segunda-feira, 20 de abril de 2026

O poeta Brasileiro Vicente de Carvalho

 



Em 5 de abril de 1866 nasceu Vicente Augusto de Carvalho, em Santos (SP), Brasil. Ele foi um fazendeiro, poeta , contista, jornalista, advogado e magistrado  que também participou da política brasileira e um abolicionista. Seus poemas abordam temas como o amor, a morte, a natureza e especialmente o mar. Foi chamado de "poeta do mar". É considerado um dos principais escritores do parnasianismo no Brasil, tendo ocupado a cadeira 29 da Academia Brasileira de Letras e se destacou durante o período da República Velha. Também foi membro da Academia Paulista de Letras. Seu pai era o major Higino José Botelho de Carvalho, dono de uma loja de ferragens e sua mãe era Augusta Carolina Bueno, descendente do aristocrata rural Amador Bueno dos tempos coloniais. 

Vicente de Carvalho estudou no Seminário Episcopal de São Paulo depois no colégio Norton e colégio Mamede. Escreveu seus primeiros versos aos 8 anos. Estudou na Faculdade de Direito de São Paulo e formou-se em 8 de novembro de 1886 com 20 anos de idade no curso de ciências jurídicas e sociais. Tornando-se membro do movimento abolicionista, juntou-se ao grupo caifases de Antônio Bento que ajudava escravos fugidos para irem ao quilombo do Jabaquara. Em 1888 casou-se com Ermelinda Ferreira de Mesquita, irmã do jornalista Júlio de Mesquita, do jornal Província de São Paulo, que na República passou a ser o jornal Estado de São Paulo. O casal teve 16 filhos, entre os quais a poetisa Vicentina de Carvalho. Em 1891 Vicente foi eleito deputado estadual e participou da comissão da Constituição do Estado de São Paulo.

Na administração do governador Cerqueira César, Vicente de Carvalho foi nomeado em fevereiro de 1892 como Secretário de Interior do Estado de São Paulo. Nessa posição ele autorizou a criação da Escola Superior de Agricultura, futura ESALQ, e a Escola Superior de Engenharia, futura Poli. Tentou trazer Louis Pasteur ao Brasil, mas esse cientista  enviou seu aluno Felix Le Dantec. Outras realizações da adminsitração de Vicente foram o Hospital de Isolamento do Instituto Bacteriológico e o Instituto Vacinogênico além do Laboratório de Análise e de Bromatologia e o serviço sanitário do Estado.

Em setembro de 1892 saiu da carreira politica. Antes disso houve um conflito com Alfredo Maia que o acusou de envolvimento em corrupção em uma operação imobiliária.  Tempo depois comprou a fazenda Frutal, em Franca, SP, para plantar café, porém os preços caíram e o negócio não deu certo. Publicou em Santos o livro Solução para a Crise do Café. Nessa obra, constituída de artigos publicados em jornal, ele argumentava que existia excesso de produção em frente à demanda. A proposta dele era destruir uma parte da produção de café para melhorar os preços. Fundou em 1902 junto com João da Silva Martins a Empresa de Navegação Fluvial Sul Paulista para explorar o transporte no Iguape.

Tendo ido para São Paulo, em 1907, Vicente foi nomenado juiz de direito e em 1914 foi nomeado ministro do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Vicente, na ocasião que o presidente Epitácio Pessoa estava visitando Santos, escreveu uma carta pública para ele argumentando contra a privatização da orla e defendendo a sua preservação.

Foi em 1885 que Vicente publicou seu primeiro livro de poesias: Ardentias. Em 1888 o segundo livro foi Relicário . Em 1902 foi Rosa, rosa de amor. A sua obra poética marcante foi Poemas e Canções, publicada em 1908, com prefácio de Euclides da Cunha, com dezessete edições. O poeta também colaborava escrevendo para a revista Branco e Negro (1896-1898).

Como jornalista colaborou com os jornais O Estado de São Paulo e A Tribuna. Fundou os jornais Diário da Manhã, em Santos, em 1889 e O Jornal, em 1905. Foi redator das revistas Ideia e República. Entrou em uma polêmica com o poeta Dias da Rocha. Foi considerado por uma grande figura do início do século XX, Roquete Pinto, como um "grande cidadão”:  “[...] sempre interessado nas questões difíceis da república, juiz de peregrinas virtudes, exemplar representante dos melhores aspectos da sociedade que se formou”.

Estudiosos apontaram as principais características do estilo literário de Vicente de Carvalho : Simplicidade de expressão; presença marcada de sentimentos humanos (raiva, revolta, amor, ternura, etc.); presença de clareza e sinceridade em suas obras no geral.

Faleceu em 22 de abril de 1924, em Santos (SP), aos 58 anos. Uma das principais avenidas de Santos tem seu nome, assim como um distrito de Guarujá, também no Estado de São Paulo e um bairro na cidade do Rio de Janeiro. Há uma estátua do poeta no bairro do Boqueirão, em Santos. Guilherme de Almeida que discursou na inauguração desse monumento disse sobre o homenageado: "poeta épico, e clássico, e lírico, e satírico, e popular, e parnasiano, e simbolista, e naturalista”.

 Principais obras: Ardentias (1885); Relicário (1888); Rosa, rosa de amor (1902); Poemas e canções (1908); Versos da mocidade (1909); Verso e prosa, incluindo o conto "Selvagem" (1909); Páginas coladas (1911); A voz dos sinos (1916); Lucinha, contos (1924).

 

Alguns poemas de Vicente de Carvalho:

Felicidade

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim : mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

 

Pequenino Morto

Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
Pequenino, acorda!

Como o sono apaga o teu olhar inerte
Sob a luz da tarde tão macia e grata!
Pequenino, é pena que não possas ver-te...
Como vais bonito, de vestido novo
Todo azul celeste com debruns de prata!
Pequenino, acorda! E gostarás de ver-te
De vestido novo.

(...)

Que caminho triste, e que viagem! Alas
De ciprestes negros a gemer no vento;
Tanta boca aberta de famintas valas
A pedir que as fartem, a esperar que as encham...
Pequenino, acorda! Recupera o alento,
Foge da cobiça dessas fundas valas
A pedir que as encham.

Vai chegando a hora, vai chegando a hora
Em que a mãe ao seio chama o filho... A espaços,
Badalando, o sino diz adeus, e chora
Na melancolia do cair da noute;
Por aqui, só cruzes com seus magros braços
Que jamais se fecham, hirtos sempre... É a hora
Do cair da noute...

(...)

Por que estacam todos dessa cova à beira?
Que é que diz o padre numa língua estranha?
Por que assim te entregam a essa mão grosseira
Que te agarra e leva para a cova funda?
Por que assim cada homem um punhado apanha
De caliça, e espalha-a, debruçado à beira
Dessa cova funda?

Vais ficar sozinho no caixão fechado...
Não será bastante para que te guarde?
Para que essa terra que jazia ao lado
Pouco a pouco rola, vai desmoronando?
Pequenino, acorda! — Pequenino!... É tarde...
Sobre ti cai todo esse montão que ao lado
Vai desmoronando...

Eis fechada a cova. Lá ficaste... A enorme
Noute sem aurora todo amortalhou-te.
Nem caminho deixam para quem lá dorme,
Para quem lá fica e que não volta nunca...
Tão sozinho sempre por tamanha noute!...
Pequenino, dorme! Pequenino, dorme...
Nem acordes nunca!


Sonho Póstumo

Poupem-me, quando morto, à sepultura: odeio
A cova, escura e fria.
Ah! deixem-me acabar alegremente, em meio
Da luz, em pleno dia.

O meu último sono eu quero assim dormi-lo:
— Num largo descampado,
Tendo em cima o esplendor do vasto céu tranquilo
E a primavera ao lado.

Bailem sobre o meu corpo asas trêmulas, asas
Palpitando de leve,
De insetos de ouro e azul, ou rubros como brasas,
Ou claros como neve.

De entre moutas em flor, oscilantes na aragem,
Úmidas e cheirosas,
Espalhando em redor frescuras de folhagem,
E perfumes de rosas,

Subam, jovializando o ar, canções suaves
— A música sonora
Em que parece rir a alegria das aves,
Encantadas da aurora.

E cada flor que um galho acaso dependura
À beira dos caminhos
Entreabra o seio ao sol, às brisas, à doçura
De todos os carinhos.

Passe em redor de mim um frêmito de gozo
E um calor de desejo,
E soe o farfalhar das árvores, moroso
Como o rumor de um beijo.

Palpite a natureza inteira, bela e amante,
Volutuosa e festiva.
E tudo vibre e esplenda, e tudo fulja e cante,
E tudo sonhe e viva.

A sepultura é noute onde rasteja o verme...
Ó luz que eu tanto adoro,
Amortalha-me tu! E possa eu desfazer-me
No ar claro e sonoro!


 Cantigas Praianas

Ouves acaso quando entardece
Vago murmúrio que vem do mar,
Vago murmúrio que mais parece
Voz de uma prece
Morrendo no ar?

Beijando a areia, batendo as fráguas,
Choram as ondas, choram em vão:
O inútil choro das tristes águas
Enche de mágoas
A solidão…

Duvidas que haja clamor no mundo
Mais vão, mais triste que esse clamor?
Ouve que vozes de moribundo
Sobem do fundo
Do meu amor.


Sugestões do Crepúsculo

Estranha voz, estranha prece
Aquela prece e aquela voz,
Cuja humildade nem parece
Provir do mar bruto e feroz;

Do mar, pagão criado às soltas
Na solidão, e cuja vida
Corre, agitada e desabrida,
Em turbilhões de ondas revoltas;

Cuja ternura assustadora
Agride a tudo que ama e quer,
E vai, nas praias onde estoura,
Tanto beijar como morder...

Torvo gigante repelido
Numa paixão lasciva e louca,
É todo fúria: em sua boca
Blasfema a dor, mora o rugido.

Sonha a nudez: brutal e impuro,
Branco de espuma, ébrio de amor,
Tenta despir o seio duro
E virginal da terra em flor.

Debalde a terra em flor, com o fito
De lhe escapar, se esconde — e anseia
Atrás de cômoros de areia
E de penhascos de granito:

No encalço dessa esquiva amante
Que se lhe furta, segue o mar;
Segue, e as maretas solta adiante
Como matilha, a farejar.

E, achado o rastro, vai com as suas
Ondas, e a sua espumarada
Lamber, na terra devastada,
Barrancos nus e rochas nuas...


 

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História