terça-feira, 7 de julho de 2026

O historiador Carlo Ginzburg

 




Em 17 de junho de 2026 faleceu  o historiador italiano-judeu Carlo Ginzburg. Ele nasceu em Turim, Itália, em 15 de abril de 1939. Cresceu em uma família marcada pelo engajamento intelectual e político. Seu pai era o professor e tradutor Leone Ginzburg, opositor do fascismo, torturado e morto em uma prisão italiana no tempo da  Segunda Guerra Mundial. Sua mãe era a romancista Natália Ginzburg.

Carlo Ginzburg se dedicou a temas como bruxaria, heresias, religiosidade popular e formas de circulação do conhecimento na Era Moderna. Ele ficou conhecido por investigar, a partir das trajetórias de indivíduos comuns, grandes processos sociais e culturais. Foi um dos pioneiros da micro-história, que surgiu na Itália nos anos 1970 e que é uma metodologia da ciência histórica que leva em consideração fontes e narrativas alternativas, não considera somente mudanças macroeconômicas e políticas que determinam fatos e épocas, mas também o cotidiano, as subjetividades, representações e linguagens que formaram a realidade. Estudou na Escola Normal Superior de Pisa e no Instituto Warburg em Londres. Foi professor de história moderna na Universidade de Bolonha, nas universidades de Harvard e Princeton e na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, lecionando história do Renascimento italiano. Lecionou história cultural europeia a partir de 2006 na Escola Nornal Superior de Pisa.

Tornou-se especialista nas atitudes e crenças religiosas populares do início da época moderna e publicou em 1966 a obra Os andarilhos do bem , sobre a sociedade camponesa de Friul do século XVI, se baseando em um tipo de documentação relacionada a processos inquisitoriais, com uma interação dialética envolvendo um sistema de crenças amplamente disseminadas no mundo rural, que se originou em uma evolução de um antigo culto agrário, assim como a interpretação pelos inquisidores que buscavam uma equiparação com formas codificadas de bruxaria. A sua obra O queijo e os vermes o tornaram conhecido mundialmente. Essa obra, que abordava a vida de um camponês, tornou-se uma referência internacional da historiografia, relatando a vida e as idéias de Menocchio, um moleiro do século XVI que foi perseguido pela Inquisição por suas crenças religiosas. Outra obra de destaque, História noturna , é sobre a caça às bruxas até toda uma diversidade de práticas que tornam evidentes substratos de cultos na Europa. No livro Olhos de Madeira, de 1998, ele explica as distâncias e os contatos entre diversas civilizações.

Ganhou os prêmios Prix Aby Warburg (1992);Prix Lyssenko (1993);Prêmio Letterario Viareggio-Rèpaci (1998); Prêmio Antonio Feltrinelli (2005), para a ciência histórica; Prêmio Balzan (2010). As obras dele tinha um diálogo com a literatura, a antropologia e a história da arte. Defendeu a importância dos detalhes, vestígios e indícios para a reconstrução do passado em textos como “Mitos, emblemas, sinais”. Foi influenciado pela Escola dos Annales, pela Nova História e pelo estruturalismo de Levi-Strauss.

Até o fim de sua vida esteve ativo, debatendo, publicando livros e participando de discussões sobre memória, verdade e interpretação histórica. O conjunto de suas obras foi traduzida para dezenas de idiomas. Faleceu em Bolonha, aos 87 anos.

 

Livros publicados:

I benandanti. Stregoneria e culti agrari tra ‘500 e ‘600 (1966) / edição em português Os Andarilhos do Bem

Il nicodemismo. Simulazione e dissimulazione religiosa nell’Europa del ‘500 (1970)

Giochi di pazienza. Un seminario sul ‘Beneficio di Cristo’ (1975, publicado em colaboração com Adriano Prosperi)

Il formaggio e i vermi. Il cosmo di un mugnaio del ‘500 (1976) / edição em português O Queijo e os Vermes. 

Indagini su Piero. Il Battesimo, il ciclo di Arezzo, la Flagellazione di Urbino (1981) /  Investigando Piero

Miti emblemi spie (1986) / edição em português Mitos, Emblemas e Sinais

Storia notturna. Una decifrazione del sabba (1989) / edição em português História Noturna

Il giudice e lo storico. Considerazioni in margine al processo Sofri (1991) / edição em inglês Judge And The Historian

Occhiacci di legno. Nove riflessioni sulla distanza (1998) / edição em português Olhos de Madeira

History, Rhetoric, and Proof. The Menachem Stern Jerusalem Lectures (1999) 

Das Schwert und die Glühbirne. Eine neue Lektüre von Picassos Guernica (1999)

No Island is an Island. Four Glances at English Literature in a World Perspective (2000) / edição em português Nenhuma Ilha é Uma Ilha

Tentativas (2003)  

Un dialogo (2003, publicado em colaboração com Vittorio Foa)

Rekishi o Sakanadeni Yomu (2003)

Il filo e le tracce. Vero falso finto (2006) / edição em português O Fio e os Rastros

Paura, reverenza, terrore. Rileggere Hobbes oggi (2008) / edição em português Medo, Reverência, Terror.

Nondimanco. Machiavelli, Pascal (2018)

Morelli, Freud e Sherlock Holmes

Relações de Força

A Historical Approach to Casuistry

Old Thiess, a Livonian Werewolf

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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