Em 17 de junho de 2026 faleceu o
historiador italiano-judeu Carlo Ginzburg. Ele nasceu em Turim, Itália, em
15 de abril de 1939. Cresceu em uma família marcada pelo engajamento
intelectual e político. Seu pai era o professor e tradutor Leone
Ginzburg, opositor do fascismo, torturado e morto em uma prisão italiana
no tempo da Segunda Guerra Mundial. Sua mãe era a romancista Natália
Ginzburg.
Carlo Ginzburg se dedicou a temas como
bruxaria, heresias, religiosidade popular e formas de circulação do
conhecimento na Era Moderna. Ele ficou conhecido por investigar, a partir das
trajetórias de indivíduos comuns, grandes processos sociais e culturais. Foi um
dos pioneiros da micro-história, que surgiu na Itália nos anos 1970 e que é
uma metodologia da ciência histórica que leva em consideração fontes e
narrativas alternativas, não considera somente mudanças macroeconômicas e
políticas que determinam fatos e épocas, mas também o cotidiano, as
subjetividades, representações e linguagens que formaram a realidade. Estudou na Escola Normal Superior de Pisa e no Instituto Warburg em Londres.
Foi professor de história moderna na Universidade de Bolonha, nas universidades
de Harvard e Princeton e na Universidade da Califórnia, em Los Angeles,
lecionando história do Renascimento italiano. Lecionou história cultural
europeia a partir de 2006 na Escola Nornal Superior de Pisa.
Tornou-se especialista nas atitudes e crenças
religiosas populares do início da época moderna e publicou em 1966 a obra Os
andarilhos do bem , sobre a sociedade camponesa de Friul do século
XVI, se baseando em um tipo de documentação relacionada a processos
inquisitoriais, com uma interação dialética envolvendo um sistema de
crenças amplamente disseminadas no mundo rural, que se originou em uma
evolução de um antigo culto agrário, assim como a interpretação pelos
inquisidores que buscavam uma equiparação com formas codificadas de bruxaria. A
sua obra O queijo e os vermes o tornaram conhecido mundialmente.
Essa obra, que abordava a vida de um camponês, tornou-se uma referência internacional da
historiografia, relatando a vida e as idéias de Menocchio, um moleiro do século
XVI que foi perseguido pela Inquisição por suas crenças religiosas. Outra obra
de destaque, História noturna , é sobre a caça às
bruxas até toda uma diversidade de práticas que tornam evidentes
substratos de cultos na Europa. No
livro Olhos de Madeira, de 1998, ele explica as distâncias e os
contatos entre diversas civilizações.
Ganhou os prêmios Prix Aby Warburg (1992);Prix
Lyssenko (1993);Prêmio Letterario Viareggio-Rèpaci (1998); Prêmio
Antonio Feltrinelli (2005), para a ciência histórica; Prêmio
Balzan (2010). As obras dele tinha um diálogo com a literatura, a antropologia e a história da arte. Defendeu a
importância dos detalhes, vestígios e indícios para a reconstrução do
passado em textos como “Mitos, emblemas, sinais”. Foi influenciado
pela Escola dos Annales, pela Nova História e pelo estruturalismo de
Levi-Strauss.
Até o fim de sua vida esteve ativo,
debatendo, publicando livros e participando de discussões sobre memória,
verdade e interpretação histórica. O conjunto de suas obras foi traduzida para
dezenas de idiomas. Faleceu em
Bolonha, aos 87 anos.
Livros publicados:
I benandanti. Stregoneria e culti agrari tra ‘500 e
‘600 (1966) / edição em português Os Andarilhos do Bem
Il nicodemismo. Simulazione e dissimulazione
religiosa nell’Europa del ‘500 (1970)
Giochi di pazienza. Un seminario sul ‘Beneficio di
Cristo’ (1975, publicado em colaboração com Adriano Prosperi)
Il formaggio e i vermi. Il cosmo di un mugnaio del
‘500 (1976) / edição em português O Queijo e os Vermes.
Indagini su Piero. Il Battesimo, il ciclo di
Arezzo, la Flagellazione di Urbino (1981) / Investigando Piero
Miti emblemi spie (1986) / edição em
português Mitos, Emblemas e Sinais
Storia notturna. Una decifrazione del sabba (1989)
/ edição em português História Noturna
Il giudice e lo storico. Considerazioni in margine
al processo Sofri (1991) / edição em inglês Judge And The Historian
Occhiacci di legno. Nove riflessioni sulla distanza
(1998) / edição em português Olhos de Madeira
History, Rhetoric, and Proof. The Menachem Stern
Jerusalem Lectures (1999)
Das Schwert und die Glühbirne. Eine neue Lektüre
von Picassos Guernica (1999)
No Island is an Island. Four Glances at English
Literature in a World Perspective (2000) / edição em português Nenhuma
Ilha é Uma Ilha
Tentativas (2003)
Un dialogo (2003, publicado em colaboração com
Vittorio Foa)
Rekishi o Sakanadeni Yomu (2003)
Il filo e le tracce. Vero falso finto (2006) /
edição em português O Fio e os Rastros
Paura, reverenza, terrore. Rileggere Hobbes oggi
(2008) / edição em português Medo, Reverência, Terror.
Nondimanco. Machiavelli, Pascal (2018)
Morelli, Freud e Sherlock Holmes
Relações de Força
A Historical Approach to Casuistry
Old Thiess, a Livonian Werewolf
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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História
