eclosão da Revolução Farroupilha ela se mudou com a sua família para a cidade do Rio de Janeiro em janeiro de 1838. Nesse ano ela funda o Colégio Augusto, onde implanta propostas pedagógicas inovadoras. Ela comunica a inauguração de seu colégio no centro da capital, onde funcionou por dezessete anos. O projeto educativo do Colégio Augusto estava voltado para meninas, misturando o ensino tradicional feminino - totalmente voltado para a criação e preparação da menina para o matrimônio e maternidade como única possibilidade possível - com conhecimentos de ciências, línguas, História, religião, Geografia, Educação Física, Artes e Literaratura. 

A maior inovação do colégio fundado por Nísia era sua proposta de  uma educação às mulheres, equiparada aos melhores colégios masculinos da época. A mentalidade masculina na época gerou preconceitos contra as propostas educacionais de Nísia como a crítica publicada no jornal O Mercantil que dizia: "Trabalhos de língua não faltaram; os de agulha ficaram no escuro. Os maridos precisam de mulher que trabalhe mais e fale menos”. Ela considerava a ausência de uma educação formal feminina a maior causa da discriminação da mulher. A primeira legislação brasileira que abordava o tema, autorizando a abertura de escolas públicas femininas, tinha sido promulgada em 1827.

Nísia considerava importante haver uma educação formal feminina. A ausência dessa educação era para ela a a maior causa da discriminação da mulher. Ela defendia que se as mulheres tivessem acesso à educação elas ficariam conscientes da sua situação. Ela dizia:  "Quanto mais ignorante o povo, tanto mais fácil é a um governo absoluto exercer sobre ele o seu ilimitado poder”. Em relação à direção a ser tomada sobre a qualidade de ensino, igualdade de gênero, número de escolas e acesso ao ensino pelas meninas, a importância para ela estava essencialmente ligada ao pensamentos liberal, progressista e positivista. Ela passa a criticar o o sistema vigente, o qual considerava as ciências inúteis às mulheres,nas três obras suas do ano de 1847. Em Opúsculo Humanitário (1853), Nísia comenta o fracasso geral do padrão de ensino e denuncia, sem nomear, escolas da Corte administradas por estrangeiros, que considerava sem preparo para a função de orientadores ou lecionadores em relação à educação.

Em 1849, Nísia deixou a direção do Colégio Augusto e esteve na Europa para tratamento de saúde de sua filha e retornou em 1852, com dedicação à publicar artigos em jornais brasileiros. E em 1855 ela atuou como enfermeira voluntária durante uma pandemia de cólera que atingiu a cidade do Rio de Janeiro. Em 1856 ela foi  de novo para a Europa (onde ficou até 1872) e no mesmo ano o Colégio Augusto é fechado após 17 anos de funcionamento. Visitou cidades da Itália e Grécia. Publicou obras em em francês e escreveu seus relatos de viagens. Ela teve contato com o positivismo de Augusto Comte, em um curso de História Geral da Humanidade realizado pelo referido autor em Paris. Ela então se tornou uma amiga de Comte, e, posteriormente, deu ao filósofo um exemplar de seu livro Opúsculo Humanitário.Augusto Comte disse sobre a citada obra de Nísia para o filósofo positivista francês Pierre Laffitte em 30 de setembro de 1856:

“Desde que fiquei inteiramente livre, fiz as leituras excepcionais que espontaneamente prometera. O opúsculo em português, além de revelar-me que eu sabia indiretamente mais uma língua, inspira-me sólidas razões para esperar se tornar a nobre dama, sua autora, dentro em breve, uma digna positivista, susceptível de alta eficácia para a nossas propaganda feminina e meridional.”

Comte gostaria que Nísia fundasse o primeiro salão positivista em Paris. Em carta a Gaston d’Audiffret-Pasquier, membro da Academia Francesa,  ele disse: “Durante vossa visita de outono, comunicar-vos-ei especialmente as fundadas esperanças que me inspiram, para o nosso mais decisivo progresso, duas novas discípulas meridionais, uma nobre viúva brasileira, e sobretudo sua digna filha, contando respectivamente 47 e 22 anos. Estão em Paris há sete meses e tenho motivo de esperar que aqui se fixarão, de modo a poderem presidir o verdadeiro salão positivista que nos seria tão precioso. Ambas são eminentes pelo coração e suficientes quanto ao espírito. Acha-se, contudo, a mãe de tal modo imbuída dos hábitos do século dezoito, que pouco devemos esperar da plenitude de sua conversão, embora suas simpatias remontem ao meu curso de 1851, cuja influência ela não pôde, entretanto, receber senão através de uma única das sessões. Sua filha, porém, comporta uma incorporação completa, que a mãe secundará sem rivalidade disfarçada”.

Quando houve o funeral da escritora parisiense Clotilde de Vaux, Nísia discursou elogiando a escritora e esse discurso comoveu Comte. Nísia ao falar fez um paralelo com suas obras de cunho feminista, destacando as ideias de Comte como uma doutrina regeneradora capaz de libertar as mulheres da situação degradante em que se encontravam. Disse Nisia:

“Uma lágrima por prece, sobre o teu túmulo! Uma lágrima que te oferece um coração, tão cedo quanto o teu iniciado nos mistérios da dor!

Recebe este pequenino tributo de uma estrangeira, que o não seria, se lhe tivesse sido dada a ventura de conhecer-te em vida, pois corações como o teu não alimentam preconceitos nacionalistas, que dividem os homens e retardam o verdadeiro progresso da humanidade.

Alma pura e afetuosa, passaste apenas pela terra, como a flor primaveril! - Mais feliz do que ela, todavia, encontraste nos teus últimos dias, um grande guia, que conservou o teu perfume em seu nobre coração, como a vestal zelava pelo fogo sagrado do templo. Esse perfume ele o esparze, agora, pelo mundo inteiro, em incomparáveis trabalhos que te imortalizarão, tanto quanto a ele próprio.

Nova Beatriz, teu nome passará às gerações vindouras com uma glória ainda maior, pois não é a admirável ficção de um grande poeta, mas a doutrina regeneradora de um grande filósofo que tira, por teu influxo, a mulher da degradação em que ainda se encontra.

A ti, Clotilde de Vaux, as homenagens sinceras e o profundo reconhecimento de todas as mulheres de coração. A ti,minha prece de hoje, a ti, um voto de fraternidade: queira o Grã-Ser torná-lo tão eficaz quanto o foram tuas sublimes virtudes!

Dorme, anjo da doçura e de amor, dorme o sono dos justos em tua última jazida

Hei de evocar, doravante, a tua memória, em nome de todas as mulheres, para que realizem a nobre missão que tanto te preocupavas em inspirar-lhes.

Virei associar, à tua imagem, a daqueles a quem choro: Pai, Esposo e Mãe. A rememoração desta querida trindade que me foi, ai de mim!, tão cedo arrebatada, é digna (pelo amor da Humanidade, de que deu tantas provas) de ser incorporada à tua lembrança.”

No período de 1870-1871, devido ao cerco de Paris na ocasião dos combates da guerra entre França e Prússia e depois com os conflitos envolvendo a Comuna de Paris, Nísia saiu de Paris e foi para cidades suiças e espanholas, tendo retornado ao Brasil em 1872, que passava por vigorosa campanha ablolicionista liderada por Joaquim Nabuco. Em 1875 Nísia foi de novo para a Europa e morou em Londres, Berlim, Lisboa e Paris. Depois foi morar no interior da França e lá publicou em 1878 a obra Fragments d’un Ouvrage Inédit: Notes Biographiques.

Em 24 de abril de 1885, Nísia Floresta faleceu devido a uma pneumonia, na cidade francesa de Rouen, com 74 anos de idade. Foi enterrada em Bonsecours, Normandia, França. Em agosto de 1954 seus restos mortais foram levados para a sua terra natal no Brasil.

Segundo a autora Constância Lima Duarte, que escreveu o livro Nísia Floresta: Vida e Obra, Nísia está no que ela define como "bom feminismo". Para esta autora, Nísia não pretendia alterar de forma substancial as relações sociais, mantendo as mulheres nos limites ideológicos do privado:  "Ao evocar uma formação cultural feminina aprimorada, suas sugestões enclausuravam a mulher nas mesmas funções cotidianas, ou seja, o cuidado com a casa e a família”.

A autora Branca Moreira Alves, disse sobre Nísia que o feminismo de Nísia Floresta se misturava a uma visão romântica da mulher na qual a dedicação à família e ao lar ainda era a direção para a trajetória feminina: "No entanto, como esperar um posicionamento díspar da sua época?”

Ainda que com as limitações devido ao contexto, houve várias críticas de Nísia à forma como as mulheres eram tratadas e à educação da época, o que pode ser visto em dizeres dela em obras que ela escreveu:

“Não poderá haver no Brasil uma boa educação da mocidade, enquanto o sistema de nossa educação, quer doméstica, quer pública, não for radicalmente reformado [...]”

“Flutuando como barco sem rumo ao sabor do vento neste mar borrascoso que se chama mundo, a mulher foi até aqui conduzida segundo o egoísmo, o interesse pessoal, predominante nos homens de todas as nações.”

 “Todos os brasileiros, qualquer que tenha sido o lugar de seu nascimento, têm iguais direitos à fruição dos bens distribuídos pelo seu governo, assim como à consideração e ao interesse de seus concidadãos.”

“Se cada homem (…) fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, (…) reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens.”

“Se este sexo altivo quer fazer-nos acreditar que tem sobre nós um direito natural de superioridade, por que não nos prova o privilégio, que para isso recebeu da Natureza, servindo-se de sua razão para se convencerem?”

 “Que personagens singulares! (…) Exigir uma servidão a que eles mesmos não têm coragem de se submeter, (…) e querer que lhe sirvamos de ludibrio, nós, a quem eles são obrigados a fazer a corte e atrair em seus laços com as submissões mais humilhantes.”



Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Pipiras

 




 

Pipiras pousam na sacada,

Elas sacaram

Que se pousarem receberão sua mesada diária.

Não infância não tive mesada

Do meu pai,

Mas já disse muito “ai”,

Em topadas com o dedo mindinho

Na perna da mesa.

Se dói?

Ah! Com certeza,

Era uma experiência pra lá de transcendental!

A cada batida eu via anjos,

Tocando banjos,

No quintal.

Pipira é um passarinho,

É um pássaro bonitinho,

Que come o mamão,

Que eu coloco bem cedinho.

Passarinhos inteligentes,

Gostam dos clássicos imortais,

Enquanto ouvem atentamente,

Fico ali na paz,

À toa,

Vendo curtirem um Mozart ou um Beethoven.

É rapaz,

Gosto quando as pipiras vem,

São todas “gente boa”,

“Gente boa demais!”

 

Márcio José Matos Rodrigues

 


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

As Guerras do Ópio

 





As Guerras do Ópio se caracterizaram por  intervenções militares imperialistas e neocolonialistas por parte do governo britânico e depois também pelo Império da França em relação à China, abrindo caminho para a expansão imperialista de outros países em territórios que foram tomados do Império Chinês. Além de serem atos do imperialismo inglês e francês, também resultaram em uma violência contra o povo chinês, impondo o comércio do ópio, uma droga que causava dependência química e psicológica , deixando milhões de jovens chineses prejudicados pelo uso constante desta droga e interferindo no bem estar da sociedade chinesa. Nas duas guerras, as forças armadas francesas e britânicas saíram vitoriosas e conseguiram privilégios comerciais no território chinês, pois por meio dos Tratados Desiguais o governo da China foi obrigado a liberar o comércio do ópio, teve de abrir portos a comerciantes estrangeiros e ceder áreas do território chinês. Esses conflitos enfraqueceram a dinastia chinesa Qing que veio a cair no início do século XX.

 

Primeira Guerra do Ópio (1839 a 1842):

O governo chinês quis acabar com o comércio do ópio em seu território. Essa proibição afetou os comerciantes ingleses que vendiam ópio, uma droga, para os chineses desde o século XVIII.  O governo da China considerou os malefícios que a droga, vendida amplamente pelos ingleses, estava causando para a sua juventude, afetando gravemente a economia e a sociedade do país.

O comércio do ópio era muito desejado para os ingleses, pois outros produtos europeus não despertavam muito interesse em consumo na China e a balança comercial sem o ópio ficava a favor desta que vendia chá, seda e porcelanas.

O governo chinês tentou acabar com o comércio de ópio e em março de 1839 apreendeu e mandou destruir 20 mil caixas desta droga que pertenciam a comerciantes da Grã-Bretanha da Companhia das Índias Orientais. Tais medidas do governo chinês  irritaram o governo britânico porque o comércio do ópio estava sendo proibido e as caixas dos comerciantes foram destruídas. Outro fato que contribuiu para acirrar a tensão foi o envolvimento de marinheiros ingleses numa briga que levou à morte um cidadão chinês. Os ingleses não quiseram se submeter a um tribunal chinês e o governo da China resolveu então proibir o comércio e o abastecimento de navios britânicos. 

A resposta inglesa aos atos de proibição do comércio britânico na China foi o envio de uma força expedicionária em 1840. As forças britânicas fizeram ataques a barcos e portos chineses na área da foz do Rio das Pérolas e objetivavam a conquista da cidade chinesa de Cantão.

Os britânicos tinham vantagens tecnológicas em relação aos armamentos usados e tinham táticas superiores. As perdas britânicas não eram altas. Após várias vitórias militares em agosto de 1842 as forças do Império Britânico chegaram perto da cidade de Nanquim. Nessa ocasião foram recebidos por representantes do governo chinês que dizia aceitar as exigências britânicas para finalizar a guerra.

Em 29 de agosto de 1842 foi assinado o Tratado de Nanquim, obrigando a China a pagar uma grande indenização ao Reino Britânico e também a ceder Hong Kong, assim como aumentar o número de portos abertos ao livre comércio com os estrangeiros. Esse Tratado foi o primeiro dos “Tratados Desiguais”, impostos à China devido às Guerras do Ópio. E em 1843 os chineses tiveram de aceitar o Tratado de Humen que dizia que os ingleses somente poderiam ser julgados nos tribunais da Grã-Bretanha. Após esses tratados foram feitos acordos também com França e Estados Unidos que também queriam comercializar ópio.

Segunda Guerra do Ópio (1856-1860)

Os britânicos faziam pressão sobre a China em relação ao tratado comercial. E o império chinês continuavam a querer dificultar o tráfico de ópio que atingia sua juventude. Houve em 1856 um navio inglês capturado por autoridades chinesas sob acisação de estar exercendo atividades de pirataria. Doze tripulantes foram presos. Após reclamações dos britânicos foram soltos nove marinheiros. Diante dessa situação, houve um bombardeio por parte dos ingleses na cidade de Cantão e os chineses reagiram queimando fábricas e armazéns comerciais europeus. Nessa época a França entrou na guerra.  Após a morte de um missionário francês em 1856 foi então enviada uma força armada francesa para a China. Começava a Segunda Guerra do Ópio.

Inglaterra e França tinham superioridade na tecnologia militar e a China estava convulsionada por um conflito interno: a Revolta dos Taipings (1850-1864).

Tropas britânicas  e francesas após chegar até Tianjin, forçaram os chineses a assinar o Tratado de Tianjin, que estipulava mais indenizações, a abertura de mais portos ao comércio internacional e o estabelecimento de embaixadas da França, Rússia, EUA e Grã-Bretanha em Pequim. Mesmo com esse acordo a China resistia a cumprir certas exigências e a guerra continuou até a conquista de Pequim pelas forças britânicas e francesas. A conquista de Pequim levou o governo chinês a aceitar a Convenção de Pequim (1860), que estabeleceu que a China deveria pagar nova indenização, não haveria limitações à expansão do cristianismo e o ópio seria legalizado.

______________________________________________

 

Sobre o ópio diz o site Brasil Escola:

O ópio é um suco espesso extraído dos frutos imaturos de várias espécies de papoulas soníferas, utilizado como narcótico. Planta essa que cresce naturalmente na Ásia, sendo originária do Mediterrâneo e Oriente Médio.

O ópio tem um cheiro característico, que é desagradável, sabor amargo e cor castanha. É utilizado pela medicina como analgésico.

Os principais alcalóides do ópio são: a morfina, a codeína, a tebaína, a papaverina, a narcotina e a narceína.

O cultivo da planta é legal, serve de fonte de matéria-prima em laboratórios farmacêuticos. Porém, grande parte das plantações é ilegal, sua produção é destinada ao comércio clandestino de ópio e heroína. No mercado ilegal o ópio é vendido em barras ou reduzido a pó e embalado em cápsulas ou comprimidos.

O uso do ópio foi espalhado no Oriente, mascado ou fumado. Esse provoca euforia, dependência física, seguida de decadência física e intelectual. Os efeitos físicos decorrentes da utilização do ópio são: náuseas, vômitos, ansiedade, tonturas e falta de ar. O efeito dura de três a quatro horas.

O ópio provoca dependência no organismo. O dependente fica magro, com a cor amarela e tem sua resistência às infecções diminuída.

Devido a grave dependência que o ópio causa, o usuário pode morrer em razão da síndrome de abstinência. A crise de abstinência inicia-se dentro de doze horas, aproximadamente, apresenta-se de várias formas, ocorrendo desde bocejos até diarreias, passando por rinorréia, lacrimação, suores, falta de apetite, pele com arrepios, tremores, câimbras abdominais, insônia, inquietação e vômitos.

Por Patrícia Lopes


Equipe Brasil Escola

 

___________________________________

 

Márcio José Matos Rodrigues- Professor de História


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Trump e a postura atual dos Estados Unidos na política internacional

 





A postura atual dos Estados Unidos no mundo tem sido de tendência bastante intervencionista e ao mesmo tempo protecionista sob o comando do presidente Donald Trump.

Esta posição tem relação com outras posições políticas de épocas passadas influenciam o presidente atual. Também a postura do governo atual tem muito a ver com a própria personalidade dele.

A seguir uma parte do artigo da Agência Hora de 04/04/2025:  Por que Trump tem comportamento tão radical? Veja a explicação científica.

“(...) Entre declarações polêmicas e decisões contestáveis, Donald Trump desperta curiosidade e apreensão em todo o mundo. Sua personalidade forte se traduz em atitudes que podem ser consideradas impulsivas e intolerantes. Diante disso, muitos se questionam: o que se passa em sua mente?

O psicólogo Dan McAdams, especialista em personalidade e professor da Universidade Northwestern, buscou compreender os traços mais marcantes de Trump. Em sua análise, concluiu que ele apresenta um perfil extremamente narcisista.

Em sua mente, ele é mais como uma persona do que uma pessoa, mais como uma força primordial ou super-herói, do que um ser humano totalmente realizado”, afirma McAdams em seu livro The Strange Case of Donald J. Trump: A Psychological Reckoning.

A performance constante e o instinto primitivo

Trump se esforça para atuar como Donald Trump. Ele faz isso de forma consciente. “Ele se move pela vida como um homem que sabe que está sempre sendo observado”, explica McAdams.

 Teatralidade é essencial para sua “liderança orientada para a dominância”. Para o psicólogo, o modelo de liderança se baseia no medo e no poder, lembrando estruturas primitivas da evolução humana.

Para muitos americanos, sua postura exagerada e suas declarações polêmicas têm um “apelo primitivo”. McAdams compara seu comportamento à forma como chimpanzés intimidam adversários.

 

Energia incontrolável e temperamento explosivo

Ainda segundo o psicólogo, a extroversão é marcada pelo entusiasmo e pela busca por experiências. Esse traço está fortemente presente em Trump. Pessoas extrovertidas estão sempre em busca de recompensas.

“Incitados pela atividade dos circuitos de dopamina no cérebro, atores altamente extrovertidos são levados a buscar experiências emocionais positivas, sejam elas na forma de aprovação social, fama ou riqueza”, diz McAdams.

“É a busca em si, mais até do que a obtenção real do objetivo, que os extrovertidos acham tão gratificante.” Esse comportamento explica muitas de suas atitudes arrogantes. Seu ego extrovertido se alimenta da necessidade de dominar.

Para McAdams, apesar do teatro, sua raiva é autêntica. Isso torna a convivência difícil, mas também fortalece sua imagem. A agressividade é vista por seus eleitores como sinal de firmeza.

Trump não demonstra preocupação com valores tradicionais americanos. “Ao contrário de qualquer presidente dos EUA nos últimos 100 anos, Trump nem sequer finge interesse em defender valores americanos tão sagrados como o respeito pelos direitos humanos ou a oposição à tirania”, aponta McAdams.

 

O narcisismo como marca registrada

Amor-próprio excessivo e exibicionismo são marcas do narcisismo. Trump personifica essas características. Seu nome está em tudo que toca, garantindo que seja sempre lembrado.

Ele também provoca polêmicas e usa sua teatralidade para chamar atenção. Para McAdams, isso vem da infância. Trump sempre foi competitivo, envolvido em esportes e treinado em uma academia militar.

“Pessoas com fortes necessidades narcisistas querem amar a si mesmas, e querem desesperadamente que os outros as amem também — ou pelo menos as admirem, as vejam como brilhantes, poderosas e bonitas, até mesmo apenas as vejam, ponto final (...)”.

Também sobre a personalidade de Trump destaco o artigo de Luís Caeiro, Professor de Liderança na Catolica Lisbon School of Business and Economics. Abaixo uma parte deste artigo:

 

 AS FALSAS CRENÇAS SOBRE A LIDERANÇA. Donald Trump: uma liderança carismática personalizada

 

Ainda durante a campanha eleitoral de 2016, um grupo de 3 000 psicoterapeutas sob a designação de  Citizen Therapists for Democracy publicaram um manifesto (Citizen Therapists Against Trumpism) alertando para o surgimento de uma ideologia “trumpista” que ameaçava o bem-estar e a democracia. O criador do manifesto, William Doherty, professor de psicologia da Universidade do Minnesota, justificou a sua posição dizendo que “temos que nos preocupar com a saúde mental pública e as condições sociais que promovem o florescimento ou a disfunção humana, o que significa termos um envolvimento público…”. Pouco depois, um grupo de 35 especialistas de saúde mental enviou uma carta ao The New York Times declarando que os sinais de grave instabilidade emocional de Trump o tornavam incapaz de desempenhar as funções de presidente.

 

Em 2017, o grupo Duty to Warn, criado por John Gartner, um psicoterapeuta professor da Escola Médica da Universidade Johns Hopkins, recolheu mais de 60 000 assinaturas de profissionais de saúde mental e enviou para Washington uma petição (Mental Health Professionals Declare Trump is Mentally Ill And Must Be Removed) onde se afirmava que Donald Trump tinha “problemas mentais graves que o tornavam psicologicamente incapaz de desempenhar de forma competente os deveres de presidente dos Estados Unidos”.

Numa conferência na Universidade de Yale Gartner disse que “temos a responsabilidade ética de alertar o público sobre a perigosa doença mental de Donald Trump”. Em resposta a estas declarações, Allen Frances, da Universidade de Duke, escreveu uma carta à Times denunciando que não havia bases para se considerar Trump um doente mental, mas afirmou que, no entanto, “pode e deve ser denunciado pela sua ignorância, incompetência, impulsividade e busca de poderes ditatoriais”.

Vinicius Carvalho publicou no dia 12 de janeiro de 2026 em Àrea VIP 25 anos:

PhD em psicologia e neurociência do Centro para o Bem-Estar Cognitivo e Comportamental da Universidade de Boulder, no Colorado, Frank George, disse que o americano está com “Demência Frontotemporal” em estágio inicial.

Ele veio à público para rebater comentários que Donald estaria com Alzheimer, e acabou revelando que na verdade é outra enfermidade. Em artigo divulgado no Substack e no LinkedIn, George disse que o público merece “fatos, e não conjecturas”, declarando que “o Alzheimer debilita uma pessoa. Trump não está debilitando, está piorando, e você precisa saber o motivo assustador disso.”

 Especialista faz análise de Donald Trump

 O especialista comentou que os sintomas do Republicano são condizentes com Demência Frontotemporal, devido a mudanças de comportamento, personalidade, linguagem e funções motoras. George explica que “isso não é um palpite tirado do nada”, porém a conclusão de uma análise de centenas de especialistas.

 O doutor explicou que a doença é gerada pela perda progressiva de células nervosas nos lobos frontais e temporais. Dessa forma, um dos sintomas é a confabulação, criação de falsas memórias. Ele citou exemplo de o americano acreditar que encerrou oito guerras desde 2025 (...)

(...) Outros sintomas são o andar desajeitado, postura irregular, perda de decoro, impulsividade e ações desmedidas, e a troca de palavras em discursos recentes como “United States” por “United Shersh”, “mísseis” por “mishes” e “Christmas” por “cricious” (...)

Considerando as análises expostas, percebe-se uma liderança autoritária, narcisista, populista,  instável emocionalmente e que pode estar desenvolvendo um tipo de demência. Estes aspectos emocionais do presidente somam-se a uma história de imperialismo dos Estados Unidos como potência militar e econômica.

Farei um retrospecto de modelos e doutrinas de política externa dos Estados Unidos no passado para se entender melhor como este país desde o século XIX tem realizado sua expansão e também destacando o atual Corolário Trump:

 

Doutrina Monroe:

Foi criada em dezembro de 1823 pelo presidente James Monroe contra interferências européias no continente americano e para fortalecer a influência dos Estados Unidos no continente. Na época países independentes estavam surgindo na América Latina e os países colonizadores entravam na Santa Aliança que defendia o absolutismo e com a existência de interesses recolonizadores.

Os objetivos da Doutrina eram a não recolonização, impedir que potências européias fizessem intervenções nas questões internas de nações latino americanas e a manutenção dos Estados Unidos fora de conflitos europeus. Mas além de pregar a defesa da independência de países latino americanos, houve posteriormente, perto do fim do século XIX,  a justificativa de intervenções dos Estados Unidos em países da América Latina. A frase que resume a Doutrina Monroe é : “América para os americanos”. Na época que Monroe criou essa doutrina os Estados Unidos ainda não eram nem mesmo uma potência regional. Mas de 1891 a 1912 os EUA realizaram uma série de intervenções militares para aumentar a influência militar, econômica e política na região do Caribe.

 

Destino Manifesto

Doutrina do Destino Manifesto surgiu a partir do termo criado pelo jornalista John Louis O'Sullivan na década de 1840. Segundo essa doutrina os Estados Unidos tinham uma missão divina de se expandir e impor seus valores culturais. A expansão seria não só desejável, como também um direito divino. As crenças neste sentido motivaram a anexação de terras indígenas no Oeste e a conquista de territórios que eram do México por meio de uma guerra. Havia uma relação entre a Doutrina Monroe e a do Destino Manifesto, pois ambas foram utilizadas para justificar as pretensões expansionistas dos EUA.

 

Big Stick (“O grande porrete”)

Essa política aconteceu no início do século XX. Por essa política os Estados Unidos ampliavam a sua idéia de que tinham direito de se expandirem em outros países para garantir objetivos econômicos, utilizando diplomacia e força militar. O termo foi criado pelo presidente Theodore Roosevelt em 1901 quando citou um provérbio africano que dizia: "com fala macia e um grande porrete, você vai longe".

Um acontecimento envolvendo esse princípio de intervenção ocorreu durante a intervenção da marinha alemã em portos da Venezuela em 1902 para cobrança de dívidas. Essa intervenção contrariava a Doutrina Monroe e os Estados Unidos resolveram intervir mandando navios, obrigando a uma negociação entre Venezuela e Alemanha para pagamento de dívidas. O presidente dos EUA fez uma modificação em 1904 da Doutrina Monroe. Segundo essa alteração, poderia haver intervenção dos EUA em caso de nações americanas não terem capacidade de reagir diante de ações de outros países.

A política do Big Stick foi defendida por T.Roosevelt, pois os EUA teriam, segundo ele, o direito de agirem como uma polícia mundial para garantir a ordem. Também foi usada em casos como do Canal do Panamá. Diante de resistências da Colômbia em aceitar termos do governo dos EUA, foi favorecida uma parte da Colômbia se separar formando o Panamá, que aceitou as determinações dos EUA sobre o canal.

 

Diplomacia do dólar

Por meio dessa política instituída pelo presidente William Howard Taft, que governou após o mandato de Teodhore Roosevelt, os Estados Unidos realizaram intervenções financeiras que levaram ao estabelecimento de controles sobre as finanças de Estados da América Central e Caribe.

Na atualidade, considerando pressupostos políticos e ideológicos citados (Doutrina Monroe, Doutrina do Destino Manifesto, Big Stick, Diplomacia do Dólar) e considerando também a própria personalidade do presidente Trump, surgiram uma série de condutas do governo deste presidente.

Corolário Trump:

Trump citou em documento a "migração ilegal e desestabilizadora" como um dos principais problemas originados na América Latina. Outra questão que Trump destaca em sua política é a necessidade de combater cartéis de drogas da América Latina que enviam principalmente cocaína para os EUA .

Há a crença da parte dos que planejam a segurança nacional atualmente dos EUA de que a América Latina é  "parte da sua fronteira de segurança interna”. O autor Bernabé Malacalza em seu livro del Siglo XXI ("As cruzadas do século 21", em tradução livre) disse: "A América Latina passou a ser prioridade para os Estados Unidos".

Em suas ações de política externa passou a haver o slogan de Trump: America First (Os Estados Unidos em primeiro lugar). Assim é defendida a ideia do uso de"alíquotas e acordos comerciais recíprocos como ferramentas poderosas”.

Também foi feito o alerta de limitar atividades de potências estrangeiras consideradas hostis (referência implícita à China). O interesse de Trump além do fortalecimento das empresas dos EUA é que países tenham economias fortes para aumentar relações comerciais  com os EUA. Segundo o objetivo de Trump: “um hemisfério ocidental economicamente mais forte e sofisticado se transforma em um mercado cada vez mais atraente para o comércio e os investimentos dos Estados Unidos". Para conseguir o apoio de nações, é destacado que “a força é o melhor elemento de dissuasão”. Assim, é reforçada a ideia de "paz pela força", que já era defendida pelo presidente norte-americano Ronald Reagan.

Segundo o professor Malacalza sobre a política de segurança em relação à América Latina: "não configura uma arquitetura regional ou hemisférica, mas sim procura fazer com que os países se alinhem aos Estados Unidos e, em última instância, a Trump". Segundo o pensamento trumpista: "Recompensaremos e incentivaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região que se alinharem amplamente aos nossos princípios e estratégia”. Neste sentido há a intenção de apoiar líderes e aliados regionais "capazes de promover uma estabilidade razoável na região”.

Segundo Carlos Sanchez Berzain em O “Corolário Trump à Doutrina Monroe” define a geopolítica e a mudança nas Américas (07/12/2025):

O texto da Estratégia de Segurança Nacional afirma que “os Estados Unidos reafirmarão e implementarão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e o acesso a geografias-chave em toda a região. Negaremos a concorrentes não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério. O Corolário Trump à Doutrina Monroe é uma restauração sensata e enérgica do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de segurança dos Estados Unidos.”(...)

Segundo o professor de Relações Internacionais Ricardo Leães em seu artigo no Correio Braziliense:

As cenas da ope­ra­ção mili­tar dos Esta­dos Uni­dos na Vene­zu­ela, na madru­gada do dia 2 para 3 de janeiro, são impac­tan­tes: bom­bar­deios sele­ti­vos e o seques­tro de Nico­lás Maduro — agora ex-pre­si­dente do país — e de sua esposa, Cilia Flo­res. Mais do que uma ação com o obje­tivo de apro­priar-se dos recur­sos petro­lí­fe­ros vene­zu­e­la­nos, a ini­ci­a­tiva revela algo maior: o retorno decla­rado da Dou­trina Mon­roe na Amé­rica Latina.

 

A Dou­trina Mon­roe é um con­junto de prin­cí­pios esta­be­le­ci­dos em 1823 por James Mon­roe, então pre­si­dente dos Esta­dos Uni­dos. À época, os paí­ses latino-ame­ri­ca­nos luta­vam por sua inde­pen­dên­cia, mas enfren­ta­vam a resis­tên­cia dos euro­peus, que bus­ca­vam reto­mar a colo­ni­za­ção da região. Diante disso, Mon­roe bra­dou “Amé­ri­cas para os ame­ri­ca­nos”, rejei­tando o retorno do colo­ni­a­lismo euro­peu e defen­dendo a inde­pen­dên­cia das novas repú­bli­cas.

 

Com o pas­sar do tempo, entre­tanto, os dita­mes da Dou­trina Mon­roe fica­ram cla­ros: em vez de con­fi­gu­rar um fun­da­mento de res­peito à sobe­ra­nia e à liber­dade das nações latino-ame­ri­ca­nas, tra­tava-se de uma estra­té­gia de domi­na­ção esta­du­ni­dense sobre o sub­con­ti­nente. “Ame­ri­ca­nos”, para James Mon­roe, eram os nas­ci­dos nos Esta­dos Uni­dos — e não todos os habi­tan­tes das Amé­ri­cas.

 

A par­tir da virada do século 19 para o século 20, a Dou­trina Mon­roe ganhou uma nova colo­ra­ção, com o sur­gi­mento do Coro­lá­rio Roo­se­velt, que deli­neou a estra­té­gia impe­ri­a­lista dos Esta­dos Uni­dos para o Hemisfé­rio Oci­den­tal. Dora­vante, paí­ses que des­cum­pris­sem nor­mas e regras de Washing­ton pode­riam sofrer inter­ven­ções mili­ta­res, como de fato ocor­reu em inú­me­ras opor­tu­ni­da­des.

 

Pos­te­ri­or­mente, o sur­gi­mento dos movi­men­tos naci­o­na­lis­tas e soci­a­lis­tas na Amé­rica Latina pas­sou a ser visto como a maior ame­aça ao domí­nio esta­du­ni­dense na região, colo­cando em risco a Dou­trina Mon­roe. Por conta disso, além de rea­li­zar pres­são eco­nô­mica e mili­tar e finan­ciar gol­pes de Estado, Washing­ton bus­cou criar meca­nis­mos ins­ti­tu­ci­o­nais para afi­an­çar sua hege­mo­nia.

 

Nesse sen­tido, suces­si­vos pre­si­den­tes esta­du­ni­den­ses apren­de­ram que pode­riam exer­cer seu domí­nio sobre a Amé­rica Latina de forma indi­reta, ape­nas recor­rendo à vio­lên­cia em situ­a­ções limite. Nos demais casos, ini­ci­a­ti­vas de coop­ta­ção de eli­tes locais eram a pre­fe­rên­cia para asse­gu­rar que os latino-ame­ri­ca­nos não desa­fi­as­sem Washing­ton.

 

O segundo man­dato de Donald Trump, porém, repre­senta um ponto de infle­xão nessa his­tó­ria. O repu­bli­cano não somente tem defen­dido o retorno da Dou­trina Mon­roe, como apre­goou a cri­a­ção de outra estra­té­gia: o Coro­lá­rio Trump. Com efeito, esse plano está sina­li­zado na Estra­té­gia Naci­o­nal de Segu­rança (2025), docu­mento que indica as pre­fe­rên­cias de polí­tica externa da atual admi­nis­tra­ção.

 

Ao longo do texto, afirma-se que a pri­o­ri­dade dos Esta­dos Uni­dos será o Hemisfé­rio Oci­den­tal, um eufe­mismo para refe­rir-se à Amé­rica Latina. Além disso, anun­cia-se que a região deve ficar livre de influ­ên­cias de potên­cias extrar­re­gi­o­nais, uma clara — mesmo que velada — refe­rên­cia à China e, em menor medida, à Rús­sia.

 

Segundo essa pers­pec­tiva, os paí­ses latino-ame­ri­ca­nos não mais deve­rão apre­sen­tar polí­ti­cas de cunho autô­nomo, devendo acei­tar a sub­ser­vi­ên­cia aos dita­mes e inte­res­ses de Washing­ton. Desse modo, os che­fes de Estado que acei­ta­rem essa impo­si­ção seriam recom­pen­sa­dos pelo governo dos Esta­dos Uni­dos.

 

Ade­mais, frisa-se que os recur­sos natu­rais do sub­con­ti­nente deve­rão ser­vir para abas­te­cer a eco­no­mia e as For­ças Arma­das esta­du­ni­den­ses, amal­ga­mando con­ve­ni­ên­cias geo­e­co­nô­mi­cas e geo­po­lí­ti­cas. Por certo, quando Marco Rubio, secre­tá­rio de Estado de Trump, afirma que o inte­resse dos Esta­dos Uni­dos no petró­leo vene­zu­e­lano é no sen­tido de evi­tar que esses hidro­car­bo­ne­tos este­jam em posse de chi­ne­ses e rus­sos, mate­ri­a­li­zam-se os prin­cí­pios ela­bo­ra­dos na Estra­té­gia Naci­o­nal de Segu­rança (...).

 

Dentro da estratégia do governo Trump, com sua atual interpretação da Doutrina Monroe, está se supondo a anexação ou compra da Groenlândia (ligada atualmente à Dinamarca); e estão sendo especulados ataques à Cuba e Colômbia.

Para quem rezou por paz e menos violência em dezembro de 2025 para o ano de 2026, o ano novo começou com muitas incertezas sobre a paz mundial. Trump está afastando tradicionais aliados dos EUA como o Canadá e coloca em risco até mesmo a unidade da OTAN. Um crítico do governo dele já levantou a hipótese de que ele será tirado do poder em um processo de impeachment caso perca a maioria no Congresso. É uma possibilidade que existe sim e, se acontecer, que o substituto dele possa ser uma pessoa mais racional e menos belicista.

 

Márcio José Matos Rodrigues-Psicólogo e Professor de História.


Figura: https://share.america.gov/pt/imagens-da-segunda-posse-de-trump-galeria-de-fotos/