terça-feira, 7 de julho de 2026

O historiador Carlo Ginzburg

 




Em 17 de junho de 2026 faleceu  o historiador italiano-judeu Carlo Ginzburg. Ele nasceu em Turim, Itália, em 15 de abril de 1939. Cresceu em uma família marcada pelo engajamento intelectual e político. Seu pai era o professor e tradutor Leone Ginzburg, opositor do fascismo, torturado e morto em uma prisão italiana no tempo da  Segunda Guerra Mundial. Sua mãe era a romancista Natália Ginzburg.

Carlo Ginzburg se dedicou a temas como bruxaria, heresias, religiosidade popular e formas de circulação do conhecimento na Era Moderna. Ele ficou conhecido por investigar, a partir das trajetórias de indivíduos comuns, grandes processos sociais e culturais. Foi um dos pioneiros da micro-história, que surgiu na Itália nos anos 1970 e que é uma metodologia da ciência histórica que leva em consideração fontes e narrativas alternativas, não considera somente mudanças macroeconômicas e políticas que determinam fatos e épocas, mas também o cotidiano, as subjetividades, representações e linguagens que formaram a realidade. Estudou na Escola Normal Superior de Pisa e no Instituto Warburg em Londres. Foi professor de história moderna na Universidade de Bolonha, nas universidades de Harvard e Princeton e na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, lecionando história do Renascimento italiano. Lecionou história cultural europeia a partir de 2006 na Escola Nornal Superior de Pisa.

Tornou-se especialista nas atitudes e crenças religiosas populares do início da época moderna e publicou em 1966 a obra Os andarilhos do bem , sobre a sociedade camponesa de Friul do século XVI, se baseando em um tipo de documentação relacionada a processos inquisitoriais, com uma interação dialética envolvendo um sistema de crenças amplamente disseminadas no mundo rural, que se originou em uma evolução de um antigo culto agrário, assim como a interpretação pelos inquisidores que buscavam uma equiparação com formas codificadas de bruxaria. A sua obra O queijo e os vermes o tornaram conhecido mundialmente. Essa obra, que abordava a vida de um camponês, tornou-se uma referência internacional da historiografia, relatando a vida e as idéias de Menocchio, um moleiro do século XVI que foi perseguido pela Inquisição por suas crenças religiosas. Outra obra de destaque, História noturna , é sobre a caça às bruxas até toda uma diversidade de práticas que tornam evidentes substratos de cultos na Europa. No livro Olhos de Madeira, de 1998, ele explica as distâncias e os contatos entre diversas civilizações.

Ganhou os prêmios Prix Aby Warburg (1992);Prix Lyssenko (1993);Prêmio Letterario Viareggio-Rèpaci (1998); Prêmio Antonio Feltrinelli (2005), para a ciência histórica; Prêmio Balzan (2010). As obras dele tinham um diálogo com a literatura, a antropologia e a história da arte. Defendeu a importância dos detalhes, vestígios e indícios para a reconstrução do passado em textos como “Mitos, emblemas, sinais”. Foi influenciado pela Escola dos Annales, pela Nova História e pelo estruturalismo de Levi-Strauss.

Até o fim de sua vida esteve ativo, debatendo, publicando livros e participando de discussões sobre memória, verdade e interpretação histórica. O conjunto de suas obras foi traduzida para dezenas de idiomas. Faleceu em Bolonha, aos 87 anos.

 

Livros publicados:

I benandanti. Stregoneria e culti agrari tra ‘500 e ‘600 (1966) / edição em português Os Andarilhos do Bem

Il nicodemismo. Simulazione e dissimulazione religiosa nell’Europa del ‘500 (1970)

Giochi di pazienza. Un seminario sul ‘Beneficio di Cristo’ (1975, publicado em colaboração com Adriano Prosperi)

Il formaggio e i vermi. Il cosmo di un mugnaio del ‘500 (1976) / edição em português O Queijo e os Vermes. 

Indagini su Piero. Il Battesimo, il ciclo di Arezzo, la Flagellazione di Urbino (1981) /  Investigando Piero

Miti emblemi spie (1986) / edição em português Mitos, Emblemas e Sinais

Storia notturna. Una decifrazione del sabba (1989) / edição em português História Noturna

Il giudice e lo storico. Considerazioni in margine al processo Sofri (1991) / edição em inglês Judge And The Historian

Occhiacci di legno. Nove riflessioni sulla distanza (1998) / edição em português Olhos de Madeira

History, Rhetoric, and Proof. The Menachem Stern Jerusalem Lectures (1999) 

Das Schwert und die Glühbirne. Eine neue Lektüre von Picassos Guernica (1999)

No Island is an Island. Four Glances at English Literature in a World Perspective (2000) / edição em português Nenhuma Ilha é Uma Ilha

Tentativas (2003)  

Un dialogo (2003, publicado em colaboração com Vittorio Foa)

Rekishi o Sakanadeni Yomu (2003)

Il filo e le tracce. Vero falso finto (2006) / edição em português O Fio e os Rastros

Paura, reverenza, terrore. Rileggere Hobbes oggi (2008) / edição em português Medo, Reverência, Terror.

Nondimanco. Machiavelli, Pascal (2018)

Morelli, Freud e Sherlock Holmes

Relações de Força

A Historical Approach to Casuistry

Old Thiess, a Livonian Werewolf

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


quinta-feira, 18 de junho de 2026

Poema "A Mangueira"

 




A Mangueira

 

Era uma mangueira já centenária,

Não chorava e nem ria,

Mas dava os frutos doces que o menino queria.

O menino colhia,

As mangas que o vento fazia

Caírem na terra.

Não era uma guerra,

Entre vento e ramagens,

Era tão somente a sabedoria da natureza

Que se manifestava.

E tu aí que repousavas em baixo dela,

Notaste como era bela?

Ou apenas usufruías as benesses de mãe tão generosa?

A manga da mangueira era saborosa,

Alimento do menino que tinha fome.

Agora,

O menino é homem.

Contrariamente aos que dizem

Que homem não chora,

Ele fica triste,

Ao lembrar desse tesouro da flora.

Rios correm por seu rosto,

Quando lembra do gosto,

Da manga que preenchia

Um vazio em sua barriga.

Ele recorda aquele dia,

Chovia,

Torrencialmente.

Foi quando a árvore imponente

E sua amiga,

Com suas raízes corroídas,

Caiu fazendo estrondo,

Assustando aquela gente.

Felizmente,

Nenhuma coisa destruída

Pelo impacto.

O menino e a mangueira tinham um pacto,

Um pacto?

Pois então...

Ele agora é agricultor

E planta a semente no chão.

Jambeiros, jaqueiras...

E mangueiras?

Mangueiras sim,

Por que não?

Mangueiras principalmente!

Come ainda muitas mangas,

Até manga verde com sal.

O homem-menino mostrou o que sente:

Amor, sensibilidade e em especial

Gratidão!


Márcio José Matos Rodrigues


sábado, 6 de junho de 2026

O Dia do Meio Ambiente e a questão ambiental no congresso brasileiro

 





O Dia Mundial do Meio Ambiente é uma data internacional sobre a proteção ao meio ambiente criado em 5 de junho de 1972 na Conferência de Estocolmo. Aproveitando a comemoração do Dia do Meio Ambiente, faço aqui a relação com os projetos aprovados na Câmara dos Deputados do Brasil em maio de 2026. As propostas têm autoria de parlamentares do MDB e do Republicanos, com forte presença de nomes ligados ao setor ruralista. Agora os projetos deverão passar pelo Senado. A tramitação foi facilitada, pois foi dispensada a análise em comissões temáticas, já que os projetos se beneficiaram de requerimentos de urgência. Se o Senado alterar o mérito dos textos, eles retornarão à Câmara dos Deputados para uma nova avaliação antes da sanção presidencial. Mas se não houver alterações no Senado, os projetos serão encaminhados ao presidente da República, que pode vetá-los total ou parcialmente. Se houver veto, o Congresso pode derrubá-lo, desde que haja maioria absoluta de deputados e senadores em sessão conjunta.

Os projetos que a Câmara aprovou enfraquecem a fiscalização e a proteção ambiental e afetam áreas de proteção ambiental.

Entre as propostas que mais preocupam os órgãos ambientais está o PL 364/2019. Inicialmente, o texto tratava de retirar o ecossistema dos Campos de Altitude do regime jurídico da Lei da Mata Atlântica, que regulamenta a proteção, conservação e uso sustentável de um dos biomas mais ameaçados do país. Tal medida pode acabar com a  proteção de mais de 50 milhões de hectares de vegetação nativa nos biomas Cerrado, Pantanal, Pampa, Mata Atlântica e Caatinga. Essas áreas poderiam ser desmatadas sem necessidade de autorização prévia ou mecanismos adequados de controle e transparência

Outra questão: O PL 5.900/2025. Este projeto altera a atuação do Ministério do Meio Ambiente sobre espécies da fauna e flora consideradas de interesse econômico. Coloca decisões ambientais ligadas a pareceres do setor agropecuário, sem estabelecer prazo para manifestação. Pode criar um meio de atraso ou de impedimento de medidas de proteção baseadas em critérios científicos. Espécies incluídas nas listas oficiais de ameaçadas de extinção elaboradas por cientistas podem ser afetadas.

Há outro ponto do pacote legislativo que reduz a área da Floresta Nacional do Jamanxim, localizada no município de Novo Progresso, no Pará (PL 2.486/2026). Por esta proposta, cerca de 40% da unidade de conservação é convertida em Área de Proteção Ambiental (APA), Uma mudança assim, segundo especialistas, não está respeitando as exigências previstas no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).

Uma outra alteração prevista neste pacote, por meio do PL2.564/2025,  altera a Lei de Crimes Ambientais e afeta um dos principais instrumentos de combate ao desmatamento ilegal: o embargo remoto realizado com base em imagens de satélite. Esta condição técnica é muito importante para o IBAMA com o objetivo de impedir que áreas recém-desmatadas continuem sendo exploradas economicamente. Pela mudança proposta deverá haver notificação prévia dos responsáveis antes da efetivação da medida de embargo. Isso foi criticado por órgãos ambientais, porque esta notificação pode comprometer a rapidez necessária para interromper crimes ambientais em andamento.

Por fim, outra proposta em tramitação muda regras de compartilhamento de informações utilizadas na concessão de crédito e seguro rural. O Ministério do Meio Ambiente diz que esta proposta do PL 3.123/2025 pode fragilizar mecanismos de controle socioambiental e pode favorecer produtores envolvidos em irregularidades ambientais, como aqueles envolvidos em produções em terras desmatadas ilegalmente e ligados à grilagem.

Segundo o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Ribeiro Capobianco sobre as propostas que atingem o meio ambiente e que foram aprovadas na Câmara:

 “É um movimento extremamente grave porque opera em várias frentes simultâneas, com um potencial de impacto sobre a gestão ambiental em proporções nunca vistas. É um retrocesso inimaginável para um país considerado detentor de uma legislação ambiental das mais avançadas do mundo. Não poderíamos imaginar que o Brasil, no século 21, assistiria a essa degradação da lei para atender interesses específicos, de setores que querem seguir operando de forma irresponsável em relação à conservação ambiental”.

Gabriela Nepomuceno, especialista em Políticas Públicas do Greenpeace Brasil destacou que tais aprovações na Câmara estão atendendo de forma exclusiva as demandas econômicas de setores do agronegócio, ignorando os alertas técnicos de entidades socioambientais. Sobre a redução de uma floresta nacional, ela disse que abre um precedente preocupante para a exploração econômica de outras fronteiras protegidas.

Diante das críticas e alertas do Ministério do Meio Ambiente e de especialistas, cabe agora ao Senado analisar criteriosamente os projetos e agir de forma correta, não permitindo que medidas altamente danosas ao meio ambiente sejam aprovadas. Lembrem-se senhores senadores da grande responsabilidade que vocês tem. É notório que há os interesses econômicos e financeiros que influenciam enormemente na política defendida por muitos deputados e senadores ligados ao agronegócio. Mas é fundamental considerar que o meio ambiente em nosso planeta vem sendo ameaçado, a questão climática já atinge centenas de milhões de pessoas no mundo todo com secas, calor excessivo, inundações etc. Pensem  na responsabilidade que cabe a vocês. As vidas de vocês estão ligadas ao meio ambiente. O próprio agro está sendo afetado pela questão climática, pela alteração do regime de chuvas e pela seca que atinge os rios. E as gerações seguintes serão mais afetadas. Como estará a situação daqui a 10, 20 anos? Este ano haverá eleições. Os eleitores precisam ser rigorosos e eleger pessoas que tenham verdadeira preocupação humanista e com o meio ambiente.


 Sugestão para ver:

https://www.youtube.com/watch?v=XAi3VTSdTxU

Michael Jackson - Earth Song (Official Video)

 

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Márcio José Matos Rodrigues-Psicólogo e Professor de História.


Figura: https://www.tempo.com/noticias/actualidade/dia-ambiente-mundial-2021-o-planeta-precisa-de-nos-para-se-tornar-a-geracao-restaura-




 

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quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Campanha Maio Amarelo em 2026


 


A campanha Maio Amarelo foi criada em 2014 pelo Observatório Nacional de Segurança Viária para chamar atenção da sociedade para o elevado índice de mortos e feridos no trânsito. A campanha realiza ações educativas e preventivas para incentivar comportamentos mais seguros no trânsito e envolve diversos participantes do sistema (motoristas, ciclistas, motociclistas, pedestres, empresas, órgãos públicos etc).  O mês de maio foi escolhido porque em 11 de maio de 2011 a ONU decretou a Década de Ação pela Segurança no Trânsito e estabeleceu o período de 2011 a 2020 para reduzir mundialmente o número de acidentes de trânsito. O amarelo simboliza atenção e advertência e o laço amarelo é o símbolo da campanha. 

A cada ano há um tema. Em 2026 o Tema da Campanha Maio Amarelo é: “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”. Este tema destaca a responsabilidade na segurança no trânsito e enxergar o outro no trânsito, reforçando a importância da empatia e da atenção no trânsito. É preciso uma conscientização sobre a responsabilidade coletiva, com atitudes seguras como a redução de velocidade e evitar distrações ao volante. Nesta percepção do outro é fundamental ter cuidado com os mais vulneráveis no trânsito como motociclistas, ciclistas e pedestres. A proposta do tema engloba o reconhecimento de histórias, dificuldades e realidades de cada pessoa no trânsito.

Segundo a diretora do Departamento de Segurança no Trânsito da Senatran, Maria Alice Nascimento: “O trânsito é feito de pessoas com nomes, histórias e sonhos. Quando entendemos que não estamos sozinhos no tráfego e que cada decisão nossa impacta diretamente a vida do outro, tudo pode começar a mudar”.

O diretor-presidente da Agetran, Ciro Vieira destacou: “Empatia e respeito são fundamentais no trânsito. Precisamos enxergar o outro como alguém que também tem família, sonhos e direito de chegar ao seu destino com segurança”.

 

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Márcio José Matos Rodrigues-Psicólogo e Professor de História


domingo, 17 de maio de 2026

Poesia Goiabeira

 





Goiabeira


Goiabeira,

Dá  fruta,

Que o passarinho

Vem bicar.

Vende no supermercado

Ou na feira,

Dela se faz doce

E suco para tomar.

Ah! Se eu fosse

O passarinho arteiro,

Vivia por lá.

Goiabeira,

Não és grande,

Como a castanheira,

Que é imponente

E impressiona mesmo a gente.

Quando como a goiaba,

Jogo depois a semente

Na esperança de germinar.

Árvore de clima quente,

Nos quadrinhos da revistinha

O menino sobe em ti para a fruta tirar,

Sonhando com a menina

Que ele quer namorar!


Márcio José Matos Rodrigues


segunda-feira, 20 de abril de 2026

O poeta Brasileiro Vicente de Carvalho

 



Em 5 de abril de 1866 nasceu Vicente Augusto de Carvalho, em Santos (SP), Brasil. Ele foi um fazendeiro, poeta , contista, jornalista, advogado e magistrado  que também participou da política brasileira e um abolicionista. Seus poemas abordam temas como o amor, a morte, a natureza e especialmente o mar. Foi chamado de "poeta do mar". É considerado um dos principais escritores do parnasianismo no Brasil, tendo ocupado a cadeira 29 da Academia Brasileira de Letras e se destacou durante o período da República Velha. Também foi membro da Academia Paulista de Letras. Seu pai era o major Higino José Botelho de Carvalho, dono de uma loja de ferragens e sua mãe era Augusta Carolina Bueno, descendente do aristocrata rural Amador Bueno dos tempos coloniais. 

Vicente de Carvalho estudou no Seminário Episcopal de São Paulo depois no colégio Norton e colégio Mamede. Escreveu seus primeiros versos aos 8 anos. Estudou na Faculdade de Direito de São Paulo e formou-se em 8 de novembro de 1886 com 20 anos de idade no curso de ciências jurídicas e sociais. Tornando-se membro do movimento abolicionista, juntou-se ao grupo caifases de Antônio Bento que ajudava escravos fugidos para irem ao quilombo do Jabaquara. Em 1888 casou-se com Ermelinda Ferreira de Mesquita, irmã do jornalista Júlio de Mesquita, do jornal Província de São Paulo, que na República passou a ser o jornal Estado de São Paulo. O casal teve 16 filhos, entre os quais a poetisa Vicentina de Carvalho. Em 1891 Vicente foi eleito deputado estadual e participou da comissão da Constituição do Estado de São Paulo.

Na administração do governador Cerqueira César, Vicente de Carvalho foi nomeado em fevereiro de 1892 como Secretário de Interior do Estado de São Paulo. Nessa posição ele autorizou a criação da Escola Superior de Agricultura, futura ESALQ, e a Escola Superior de Engenharia, futura Poli. Tentou trazer Louis Pasteur ao Brasil, mas esse cientista  enviou seu aluno Felix Le Dantec. Outras realizações da adminsitração de Vicente foram o Hospital de Isolamento do Instituto Bacteriológico e o Instituto Vacinogênico além do Laboratório de Análise e de Bromatologia e o serviço sanitário do Estado.

Em setembro de 1892 saiu da carreira politica. Antes disso houve um conflito com Alfredo Maia que o acusou de envolvimento em corrupção em uma operação imobiliária.  Tempo depois comprou a fazenda Frutal, em Franca, SP, para plantar café, porém os preços caíram e o negócio não deu certo. Publicou em Santos o livro Solução para a Crise do Café. Nessa obra, constituída de artigos publicados em jornal, ele argumentava que existia excesso de produção em frente à demanda. A proposta dele era destruir uma parte da produção de café para melhorar os preços. Fundou em 1902 junto com João da Silva Martins a Empresa de Navegação Fluvial Sul Paulista para explorar o transporte no Iguape.

Tendo ido para São Paulo, em 1907, Vicente foi nomenado juiz de direito e em 1914 foi nomeado ministro do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Vicente, na ocasião que o presidente Epitácio Pessoa estava visitando Santos, escreveu uma carta pública para ele argumentando contra a privatização da orla e defendendo a sua preservação.

Foi em 1885 que Vicente publicou seu primeiro livro de poesias: Ardentias. Em 1888 o segundo livro foi Relicário . Em 1902 foi Rosa, rosa de amor. A sua obra poética marcante foi Poemas e Canções, publicada em 1908, com prefácio de Euclides da Cunha, com dezessete edições. O poeta também colaborava escrevendo para a revista Branco e Negro (1896-1898).

Como jornalista colaborou com os jornais O Estado de São Paulo e A Tribuna. Fundou os jornais Diário da Manhã, em Santos, em 1889 e O Jornal, em 1905. Foi redator das revistas Ideia e República. Entrou em uma polêmica com o poeta Dias da Rocha. Foi considerado por uma grande figura do início do século XX, Roquete Pinto, como um "grande cidadão”:  “[...] sempre interessado nas questões difíceis da república, juiz de peregrinas virtudes, exemplar representante dos melhores aspectos da sociedade que se formou”.

Estudiosos apontaram as principais características do estilo literário de Vicente de Carvalho : Simplicidade de expressão; presença marcada de sentimentos humanos (raiva, revolta, amor, ternura, etc.); presença de clareza e sinceridade em suas obras no geral.

Faleceu em 22 de abril de 1924, em Santos (SP), aos 58 anos. Uma das principais avenidas de Santos tem seu nome, assim como um distrito de Guarujá, também no Estado de São Paulo e um bairro na cidade do Rio de Janeiro. Há uma estátua do poeta no bairro do Boqueirão, em Santos. Guilherme de Almeida que discursou na inauguração desse monumento disse sobre o homenageado: "poeta épico, e clássico, e lírico, e satírico, e popular, e parnasiano, e simbolista, e naturalista”.

 Principais obras: Ardentias (1885); Relicário (1888); Rosa, rosa de amor (1902); Poemas e canções (1908); Versos da mocidade (1909); Verso e prosa, incluindo o conto "Selvagem" (1909); Páginas coladas (1911); A voz dos sinos (1916); Lucinha, contos (1924).

 

Alguns poemas de Vicente de Carvalho:

Felicidade

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim : mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

 

Pequenino Morto

Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
Pequenino, acorda!

Como o sono apaga o teu olhar inerte
Sob a luz da tarde tão macia e grata!
Pequenino, é pena que não possas ver-te...
Como vais bonito, de vestido novo
Todo azul celeste com debruns de prata!
Pequenino, acorda! E gostarás de ver-te
De vestido novo.

(...)

Que caminho triste, e que viagem! Alas
De ciprestes negros a gemer no vento;
Tanta boca aberta de famintas valas
A pedir que as fartem, a esperar que as encham...
Pequenino, acorda! Recupera o alento,
Foge da cobiça dessas fundas valas
A pedir que as encham.

Vai chegando a hora, vai chegando a hora
Em que a mãe ao seio chama o filho... A espaços,
Badalando, o sino diz adeus, e chora
Na melancolia do cair da noute;
Por aqui, só cruzes com seus magros braços
Que jamais se fecham, hirtos sempre... É a hora
Do cair da noute...

(...)

Por que estacam todos dessa cova à beira?
Que é que diz o padre numa língua estranha?
Por que assim te entregam a essa mão grosseira
Que te agarra e leva para a cova funda?
Por que assim cada homem um punhado apanha
De caliça, e espalha-a, debruçado à beira
Dessa cova funda?

Vais ficar sozinho no caixão fechado...
Não será bastante para que te guarde?
Para que essa terra que jazia ao lado
Pouco a pouco rola, vai desmoronando?
Pequenino, acorda! — Pequenino!... É tarde...
Sobre ti cai todo esse montão que ao lado
Vai desmoronando...

Eis fechada a cova. Lá ficaste... A enorme
Noute sem aurora todo amortalhou-te.
Nem caminho deixam para quem lá dorme,
Para quem lá fica e que não volta nunca...
Tão sozinho sempre por tamanha noute!...
Pequenino, dorme! Pequenino, dorme...
Nem acordes nunca!


Sonho Póstumo

Poupem-me, quando morto, à sepultura: odeio
A cova, escura e fria.
Ah! deixem-me acabar alegremente, em meio
Da luz, em pleno dia.

O meu último sono eu quero assim dormi-lo:
— Num largo descampado,
Tendo em cima o esplendor do vasto céu tranquilo
E a primavera ao lado.

Bailem sobre o meu corpo asas trêmulas, asas
Palpitando de leve,
De insetos de ouro e azul, ou rubros como brasas,
Ou claros como neve.

De entre moutas em flor, oscilantes na aragem,
Úmidas e cheirosas,
Espalhando em redor frescuras de folhagem,
E perfumes de rosas,

Subam, jovializando o ar, canções suaves
— A música sonora
Em que parece rir a alegria das aves,
Encantadas da aurora.

E cada flor que um galho acaso dependura
À beira dos caminhos
Entreabra o seio ao sol, às brisas, à doçura
De todos os carinhos.

Passe em redor de mim um frêmito de gozo
E um calor de desejo,
E soe o farfalhar das árvores, moroso
Como o rumor de um beijo.

Palpite a natureza inteira, bela e amante,
Volutuosa e festiva.
E tudo vibre e esplenda, e tudo fulja e cante,
E tudo sonhe e viva.

A sepultura é noute onde rasteja o verme...
Ó luz que eu tanto adoro,
Amortalha-me tu! E possa eu desfazer-me
No ar claro e sonoro!


 Cantigas Praianas

Ouves acaso quando entardece
Vago murmúrio que vem do mar,
Vago murmúrio que mais parece
Voz de uma prece
Morrendo no ar?

Beijando a areia, batendo as fráguas,
Choram as ondas, choram em vão:
O inútil choro das tristes águas
Enche de mágoas
A solidão…

Duvidas que haja clamor no mundo
Mais vão, mais triste que esse clamor?
Ouve que vozes de moribundo
Sobem do fundo
Do meu amor.


Sugestões do Crepúsculo

Estranha voz, estranha prece
Aquela prece e aquela voz,
Cuja humildade nem parece
Provir do mar bruto e feroz;

Do mar, pagão criado às soltas
Na solidão, e cuja vida
Corre, agitada e desabrida,
Em turbilhões de ondas revoltas;

Cuja ternura assustadora
Agride a tudo que ama e quer,
E vai, nas praias onde estoura,
Tanto beijar como morder...

Torvo gigante repelido
Numa paixão lasciva e louca,
É todo fúria: em sua boca
Blasfema a dor, mora o rugido.

Sonha a nudez: brutal e impuro,
Branco de espuma, ébrio de amor,
Tenta despir o seio duro
E virginal da terra em flor.

Debalde a terra em flor, com o fito
De lhe escapar, se esconde — e anseia
Atrás de cômoros de areia
E de penhascos de granito:

No encalço dessa esquiva amante
Que se lhe furta, segue o mar;
Segue, e as maretas solta adiante
Como matilha, a farejar.

E, achado o rastro, vai com as suas
Ondas, e a sua espumarada
Lamber, na terra devastada,
Barrancos nus e rochas nuas...


 

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História


terça-feira, 31 de março de 2026

A médica romena Sofia Ionescu

 



Em 25 de abril de 1920, em Falticeni, Romênia, nascia Sofia Ionescu Ogrezeanu. Ela foi a primeira mulher neurocirurgiã da mundo e uma referência histórica na neurocirurgia. Era filha de Constantin Ogrezeanu, um caixa de banco e Maria Ogrezeanu. Era amiga de Aurélia Dumitru, filha de um médico e por meio desses contatos Sofia mostrou interesse pela medicina. Também a influenciou a morte de um colega por causa de complicações após uma cirurgia cerebral. Assim, Sofia, apoiada por sua mãe, entrou na Faculdade de Medicina de Bucareste, em 1939.

No início de seus estudos de medicina Sofia começou no campo da oftalmologia. Em 1940 ela começou a estagiar em uma clínica muito mal equipada e estava acontecendo uma epidemia de tifo. No tempo dos combates da Segunda Guerra Mundial, ela se apresentou como voluntária para tratar prisioneiros soviéticos no Hospital Stamate, em Falticeni. Foi lá que realizou suas primeiras cirurgias, sendo a maioria delas casos de amputações. Em 1943 iniciou um estágio no Hospital Número em Bucareste. Mas em 1944 ela realizou uma cirurgia cerebral de emergência em um menino ferido após um bombardeio. Não existiam no momento cirurgiões especializados. Em 1945 tornou-se cirurgiã.

Por 47 anos Sofia trabalhou no mesmo hospital, junto ao seu marido, Ionel Ionescu, que também era médico, em um grupo de cirurgiões (a primeira equipe de neurocirurgiões da Romênia, depois apelidada de "equipe de ouro”), que ajudou a desenvolver e modernizar a cirurgia na Romênia e tendo ela passado por preconceitos de outros médicos da Europa. Em 1970, Sofia cuidou por uma semana da primeira esposa do xeque de Abu Dhabi, que não podia, conforme costumes do país, ser atendida por um homem dentro do harém. Ela salvou centenas de vidas e teve de se aposentar em 1990 por problema de saúde que a impossibilitava de participar de cirurgias. Ela não parou seu trabalho científico, escrevia artigos e continuava contribuindo para a neurociência.

Em 1957, Sofia recebeu a insígnia da Cruz Vermelha por seu esforços como médica. Em 1964, ela foi homenageada com a Medalha do 20º XX Aniversário da Libertação da Pátria, em 1964, e em em 1972 a medalha do 25º aniversário da Proclamação da República. Em 1996, tornou-se membro da Sociedade Romena de História da Medicina. Passou a fazer parte da Sociedade Romena de História da Medicina em 1996. Tornou-se membro emérito da Academia de Ciências Médicas em 29 de março de 1997. Ao longo de sua vida como cirurgiã ela realizou mais de 11 mil cirurgias, tendo sido pioneira em técnicas cirúrgicas que salvaram muita gente. Ela foi a primeira mulher na Romênia a realizar uma cirurgia abdominal.

Em 2001 Sofia recebeu a honraria Ordem Nacional “Serviço Médico”. Em 2005  foi oficialmente certificada como a primeira mulher neurocirurgiã do mundo na ocasião do Congresso Mundial de Neurocirurgia no Marrocos e em 2008  recebeu a Estrela da República Romena. Ela é lembrada como um símbolo de pioneirismo feminino na medicina.

Faleceu aos 87 anos em Bucareste, Romênia, em 21 de março de 2008