sábado, 17 de setembro de 2022

Artigo: O Setembro Amarelo, a Semana do Trânsito e os casos de suicídios no trânsito.

 



 No mês de setembro há no Brasil a campanha do Setembro Amarelo, na qual se debate sobre o suicídio, com destaque para a prevenção. E também a Semana do Trânsito. Neste artigo vou abordar um pouco sobre cada um desses eventos e fazer uma relação com um assunto que está relacionado às duas: “O suicídio de trânsito”.

A campanha Setembro Amarelo é realizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). Trata-se de uma ação que visa a conscientização sobre suicídio no Brasil. Do total de casos de suicídios, mais de 96% deles estão relacionados a transtornos mentais, sendo em primeiro lugar a depressão, em segundo o transtorno bipolar e em terceiro o abuso de substâncias. A campanha ocorre durante o mês de setembro objetivando uma prevenção e a redução dos números de suicídios. As pessoas que querem cometer o suicídio pensam rigidamente pela distorção que o sofrimento emocional impõe. Quanto à campanha, são realizadas atividades em empresas, escolas, órgão públicos etc. Foram registrados em 2019 mais de 700 mil suicídios em todo o mundo, sem contar com os episódios subnotificados. Se forem somados esses também, os casos podem até mesmo ter superado um milhão e no Brasil calcula-se que nesse ano foram 14 mil casos. O dia 10 de setembro é oficialmente o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Em 2022 o tema é: “A vida é a melhor escolha!”

A Semana do Trânsito acontece anualmente de 18 a 25 de setembro. Nesta semana está inserido o Dia Nacional do Trânsito no Brasil (dia 25 de setembro). Esta data foi escolhida porque foi no dia 23 de setembro de 1997 que foi aprovada a Lei 9503/1997, a lei do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Com essa lei pretendeu-se estabelecer as diretrizes para a gestão de trânsito no país. Na Semana de Trânsito há atividades educativas no Brasil, buscando a conscientização dos participantes do trânsito e o debate em relação a este sistema, destacando-se a importância de uma humanização no trânsito, com menos conflitos e acidentes. O tema das ações de trânsito em 2022 é: “Juntos Salvamos Vidas”, ressaltando-se a responsabilidade de todos os participantes do trânsito na preservação da vida.

Pode-se observar que a palavra vida presente nos temas de ambos os eventos. Então, resolvi fazer a ligação com a questão dos suicidas no trânsito, destacando a importância de, no trânsito, evitar que pessoas queiram tirar suas vidas, usando, por exemplo, o carro como um instrumento para se matarem.

Vou citar alguns trechos de autores que escreveram sobre o suicídio de trânsito.

O advogado Thomaz Thompson Flores Neto destaca o comportamento errado de parte significativa dos pedestres em casos de atropelamentos. Ele diz em seu artigo O suicídio de trânsito - direto e indireto:

“Suicídio de trânsito é figura não-conhecida do direito pátrio, mas deveria. O suicídio, mesmo o comum, ainda que sob o aspecto formal configure indiferente penal, tem crucial relevância em sua perfeita identificação.

Sabe-se que o suicídio e a tentativa de suicídio não são tipificados na legislação penal. O primeiro por razão óbvia, a segunda por política criminal, dado o risco de estimular novas tentativas.

Conquanto não configure crime, é inquestionável tratar-se de ação ilícita, vez que afrontosa a um bem supremo: a vida. O próprio Código Penal (clique aqui), implicitamente, assim a considera (art. 146, § 3º, II).

O suicídio (matar a si mesmo), assim como o homicídio (matar alguém), pode se dar de forma direta ou indireta.

Na direta, o agente tem a intenção de matar. Na indireta, embora não tenha intenção de matar, assume o risco do previsível resultado morte, com o qual anui (dolo eventual); ou, não anui, presumindo que não irá ocorrer (culpa consciente); ou mata, simplesmente, por imperícia, imprudência ou negligência (culpa inconsciente).

Pois bem, no suicídio de trânsito assim se dá. O agente pode, por exemplo, deliberadamente se jogar na frente de um veículo em movimento, visando dar cabo à própria vida (suicídio de trânsito direto), como cruzar movimentada avenida fora da faixa de pedestres, ou, ainda, atravessar o leito de rodovia ao invés de fazê-lo pela segura passarela (suicídio de trânsito indireto com culpa consciente), ou, inopinadamente, cruzar a rua sem a devida atenção (suicídio de trânsito indireto com culpa inconsciente).

O que é importante sublinhar, é que em qualquer dessas hipóteses o condutor do veículo envolvido no evento não é, nem em tese, autor de homicídio de trânsito, previsto no artigo 302 do CBT.O veículo em movimento é mero instrumento do qual serviu-se o suicida (intencional ou não), para matar-se. O condutor é vítima de danos materiais e morais, além de testemunha ocular do suicídio.

Contudo, esse não é o entendimento corrente, tampouco o que ocorre na prática.

Na prática, o desafortunado condutor que se vê envolvido em trágico evento desse jaez - enquanto seguia licitamente pela via pública, observando as normas legais e regulamentares - além de vivenciar o intenso trauma que decorre da involuntária participação na morte violenta de um ser humano, é, em regra, indiciado como autor de homicídio de trânsito, e, logo adiante, denunciado perante a justiça criminal, transformando-se em réu de ação penal, gravosa condição que suporta até o momento em que seja proferida sua absolvição.

Cumpre indagar: é justo? É razoável? Não parece.

Nessas circunstâncias, sublinhe-se, o condutor não dá causa ao evento em que resulta morto o pedestre - que agiu de forma temerária, desatenta, ou até mesmo intencional - é vítima dele. Trafega regularmente, com veículo em perfeito estado, observando a velocidade permitida e demais regras de trânsito, com a atenção e prudência que se espera do homem médio, quando subitamente emerge na frente do veículo o pedestre suicida, que morre (...)”

(https://www.migalhas.com.br/depeso/68464/o-suicidio-do-transito-direto-e-indireto)

Outra autora, a psicóloga clínica, organizacional e de trânsito, Melissa Pereira faz a seguinte análise em seu artigo Kamikazes: Comportamento suicida no trânsito:

“O comportamento humano sempre é a chave para as grandes mudanças de uma sociedade, tanto positivamente como negativamente. O Brasil apresenta grandes problemas sociais que estão em evidência de forma constante. Nesse texto podem-se destacar dois, as mortes no trânsito e o suicídio. Então surge a pergunta: Que relação existe entre o trânsito e o suicídio? 

Suicídio é o ato de um indivíduo, deliberadamente, encurtar a própria vida. Suicídios acometem pessoas em todas as camadas sociais e por diversos motivos, desde depressão, problemas financeiros, amores não correspondidos e inúmeras situações. Esse ato vai contra a natureza do nosso cérebro. Sempre que estamos em situação de risco, medo ou estresse, nosso sistema nervoso ativa um mecanismo muito conhecido dos psicólogos, médicos e fisiologistas: a chamada reação de luta e fuga. Nosso cérebro utiliza esse mecanismo para autopreservação, representando a capacidade de um indivíduo tentar conservar a própria existência ou integridade. É o desejo inato de manter-se vivo, é o instinto básico para preservar a própria vida, ou seja, essa resposta prepara o corpo para responder (lutar ou fugir) a uma ameaça.

Quando falamos em acidente de trânsito, a conclusão é de que a maioria deles é provocada pelo homem por negligência, imprudência e imperícia, como ensina a direção defensiva. Baseado nesse pensamento, o homem coloca-se em situação de risco frequentemente e as estatísticas revelam números que assustam. No ano de 2017, os índices de mortes no trânsito continuaram altos e de acordo com o Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde foram registrados 32.615 óbitos do tipo. Esses números só nos mostram como o elemento principal do trânsito ainda não consegue se integrar a ideia de ser condutor. Esse alto índice de mortos e feridos aponta para um quadro complexo da sociedade atual.

Ao iniciamos nossa busca para a fim de obter a CNH, temos aulas de legislação de trânsito e direção defensiva orientando como minimizar ao máximo os riscos de acidentes de trânsito.  Mas as estatísticas com mortes no transito sempre é alta, comparado a guerras que dizimaram milhares de pessoas. A partir do momento que decidimos conduzir um veículo temos que incorporar ao nosso comportamento a boa conduta e prudência e que o nosso mau hábito no trânsito pode ter consequências irreversíveis para uma sociedade.

Daí em diante, quando conquistamos a CNH, simbolicamente assinamos um contrato com a sociedade, que seremos responsáveis uns pelos outros quando conduzimos no trânsito. Se pararmos para pensar, muitos condutores assumem esse compromisso de responsabilidade com seriedade, enquanto outros adotam um comportamento suicida, assumido situação de riscos conscientes. Esse tipo de comportamento remete a ideia de suicídio, ou melhor dizendo, tentativas de suicídio. Porque essas duas situações, o comportamento de risco no trânsito e o suicídio partem do mesmo princípio, a autodestruição. Podemos batizar esses condutores, como analogia, de “kamikazes no trânsito”. 

Os kamikazes eram uma unidade de ataque especial na Segunda Guerra Mundial. Os pilotos eram treinados por uma semana para fazer esse vôo com ataques suicidas contra navios dos Aliados com o objetivo de destruir o maior número possível de navios de guerra. Eram pilotos jovens que arremessavam seus aviões contra os navios inimigos pois não tinham combustível o suficiente para chegar em uma base segura. O ataque kamikaze era um tema muito polêmico, pois nesse caso o piloto ou a tripulação inteira de um avião atacante morria, assim eliminavam probabilidade de salvamento, uma vez empenhado no mergulho mortal, era impossível sobreviver ao ataque. 

Pegando essa ideia dos pilotos japoneses e trazendo para a atualidade do trânsito, podemos classificar muitos condutores como “kamikazes”, porque inconscientemente apropriam-se de um comportamento inconsequente.  Apesar de toda tecnologia dos veículos, todas as informações que existe em torno do trânsito, todas as campanhas e ações, o veículo que deveria ser usado como necessidade de locomoção ainda é visualizado e utilizado como ostentação e representação de nossa imaturidade competitiva, vendo no outro condutor o inimigo, tornando o veículo quase uma arma de guerra.

Então, porque chamar os condutores de kamikazes? Simples, uma relação que diz respeito ao ato de autodestruição. Podemos destacar que condutores irresponsáveis se tornam suicidas indiretos, por agir diferente da função cerebral de autopreservação, desafiando as normas circulação e de segurança, colocando-se em riscos extremos.

Mas a verdade é que o comportamento no trânsito é um fenômeno bastante complexo e envolve um conjunto de fatores e processos psicológicos. Você pode até não concordar com essa relação entre o comportamento de risco no trânsito e o suicídio, mas no instante em que assumimos atitudes de perigo, colocando em risco a vida, acaba sendo conivente e responsável com as consequências, apresentando um perfil suicida, de autodestruição.”

 

A seguir alguns casos que encontrei na Internet:

“Homem provoca acidente com quatro carros e comete suicídio em seguida

Investigação tentará descobrir se o condutor provocou a colisão propositalmente porque queria se matar

27/02/2018

GZH

Quando policiais chegaram ao local para registrar o acidente, já o encontraram morto, baleado-Reprodução / NBC

Após causar um acidente envolvendo quatro carros e se certificar de que nenhum dos outros envolvidos estava ferido, um homem cometeu suicídio no último domingo (25), em Houston, no Texas. De acordo com testemunhas, o homem, que não teve a identidade divulgada, provocou o acidente ao dirigir na contramão.

Depois do acidente, o homem saiu do carro e foi até os outros motoristas, perguntando se todos estavam bem e se alguém havia se machucado. Após se certificar de que todos estavam bem, o motorista se reaproximou de seu carro, deu uma volta ao redor dele e entrou novamente. Quando policiais chegaram ao local para registrar o acidente, já o encontraram morto, baleado.

O policial Thomas Gilliland, um dos que atendeu a ocorrência, acredita que o suicídio não tenha sido por causa do acidente. A investigação irá tentar descobrir, inclusive, se o homem provocou a colisão propositalmente porque queria se matar.”

A impressão que fica, ao meu ver, é que o homem, no caso apresentado acima, queria a princípio utilizar o automóvel para se matar, o que poderia ter causado a morte ou ferimentos em outros motoristas. A intenção dele não era causar danos físicos em outros condutores. E, logo depois, ele tirou sua vida de outra forma.

 Outro caso a seguir citado em artigo publicado pelos autores Karine Silva Biliu;

Ivânia Vera; Roselma Lucchese;Núbia Inocêncio de Paula;Inaína Lara Fernandes; Graciele Cristina Silva: 

Descrição do comportamento suicida entre caminhoneiros que trafegam a BR 050 entre Minas Gerais-Goiás

Resumo

A ideação suicida é definida como pensamentos de caráter suicida, sem necessariamente com ação efetiva, com maior prevalência que o próprio suicídio fatal. Objetivo: descrever o comportamento suicida entre caminhoneiros que trafegam a BR 050 entre Minas Gerais- Goiás. Material e métodos: o método de pesquisa foi um estudo descritivo de natureza qualitativo, com a população de caminhoneiros que transitam pela BR-050.

Resultados: foram entrevistados 624 caminhoneiros. Os dados sócio demográficos apresentam que a faixa etária predominante na amostra foi 78.8% entre 31 a 59 anos, com natureza qualitativa, com a população de caminhoneiros que transitam pela BR-050, com procedência da região sudeste, de etnia branca, com o ensino fundamental completo e renda igual ou inferior a três salários mínimos. Em relação ao comportamento e ideação suicida, o rastreamento apresentou ideação suicida durante a vida de 7.4%, de ideação suicida no último 2.4% e, tentativa de suicídio apresentou a prevalência de 1.8% do total da amostra.

 Conclusão: A prevalência de ideação suicida e tentativas de suicídio apontadas neste estudo foram menores quando comparado a outras populações, contudo considerando as adversidades das condições de trabalho que cotidianamente convivem com fatores de risco como longas jornadas de trabalho e contato frequente com drogas estimulantes, não se pode ignorar a presença do comportamento suicida nesta profissão.

 Outro artigo publicado que me chamou atenção foi este:

“Uma emoção pode ser a principal causa de acidentes no trânsito; descubra qual é

Acredite ou não, existe uma emoção que causa acidentes em grande proporção, ainda mais do que estar cansado ou distraído.

Um estudo mostrou que estar triste ou depressivo afeta severamente a habilidade de dirigir. O artigo publicado no site The Telegraph explica como estar triste, irritado ou agitado aumenta o risco de um acidente em quase dez vezes.

Pesquisadores norte-americanos da universidade Virginia Tech analisaram muitas das teorias para buscar as causas mais comuns de acidentes.

Surpreendentemente, os estudos indicam que interagir com uma criança pode reduzir o risco de uma batida. Comer e se maquiar também não representam riscos significativos.

Contudo, a fadiga ainda é perigosa para a segurança do trânsito: pode aumentar o risco de acidente em três vezes. Chance maior do que falar ao telefone, por exemplo.

A pesquisa

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores usaram câmeras de vídeo para monitorar os hábitos de mais de 3.500 pessoas em todos os Estados Unidos.

Durante o período de estudo, houve mais de 900 acidentes em que as pessoas saíram feridas e com danos em seus automóveis.

Os pesquisadores compararam essa informação com dados de acidentes de carro e descobriram, primeiramente, que  mais da metade dos motoristas tinham algum tipo de comportamento arriscado sempre que estavam dirigindo por uma estrada.

Veja mais dados relevantes:

  1. Conduzir triste aumentou o risco de acidente em 9,8 vezes.
  2. Procurar um objeto no carro aumentou o risco de batida em 9 vezes.
  3. Mensagens de texto ou revisar o celular aumentou o risco de acidente em 6 vezes.
  4. Dirigir cansado aumentou o risco para 3 vezes. Enquanto falar com o passageiro apontou risco mínimo e dançar ao volante não teve impacto.

O maior risco de acidente

Como era de se esperar, o consumo de bebidas alcoólicas ou drogas aumentou as chances de acidente em mais de 35 vezes.

Com base nos resultados, os especialistas consideram que mais de 30% dos acidentes podem ser evitados eliminando todas as distrações.

No entanto, é importante não minimizar o impacto de uma emoção ao dirigir e redobrar os cuidados quando  for necessário dirigir quando se está triste, desconfortável ou emocionalmente instável.”

(https://www.metroworldnews.com.br/foco/2018/01/08/uma-emocao-pode-ser-principal-causa-de-acidentes-no-transito-descubra-qual-e.html)

Bem, encerrando este artigo, em que procurei fazer uma relação entre a Semana do Trânsito e o Setembro Amarelo, destacando a questão dos comportamentos suicidas no trânsito e a questão emocional como influência importante. De modo algum considero que pude contemplar toda a complexidade deste universo. Procurei principalmente instigar a reflexão. Destaco que a sociedade (em especial as autoridades), precisa atentar para as questões psicossociais envolvendo as ocorrências de suicídios, sejam no trânsito ou fora deste, e que a vida humana em geral deve ser valorizada, assim como os fatores ligados ao trânsito no Brasil, ressaltando as questões comportamentais dos participantes do sistema, devem ser alvo de mais atenção, fazendo-se mais investimentos em educação, infraestrutura, melhores veículos, mais fiscalização, melhorias no transporte público e mais respeito às categorias mais vulneráveis.

Deixo aqui, finalizando meu artigo, trechos de uma entrevista com Reinier Rozestraten, Doutor em Psicologia, especialista em Psicologia do Trânsito, e meu professor e orientador em dois cursos de pós graduação:

"O trânsito é um problema social. Em cada cruzamento, constatamos que os pedestres, os carros, os ônibus, as bicicletas etc. vão e vêm de diferentes direções. Em princípio, cada um deseja passar por esse cruzamento permanecendo ileso e deixando o outro passar também ileso. Na prática, a situação é mais complexa do que parece à primeira vista. O motorista quer fluidez do tráfego de veículos, o pedestre precisa de menor fluidez para que possa atravessar a rua e, por outro lado, o comerciante deseja que os fregueses possam estacionar em frente a sua loja. Portanto, os interesses das pessoas que participam do trânsito não são os mesmos, e entram necessariamente em conflito.

E mesmo os interesses das pessoas são variáveis conforme a situação. Por exemplo, uma pessoa quando é motorista vê o pedestre como estorvo no seu caminho, mas quando essa mesma pessoa torna-se pedestre vê o carro atrapalhando o seu caminho. Há uma ambivalência ou contradição no seu julgamento da situação, dependendo da posição que ele está assumindo. É um certo egoísmo no sentido de querer sempre em todas as situações a garantia de todos os direitos e o mínimo possível de deveres a serem cumpridos. Essa atitude interfere no trânsito para que não se tenha uma consciência de que o trânsito é um jogo social, envolvendo motoristas e pedestres, conforme regras definidas. A maioria imagina que pode fazer na hora as regras conforme as suas conveniências porque ele é mais importante do que as regras (...)”

“...Na nossa realidade, algumas pessoas têm mais direitos do que os outros. O filho do prefeito, o deputado, a mulher do governador e muitas outras pessoas acham que não precisam respeitar as regras porque são exceções às regras. Assim, reforça-se o desrespeito às regras, que depois se generaliza: se essas pessoas podem, por que eu, cidadão comum, também não posso? Em outros países, o processo é totalmente inverso ao nosso. Lembro que na Holanda, um policial multou o príncipe Bernard e por isso foi condecorado. Quem vai ser condecorado no Brasil por multar o Presidente da República?

No Brasil, quem é o mais forte tem mais direitos, mas não deveria ter. Isso porque não há punição e nem fiscalização. Você pode atropelar e até matar alguém com o carro, e fica impune. No julgamento, são aceitos diversos argumentos de defesa: você não quis matar propositalmente, é réu primário etc.

Se houvesse uma fiscalização mais séria no trânsito, diminuiria sem dúvida o índice de acidentes. No Japão, eles conseguiram procedendo dessa maneira: multas altas e fiscalização para todo lado. Se você tem que pagar tanto porque o seu carro está mal estacionado, dentro de uma semana ninguém mais vai estacionar mal. Aí acaba ficando caro e o pessoal vai começar a pensar antes de levar multa.

É importante assegurar que o brasileiro coloque na cabeça que as leis de trânsito não são imposições autoritárias. Elas possuem uma vigência internacional e foram imaginadas para dar segurança a todos aqueles que participam do trânsito.”

“...Os motoristas se impõem no trânsito pela força bruta, respaldados pela impunidade. Tanto é que a maior porcentagem de acidentes de trânsito é de atropelamento de pedestres. São 50 mil pessoas que morrem no trânsito todo ano. A estatística oficial è de 23 mil, mas refere-se somente àqueles que morrem no momento exato do acidente. Quem morre sendo transportado para o hospital, ou morre dois ou três meses após o acidente, não entra na estatística oficial. A mesma coisa acontece com todos os acidentes que não constam nos Boletins de Ocorrência, pois a polícia não foi chamada e tudo se resolveu informalmente entre os envolvidos(...)”

“...O Boletim de Ocorrência não fornece informações suficientes sobre os acidentes. É preciso melhorar o Boletim de Ocorrência e dar um treinamento aos policiais para obterem mais dados, deixando de simplesmente acumular dados e números sem refletir a realidade. Deveria ser feita uma estatística que signifique alguma coisa de maneira muito mais diferenciada do que acontece hoje (...)”

“...Constatamos que o acidente ainda é visto de modo muito genérico no Brasil. Quando há morte de duas pessoas ou quando um carro bate o pára-choque num barranco, ambos os casos são considerados acidentes, mas são completamente diferentes entre si. Por isso, é preciso passar a fazer uma descrição mais minuciosa dos acidentes e dos envolvidos neles, abrangendo classe social, faixa etária, local etc. É um estudo de Psicologia Social que não foi feito ainda no Brasil (...)”

“...Em termos de epidemiologia, o número de mortes de acidentes no trânsito é menor na realidade do que de mortes por doenças cardiovasculares. Entretanto, mais de 30% morrem nos acidentes de trânsito entre 18 e 30 anos, enquanto a maioria das vítimas de doenças cardiovasculares morre com 40 ou 50 anos normalmente. Mesmo que as vítimas de doenças cardiovasculares vivam até 70 anos, o número de anos de vida útil destes é bem menor em relação aos acidentados no trânsito que teriam mais 40 ou 50 anos de vida pela frente. São pessoas jovens em quem não somente os pais, como também a sociedade, investiram durante muito tempo. E, exatamente quando chegam à idade produtiva, perdem a chance de poder dar um retorno à sociedade por causa de um acidente de trânsito que pode ter acontecido por uma estupidez, distração ou ignorância(...)”

“...Precisamos abandonar a ideia de que o trânsito é um assunto só do DETRAN, do CONTRAN, do DNER. Os órgãos públicos colocam as placas de sinalização, marcam as ruas etc., mas quem faz o trânsito somos nós. Eles podem fazer o Código Nacional de Trânsito, mas quem obedece ou desobedece somos nós. Todos nós participamos do trânsito e nessa medida temos uma certa parcela de responsabilidade nisso.

Assim, o trânsito passa a ser visto como um bem social que pertence a todos. Todos têm direito ao trânsito, que não pertence somente a um ou a outro. Se alguém tem direito, também tem deveres em relação aos outros, e vice-versa. Teria que haver uma mudança de consciência de que o trânsito é de todos e para todos. Aí ocorreria uma tentativa de todo mundo permanecer vivo, alcançar seu destino e ninguém se ferir ou morrer. Seria um benefício para todos na sociedade e, nesse sentido, o trânsito deveria ser um exercício de convivência pacífica."

Revista Psicologia e Profissão (1986)

 

Márcio José Matos Rodrigues-Psicólogo e Professor de História

 

 


Figura:

https://www.google.com/search?q=imagem+de+tr%C3%A2nsito&sxsrf=ALiCzsaLMo8m0i_inUO5jEDrJ4QKEAlIHA%3A1663469173179&source=hp&ei=dYYmY4uBCfnS1sQPo_WX8Ag&iflsig=AJiK0e8AAAAAYyaUhWZef2VPb8x6R8ZEcRIqblugDQHx&ved=

 

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

A imperatriz Leopoldina e o processo de independência do Brasil

 




Uma personagem histórica feminina de destaque no processo de independência do Brasil foi Leopoldina Carolina Josefa de Habsburgo-Lorena (conhecida no Brasil como Maria Leopoldina, pois ela passou a adotar esse nome quando veio para o Brasil), que foi arquiduquesa da Aústria, primeira esposa de Dom Pedro I e imperatriz consorte do Brasil. Ela nasceu em 22 de janeiro de 1797, no Palácio Hofburg, em Viena, Arquiducado da Áustria, no Sacro Império Romano-Germânico. De 12 de outubro de 1822 a 11 de dezembro de 1826 ela foi imperatriz do Brasil e por um curto período, de 10 de março a 2 de maio de 1826 foi rainha consorte de Portugal e Algarves. Seu pai era o imperador austríaco Francisco I e sua mãe era a princesa Maria Teresa de Nápoles e Sicília, segunda esposa de Francisco. A rainha da França, Maria Antonieta, guilhotinada durante a Revolução Francesa, era tia-avó de Leopoldina, que teve como cunhado o imperador da França Napoleão Bonaparte, casado com Maria Luísa, a irmã mais velha de Leopoldina.

Leopoldina teve esmerada educação quando criança e adolescente, pois os príncipes da família Habsburgo tinham uma educação com base em uma tradição que iniciou com Leopoldo II, avô dela. Para ele “as crianças deveriam ser desde cedo inspiradas a ter qualidades elevadas, como humanidade, compaixão e desejo de fazer o povo feliz". Essa família da realeza austríaca tinha fortes costumes católicos e também procurava ter uma ótima formação científica e cultural, com aprendizado nas áreas de política internacional e sobre como governar. Leopoldina foi criada nesses princípios.

Com sua ampla formação cultural, ela foi considerada por estudiosos como a articuladora do processo de Independência do Brasil, entre 1821 e 1822. Segundo Paulo Rezzuti, em sua obra “Dona Leopoldina — A história não contada: A mulher que arquitetou a Independência do Brasil”, ele diz sobre ela: abraçou o Brasil como seu país, os brasileiros como o seu povo e a Independência como a sua causa”. Diversas vezes ela agiu como conselheira do príncipe Dom Pedro como na questão que levou ao “Dia do Fico”. Dom Pedro em cartas ocasiões precisou se ausentar e foi ela que ficou como regente, sendo considerada a primeira mulher a se tornar chefe de estado de um país americano independente.

Sobre a família Habsburgo, de onde vinha Leopoldina, essa família reinou na Áustria de 1282 até 1918 (ano final da I Guerra Mundial). Seu pai foi o último imperador do Sacro Império Romano Gemânico, dissolvido por Napoleão em 1804.

O nascimento de Leopoldina aconteceu durante as guerras napoleônicas, época muito difícil para a família Habsburgo. A Áustria se envolveu na maior parte desses conflitos contra Napoleão, que chegou a invadir Viena. Em um acordo com Napoleão, o imperador austríaco Francisco ofereceu sua filha Maria Luisa como esposa para ele. 

A mãe de Leopoldina morreu quando ela tinha dez anos e sua madrasta, a terceira esposa de Francisco I, era sua prima e tinha vastos conhecimentos culturais e era inclusive amiga de Goethe, famoso poeta alemão. Foi ela que se dedicou muito à educação de Leopoldina, incentivando o gosto pela literatura e pela música de autores como Beethoven e Joseph Haydn. Os filhos de Francisco I a chamavam de “querida mamãe” e tinham uma educação voltada para a cortesia, caridade, a necesidade de sacrifícios pessoais pelo bem do Estado. Nessa educação existiam disciplinas como: leitura, escrita, alemão, francês, italiano, dança, desenho, pintura, história, geografia e música; em módulo avançado, matemática (aritmética e geometria), literatura, física, latim, inglês, grego, canto e trabalhos manuais. Leopoldina teve predileção por ciências naturais, em destaque para botânica e mineralogia. Ela mesma fez coleções de moedas, plantas, flores, minerais e conchas. Antes de vir para o Brasil, ela já dominava 6 línguas, aprendeu rapidamente o português em 1816 e interessou-se por conhecimentos a respeito das terras brasileiras.  Leopoldina e seus irmãos na Áustria visitavam museus, fábricas, fazendas e participava de bailes, iam a peças teatrais e tocavam instrumentos musicais. Eram estimulados a falar em público, praticando a oratória ea saber portar-se diante do povo.

Sobre a educação de Leopoldina nos diz Paulo Rezzutti em “Dona Leopoldina, A História não contada”:

“(...) Aos 14 anos as lições já eram diferentes, como podemos ver por esta outra carta, datada de 11 de abril de 1,814:

 “Tenho três novos mestres:1-abade Rogier, como mestre de geometria e matemática, que estudei durante o outono e o inverno e onde fiz meus maiores progressos; agora estou repetindo-as; 2-o abade Neumann, como mestre de numismática, três vezes por semana das dez às onze, que me diverte muito; 3-o abade Stelzhamer, três vezes por semana, das oito às nove da noite, que me aborrece muito e com quem não faço muitos progressos...”. E também o mesmo autor:

“Cada arquiduque tinha sua própria corte. No caso de Leopoldina, duas mulheres ocupavam em seu pequeno mundo papeis importantes. Uma era Maria Ulrica, condessa Von Lazansky, camareira- mor, responsável pelo ensino de boas maneiras, etiqueta e cerimonial e pela supervisão dos estudos. A outra era Francisca Annony, responsável pelas roupas da arquiduquesa, por sua higiene e cuidados corporais(....). Toda vida de Leopoldina seguia regras e um cronograma preestabelecido, assim como uma ordem de precedência clara (...). A madrasta de Leopoldina foi uma boa esposa e mãe extremosa com os filhos que herdara do casamento anterior do marido. Chegava a tomar ela própria a lição das crianças e impor-lhes castigos quando não queriam estudar. Foi a responsável pela introdução de Leopoldina ao Pietas Austriaca. A imperatriz Maria Ludovica cuidou da preparação dela ao catecismo e levou-a à sua primeira eucaristia. Logo após a partida de Maria Luisa em direção ao seu destino na França, Leopoldina ingressou, em 3 de maio de 1810, na Ordem da Cruz Estrelada, uma ordem exclusivamente feminina e aristocrática. Seus membros deveriam se dedicar à oração, à adoração da Santa Cruz, a levar uma vida de virtude e a praticar obras de assistência espiritual, além de se envolverem em trabalhos de caridade (...)” .

Leopoldina era uma mulher que foi educada para ser capaz de exercer função de governante, tendo além dos conhecimentos que obteve por meio de estudos, interesses por ciências naturais, em especial botânica e mineralogia. Ela não só era muito estudiosa, como também desenhava, pintava e sabia tocar instrumentos musicais.

Sobre o casamento de Leopoldina e Pedro, constituiu-se como parte de uma estratégia política de Portugal e da Áustria. Os casamentos envolvendo reinos europeus naquela época funcionavam como meio de se obter apoios políticos e até mesmo para forjar alianças. O grande negociador do lado português foi o Marquês de Marialva. Em 29 de novembro de 1816 foi assinado o acordo entre os países sobre o casamento e em 13 de maio de 1817 o arcebispo de Viena realizou o casamento, mas Dom Pedro não estava presente, foi por procuração. Dom Pedro foi representado por Carlos da Áustria-Teschen, arquiduque, tio de Leopoldina e importante chefe militar. Em 6 de novembro de 1817, quando Leopoldina já estava no Brasil, ela e Pedro receberam uma benção nupcial no Rio de Janeiro.

 Segundo Ronaldo Vainfas, em sua obra: “Dicionário do Brasil Imperial”:

“(...) O casamento de Leopoldina com Dom Pedro, realizado por procuração em 1817, inseria-se na política tradicional de estabelecer relações entre as casas reais através de laços matrimoniais, mas, para a Áustria, servia ainda como instrumento para estender à América sua política legitimista, defendida por Metternich no Congresso de Viena, visando a contrabalançar os movimentos liberais na porção espanhola do continente, em sua maioria autonomistas e republicanos. Já Para Portugal, significava, no difícil equilíbrio da política internacional da conjuntura pós-napoleônica, buscar novas alianças com potências europeias, a fim de reduzir a influência britânica no mundo luso-brasileiro.

Ao chegar ao Brasil, em novembro de 1817, Dona Leopoldina veio acompanhada de uma missão científica, formada por naturalistas, desenhistas e pintores, que ampliaram o conhecimento do país (...)”.

Paulo Rezzutti comenta em sua obra já citada:

 “(...) A união entre os Habsburgos e os Bragança abria não apenas à Áustria, mas para os demais Estados germânicos, os portos do Brasil, até então controlados exclusivamente pelo comércio com a Inglaterra. Comercialmente, ter uma Habsburgo como rainha desse novo Reino americano era muito interessante, afinal, isso poderia vir a ajudar na retomada do crescimento econômico austríaco.” 

Leopoldina, tinha sido criada em uma monarquia absolutista e de início ficou assustada com movimentos políticos brasileiros, temendo uma revolução no estilo da Revolução Francesa, que levou o rei e a rainha (tia-avó de Leopoldina) a serem executados. Mas, depois de algum tempo, essa mulher inicialmente temerosa em relação com as questões políticas no Brasil acabou se envolvendo nas questões entre Brasil e Portugal, tomando partido ao lado dos brasileiros. Ela, ao lado do ministro brasileiro José Bonifácio, foram de imensa importância para o processo de independência do Brasil. Leopoldina passa a ter uma postura mais liberal em favor do Brasil e com a partida de Dom João VI para Portugal em abril de 1821, as tensões foram aumentando. Leopoldina, mesmo com sua formação em uma corte absolutista europeia procurou influenciar Pedro em defesa das liberdades para o Brasil, como quando as cortes portuguesas queriam que ele voltasse para Portugal (Dia do Fico). Ela escreveu no fim de 1821 uma carta à seu secretário Schäffer, mostrando ser uma princesa empenhada na causa brasileira. Ela decidiu, antes mesmo de Dom Pedro, permanecer no Brasil diante das exigências vindas de Portugal. Dava algumas sugestões a Pedro e muitas vezes influenciava outras pessoas que tinham ligação direta com ele para que o aconselhassem politicamente. Ela, antes do marido, percebeu o jogo que as Cortes portuguesas faziam no sentido de subjugar a família real portuguesa e de dominar o Brasil. Leopoldina refletiu que o Brasil poderia ser uma nação independente importante.

Em agosto de 1822 Dom Pedro foi para São Paulo para tratar de assuntos políticos e Leopoldina ficou como Princesa Regente Interina do Brasil. Tinha sido nomeada por Dom Pedro como chefe do Conselho de Estado em 13 de agosto de 1822. Possuía poderes legais para governar o Brasil na ausência do marido. Ela soube que Portugal estava agindo para estabelecer um controle sobre o Brasil. O ministro José Bonifácio de Andrada e Silva a orientou a tomar medidas sérias e ela reuniu-se em 2 de setembro com o Conselho e envia carta a Dom Pedro junto com uma carta escrita por José Bonifácio e mais cartas que tinham sido mandadas de Portugal contendo críticas a Dom João e Dom Pedro.

A seguir trechos da carta de Leopoldina:

“É preciso que volte com a maior brevidade. Esteja persuadido de que não é só o amor que me faz desejar mais que nunca sua pronta presença, mas sim as circunstâncias em que se acha o amado Brasil. Só a sua presença, muita energia e rigor podem salvá-lo da ruína (...)."O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece”.

Na época foi pensado na criação de uma bandeira de um Brasil independente, com o verde da casa de Bragança e o amarelo da casa de Habsburgo-Lorena. Ela foi aclamada imperatriz em primeiro de dezembro de 1822 e se esforçou para que cortes europeias reconhecessem a independência do Brasil, tendo escrito cartas para Dom João e para o imperador da Áustria.

Leopoldina havia recebido em agosto de 1822 uma carta de senhoras baianas, dando parabéns a ela pelo seu papel nas decisões tomadas por Pedro em prol do Brasil. Leopoldina em carta ao marido destacou a atitude daquelas mulheres baianas: "prova que as mulheres têm mais ânimo e são mais aderentes à causa boa”.

Leopoldina sofreu ao saber do envolvimento de Dom Pedro I com Domitila de Castro (que teve uma filha com o imperador reconhecida por ele publicamente) e ao ter de aceitar a amante dele como dama de companhia. Em uma viagem a Bahia, em 1826, Domitila acompanhou o casal real. Leopoldina se sentia humilhada e essa situação a abalou profundamente nos aspectos moral e psicológico. Leopoldina escreveu a sua irmã Maria Luisa dizendo: “O monstro sedutor é a causa de todas as desgraças”. O herdeiro do trono, que seria o futuro Dom Pedro II, nasceu em 1825. Ela já tinha tido outros filhos, mas nem todos sobreviveram. Em 1826 Leopoldina estava depressiva e com problemas de saúde. Ela era amada pelo povo e havia desentendimentos dela com o imperador. Muitos brasileiros rezavam pela saúde dela. O embaixador do reino da Prússia escreveu para Berlim:

“A consternação no meio do povo era indescritível; nunca [...] foi visto igual sentimento uníssono. O povo se encontrava literalmente nos joelhos rogando ao Todo Poderoso pela conservação da imperatriz, as igrejas não se esvaziavam e nas capelas domésticas todos se encontravam de joelhos, os homens formavam procissões, não de habituais que quase costuma provocar risos, mas sim de verdadeira devoção. Em uma palavra, tal inesperada afeição, manifestada sem dissimulação, deve ter sido para a alta enferma uma verdadeira satisfação”.

Um jornal brasileiro, o Diário Fluminense, publicou em 7 de dezembro de 1826:

“Já pelos boletins, já pessoalmente dirigindo-se à Imperial Quinta, onde se mistura grandes e pequenos, nacionais, e estrangeiros, ricos e pobres, com as lágrimas nos olhos, o rosto abatido e o coração repassado de amargura e inquietação, fazem tremendo esta pergunta – Como está a Imperatriz?”.

O religioso Frei Sampaio assim descreveu o momento:

“Nunca se observou na estrada de São Cristóvão maior concurso de povo; atropelavam-se as carruagens; todos corriam em lágrimas, entretanto que no centro da cidade giravam as procissões de preces, com suas imagens, e com acompanhamento de todo o clero, assim regular ou secular. O povo não pode ver sem público sinais de piedade a imagem de Nossa Senhora da Glória, que nunca saiu de seu templo, e que pela primeira vez, debaixo de muita chuva, ia como visitar a princesa, que aparecia todos os sábados aos pés dos seus altares [...] Não houve, em uma palavra, irmandade alguma, que não levasse à Capela Imperial os Santos da maior devoção."

Quando faleceu, Leopoldina estava grávida e substituía o imperador que foi com tropas para a Província Cisplatina (atual Uruguai). Era a Guerra Cisplatina entre brasileiros e argentinos. Embora alguns estudiosos tenham dito que a causa do agravamento do estado de Leopoldina tenha sido uma agressão física de Pedro, não foi comprovada essa agressão em exames do esqueleto de Leopoldina no século XX. Mas é verdade que Pedro havia humilhado muito Leopoldina em um episódio em 20 de novembro de 1826, quando ele quis que o beija-mão à regente fosse feito na presença dele e de Domitila. Ele pretendia mostrar que estava tudo bem e que os boatos do romance dele com Domitila eram falsos. Mas Leopoldina se recusou a entrar na sala do trono. O imperador, segundo relatos, teria sido muito rude e procurado arrastar Leopoldina até a sala do trono, sem sucesso, porque Leopoldina não compareceu.

Na sua última carta em 8 de dezembro de 1826 à irmã Maria Luísa, Leopoldina escreveu:

"Minha adorada mana!"

"Reduzida ao mais deplorável estado de saúde e tendo chegado ao último ponto de minha vida em meio dos maiores sofrimentos, terei também a desgraça de não poder eu mesma explicar-te todos aqueles sentimentos que há tanto tempo existiam impressos na minha alma. Minha mana! Não tornarei a vê-la! Não poderei outra vez repetir que te amava, que te adorava! Pois, já que não posso ter esta tão inocente satisfação igual a outras muitas que não me são permitidas, ouve o grito de uma vítima que de tu reclama - não vingança - mas piedade, e socorro do fraternal afeto para meus inocentes filhos, que órfãos vão ficar, em poder de si mesmos ou das pessoas que foram autores das minhas desgraças, reduzindo-me ao estado em que me acho, de ser obrigada a servir-me de intérprete para fazer chegar até tu os últimos rogos da minha aflita alma. A Marquesa de Aguiar, de quem bem conheceis o zelo e o amor verdadeiro que por mim tem, como repetidas vezes te escrevi, essa única amiga que tenho é quem lhe escreve em meu lugar."

"Há quase quatro anos, minha adorada mana, como a ti tenho escrito, por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da maior escravidão e totalmente esquecida pelo meu adorado Pedro. Ultimamente, acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento a meu respeito, maltratando-me na presença daquela mesma que é a causa de todas as minhas desgraças. Muito e muito tinha a dizer-te, mas faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa da minha morte. Cadolino, que por ti me foi recomendado, e que me tem dado todas as provas da maior subordinação e fidelidade, é quem fica encarregado de entregar-te a presente, e declarar-te o que por muitos motivos não posso confiar a este papel. Tendo ele todas as informações que são precisas sobre este artigo, nada mais tenho a acrescentar, confiando inteiramente na sua probidade, honra e fidelidade."

"Faltaria ao meu dever se, além de ter declarado ao Marechal e a Cadolino que tenho dívidas contratadas (ou contraídas?) para sustentar os pobres, que de mim reclamarão algum socorro, e para as minhas despesas particulares, não dissesse a ti que o Flach, de quem tenho muitas vezes escrito, é digno de toda tua consideração e de meu Augusto Pai, a quem peço-te remeter a inclusa (...)”

Ao sofrimento de Leopoldina, muitos do povo tiveram uma reação de hostilidade em relação à Domitila, a Marquesa de Santos. Sua casa foi apedrejada e houve um atentado a tiros contra seu cunhado. Ela foi orientada por ministros e funcionários reais a não frequentar mais a corte.

Em 11 de dezembro no Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, Leopoldina morreu. Nesse dia foi enviado a noticia sobre a morte dela ao imperador Dom Pedro I. Segundo o relato, ela antes de morrer tinha febre alta, convulsões e delírios. Muitos brasileiros choraram sua morte. Na Europa, a imagem de Dom Pedro ficou afetada. Segundo análise do médico legista Luiz Roberto Fontes em 2012, uma doença grave foi a causadora de aborto e morte de Leopoldina. Ele disse:

"O que temos condições de dizer, hoje, é do que a imperatriz não morreu. Se houve mesmo uma briga por causa da traição de Dom Pedro I, ela não tem a ver com a morte de dona Leopoldina (...)."Ela teve uma infecção grave, mas não sabemos ainda qual é essa doença. Precisamos de mais análises para descobrir a causa da morte. A tomografia não mostrou fratura no fêmur ou em outro osso, descartando a lenda da queda de uma escada ou do acidente (que teria sido provocado por Dom Pedro). Pelos exames, vimos que a causa pode ser uma grave infecção que ela teve por três semanas".

Ela foi sepultada no Convento da Ajuda. Em 1954 o corpo foi transferido para a Capela Imperial, sob o monumento do Ipiranga, na cidade de São Paulo.

Leopoldina foi muito popular. Os mais pobres tinham boa impressão dela, que foi chamada de "mãe dos brasileiros”. No dia de sua morte pessoas choravam pelas ruas e segundo alguns relatos houve pessoas escravizadas que teriam dito: “Nossa mãe morreu. O que será de nós? Quem tomará partido dos negros?”.  A morte dela contribuiu para aumentar a perda da popularidade de Dom Pedro I.

Leopoldina tinha sido, além de importante politicamente, também uma incentivadora da ciência e das artes. Vieram com ela da Europa nomes de destaque como o botânico alemão Von Martius, o zoólogo Von Spix e o pintor Thomas Ender. Também a vinda dela contribuiu para a imigração germânica, de início com suíços em Nova Friburgo e depois alemães em outros locais.

 Segundo a professora de História Juliana Bezerra:

“(...) Carolina Josefa Leopoldina de Habsburgo-Lorena nasceu em 22 de janeiro de 1797. Era a terceira filha do Imperador da Áustria, Francisco I, e da sua segunda esposa, a Princesa Maria Teresa Carolina de Nápoles e da Sicília.

No Brasil, passou a assinar como “Maria Leopoldina”, por ser uma tradição da família real portuguesa incluir "Maria" entre os nomes das infantas. Também é conhecida em nossa história como “Imperatriz Leopoldina”, “Dona Leopoldina” ou “Dona Maria Leopoldina” e "Maria Leopoldina de Áustria".

Educada com esmero na corte vienense, desde cedo mostrou interesse pela botânica e mineralogia. Nas excursões realizadas com sua família aproveitava para coletar mostras de minerais e plantas.

Também estudou línguas, história e pintura deixando várias aquarelas.

Bicentenário: Imperatriz Leopoldina teve protagonismo na Independência

Mãe de Dom Pedro II e de outros seis filhos. Esposa humilhada por um marido, Dom Pedro I , que colecionava amantes.

Essas imagens mais conhecidas da história de Dona Leopoldina não são tudo.

Só recentemente historiadores passaram a chamar atenção para o protagonismo da princesa austríaca, que embarcou para o Brasil para um casamento de conveniências.

Para o escritor Paulo Rezzutti, autor de “Dona Leopoldina, a história não contada”, a austríaca que se encantou pelo Brasil tem protagonismo na história da independência muito antes do sete de setembro.

Articuladora, sagaz e poliglota. Apesar de todas as humilhações, Leopoldina passou a agir para manter o reino para os filhos. Segundo a historiadora Mary Del Priore, autora do livro “A carne e o sangue, sobre a família imperial”, Leopoldina percebeu que era necessário participar ativamente da política para preservar o trono para os filhos.

Uma princesa que soube se impor. Essa é a avaliação do historiador Clóvis Bulcão, autor do livro “Leopoldina, a Princesa do Brasil”. 

Os historiadores entendem que o machismo impediu que o protagonismo de Leopoldina fosse mais retratado. 

As novas leituras sobre as ações dela mudam também o olhar sobre a história da Independência do Brasil. (...)”

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História.

 

Figura:

https://www.google.com/search?q=imagem+de+leopoldina&sxsrf=ALiCzsYJthw83uigM9oP410Q_hTAZ_XRWw%3A1663015755435&source=hp&ei=S5sfY4u6GNDb1sQP7


terça-feira, 6 de setembro de 2022

Artigo: A História das Bandas de Música no Brasil

 



A História das Bandas de Música no Brasil

As bandas de música em muitas cidades brasileiras há tantos anos tem proporcionado momentos de paz e alegria para milhões de pessoas de todas as idades. Pensando na importância desses grupos musicais para a realidade cultural brasileira e para o bem estar de tanta gente eu resolvi escrever este artigo no meu blog.

Como surgiram as bandas de música?

A origem das bandas está ligada à formação de grupos musicais informais ligados à atividade militar, como os grupos musicais ambulantes no Egito Antigo, em Roma, no Oriente Médio Inclusive há a descrição bíblica no Antigo Testamento sobre a tomada de Jericó, com a presença de um grupo musical.

Para alguns pesquisadores, banda é o feminino de bando, palavra do latim que significa bandeira. Os grupos musicais marchavam junto com destacamentos militares.

Os Janízaros, grupo militar especial do Império Turco Otomano, organizaram a mais antiga banda de música que possuía oficialmente essa função. Durante uma invasão ao Império Austríaco, alemães imitaram o estilo da banda turca. Depois foi a vez da França ter bandas de música no seu exército. Mais tarde, a banda como um grupo com instrumentos de percussão e sopro, com uma estrutura semelhante à que existe na atualidade, surgiu na Itália. Tais grupos na Europa ficaram ligados aos corpos militares e marchavam à frente das tropas com a bandeira com a bandeira nacional.

Há uma versão de alguns historiadores que defende que o termo “Banda de Música” está relacionado com bandos alegres de músicos que surgiram após a queda da Bastilha, adquirindo popularidade e passando a ser as bandas de música.

No Brasil, as bandas surgem no Rio de Janeiro, no século XVIII e eram formadas por barbeiros (muitos deles escravos), que tocavam fandangos, dobrados e quadrilhas em festas religiosas e profanas. Depois, em 1831, são criadas as primeiras Bandas de Música da Guarda Nacional e elas irão passar a atuar em diversas cidades brasileiras.

Na verdade, existia no Brasil uma tradição musical desde os tempos de colônia. Graças às bandas, foi estimulada a criação musical no país, com a revelação de músicos e maestros.

A vinda da família real para o Brasil em 1808, teve relação com as bandas de música. Havia uma banda entre os que acompanharam Dom João na sua fuga ao Brasil. A influência religiosa se fez presente, pois Portugal sendo católico, havia música de raiz religiosa com estilos como Antífona, Te Deum, Ladainha e outros. Na época era forte a influência do barroco na música.  E a música popular estava ligada aos degredados, aventureiros,  pessoal de rua etc.

Destacaram-se no século XIX as Bandas Militares em Pernambuco, que se apresentavam em desfiles e festas religiosas. A Banda do 4º Batalhão de Caçadores, a Banda da Guarda Nacional (as mais antigas) e a da Brigada Militar, que foi criada em 1878, são bandas que merecem ser lembradas. Na segunda metade do século XIX e início do XX as bandas se espalharam no território brasileiro.

As bandas tem funções artísticas, culturais e contribuem para a questão da cidadania e para uma interação social em muitas comunidades no Brasil. Anacleto de Medeiros fundou em 1896 a mais famosa de todas as Bandas de Música: a do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. No decorrer do século XX as Bandas de Música tornam-se uma das mais populares manifestações da cultura nacional. Assim, apresentações passam a ser feitas em coretos onde bandinhas tocavam. E muitas dessas bandas viravam orgulho para as populações dessas localidades. Músicos amadores, profissionais, eruditos e populares são assim formados como por exemplo: Patápio Silva, Anacleto de Medeiros e Altamiro Carrilho etc. Com as bandas foram criados chorinhos, marchas, dobrados etc.

Durante o Segundo Império, existiram cidades com mais de uma banda de música, com ligações aos partidos políticos daqueles tempos e à realidade sócio- econômica. Parte dessas bandas permaneceu e outra parte extinguiu-se, algumas sendo recriadas e outras se fundiram com outras bandas. 

Houve na República uma multiplicação das bandas, tendo surgido bandas estudantis de música em educandários, como a banda criada em 1896 no Colégio Salesiano do Sagrado Coração em Recife. Depois outras instituições de ensino pelo Brasil foram criando suas bandas.

Com a expansão da indústria cultural, houve na década de 1970 o risco de desaparecimento de muitas bandas. Assim, como forma de incentivo, em 1976 foi criada pela FUNARTE o Projeto Bandas de Música, com a realização por meio da Coordenação de Bandas de Música.

Segundo a pesquisadora Manuela Areias Costa em Música e história: um estudo sobre as bandas de música civis e suas apropriações militares (2011):
“Pretendemos neste artigo, fazer uma discussão a respeito das bandas civis no Brasil e suas apropriações militares, calcada na pesquisa empírica em torno das referidas bandas do município de Mariana. Para tanto, consideramos que o ambiente musical das bandas é marcado por elementos de uma prática cultural que remonta à tradição, mas permeado pelas apropriações de novos discursos, costumes e representações. Sendo assim, as bandas civis de caráter moderno no Brasil, rearticularam o legado musical das corporações musicais de períodos anteriores, a partir de apropriações  de elementos militares. Conforme a tese de Binder, várias evidências nos levam a crer que as bandas militares atuaram como fatores simbólicos e instrumentais para a difusão da banda de música civil. Segundo o autor, a multiplicação de conjuntos e a atuação contínua em ocasiões festivas ajudaram a criar um ethos militar: características militares que passaram a serem associadas às bandas de música em geral, e como consequência, às bandas de música civis foram reproduzindo alguns elementos típicos de conjuntos militares (BINDER, 2006: 126).

Em consonância com essa ideia, entendemos que o modelo de banda militar constituiu como parâmetro para a formação e a sistematização de Liras e Orfeões civis, segundo as especificidades de cada momento e região do país (DELLA MONICA, 1975; FIGUEIREDO,1923;CAMPOS,1933).

Desse modo, tentaremos demonstrar que as bandas civis oitocentistas se apropriaram de elementos típicos de bandas de corporações militares. Talvez um dos sinais mais visíveis desta apropriação está nos uniformes, instrumentos e repertórios utilizados pelas bandas civis. Seus uniformes lembram as fardas militares, a instrumentação se associa aos instrumentos utilizados pelas bandas militares, pois possuem a capacidade de projeção em ambientes abertos e podem ser tocados por músicos em movimento, e seu repertório é marcado por marchas (...)”

E ainda a mesma autora:

“(...) As bandas constituíram-se, muitas vezes, como uma das únicas manifestações culturais das pequenas cidades interioranas. Podem ser pequenas ou grandes e em diversos estilos, como de fanfarra, marcial, de coreto, entre outros. Independente da classificação, elas estão presentes nos momentos sociais mais importantes da cidade, sejam civis ou religiosos. Conforme Maria de Fátima Granja, estas reúnem várias gerações de famílias, fornecendo músicos para as grandes cidades. Revelam-se, frequentemente, como um centro de disputas sociais e políticas na comunidade e, ao mesmo tempo, promovem momentos de integração social pela magia e pelo prazer que proporcionam, expressão de um ritual coletivo, manifesto por personagens, gestos, vestimentas e outros símbolos (GRANJA, 1984: 10). Enquanto fenômeno cultural, as bandas nos oferecem todo um discurso simbólico construído por uma realidade social.

Em relação à relevância das bandas de música brasileiras, fruto de uma tradição que vem desde os tempos remotos do Brasil colonial, as bandas de música atuaram como celeiro de inúmeros gêneros musicais (entre eles, gêneros populares como a polca, a mazurca, a quadrilha e o maxixe). Tais bandas exerceram um papel de suma importância no processo cultural da sociedade brasileira, criando desta maneira, espaços de sociabilidade.

Além disso, as bandas também contribuíram para o aprendizado musical, revelando grandes maestros, compositores e instrumentistas (..)”

 Sugestão para escutar:

Projeto Bandas de Música da Funarte

https://www.youtube.com/watch?v=rwbFMJtzQeY

___________________________________

 Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História

 

 Figura:

https://www.google.com/search?sxsrf=ALiCzsYObD8UdIuCY1q8vc6I--xkwsQe9g:1662496710849&source=univ&tbm=isch&q=imagem+de+bandas+de+musica+no+interior+do+Brasil


domingo, 4 de setembro de 2022

Poesia Uma manhã de domingo ensolarada em Belém

 

                                                                   Foto: Márcio Rodrigues



Uma manhã de domingo ensolarada em Belém

O que tem

Uma manhã ensolarada de domingo

Em Belém?

Ah! Dia lindo,

Tem o sol que faz parecer

Que você está sorrindo!

Tem os bem-te-vis cantando,

Namorados se beijando

Na praça.

A moça bonita da Batista Campos

Passando.

O rio Guamá,

Convidando,

Para um passeio

Em suas águas.

Uma manhã assim

Não há de ser de mágoas.

A felicidade do rapaz

Porque sua amada veio.

Numa manhã destas você sente

Uma paz.

Uma manhã que seduz,

Que deixa contente

Toda gente.

Cheia de luz

E calor.

Tem em si uma canção

Que os anjos cantam para o Senhor,

Que só escuta quem tem amor

No coração.

Uma manhã que tem a força

De um verão.

Os que prestarem atenção

Verão,

Nas flores

Afrodite com sua beleza;

E a poesia de Apolo,

Nas cores

Das coisas da natureza.

Sim, uma manhã para seu deleite,

Se puder aproveite,

Os momentos,

Desta manhã,

Tão bela

E faceira;

Ou como consolo,

Abra a janela,

Sinta o vento,

Cairá em seu colo,

Uma folha imaginária de mangueira.

Aproveite este dia,

De poesia,

Porque amanhã já será segunda-feira!

Márcio José Matos Rodrigues