sexta-feira, 10 de junho de 2022

Os comediantes Irmãos Marx

 




Estava assistindo alguns vídeos em um dia desses sobre um grupo de comediantes dos Estados Unidos que ficaram famosos em especial nas primeiras cinco décadas do século XX, os irmãos Marx. E aí me veio a ideia de escrever sobre eles, que eram artistas de teatro e depois passaram a atuar em filmes de cinema e na televisão. Os irmãos Marx eram: Leonard Marx (adotou o nome artístico Chico), nascido em 22 de março de 1887 e que faleceu em 11 de outubro de 1961; Adolph Arthur Marx( adotou o nome artístico  Harpo), nascido em 23 de novembro de 1888 e que faleceu em 28 de setembro de 1964; Julius Henry Marx ( adotou o nome artístico Groucho), que nasceu em 2 de outubro de 1890 e faleceu em 19 de agosto de 1977;  Milton Marx (que adotou o nome artístico Gummo), nascido em 23 de outubro de 1893 e faleceu em 21 de abril de 1977; Herbert Marx (nome artístico Zeppo), nascido em 25 de fevereiro de 1901 e faleceu em 30 de novembro de 1979). Houve um irmão deles que morreu ainda bebê, Manfred, nascido em janeiro de 1886 e faleceu em 17 de julho de 1886.

Os irmãos Marx desde a infância já mostravam que tinham talento musical desde crianças. Eles nasceram em Nova Iorque, eram filhos de imigrantes judeus. O pai deles era Samuel "Frenchie" Marx, cujo nome de origem era Simon Marrix, que tinha vindo da França, região da Alsácia. A mãe era Minnie Schoenberg, que nasceu em Dornum , uma cidade da Alemanha.

Em relação aos talentos artísticos, os irmãos se destacaram em tocar instrumentos. Harpo aprendeu a tocar diversos instrumentos, como a harpa, que tocou frequentemente em filmes. Chico tocava muito bem piano. Groucho era bom no violão.

O tio dos irmãos Marx, Al Shean, atuava no chamado teatro vaudeville, que era um gênero de divertimento de variedades que existia em países como Estados Unidos e Canadá desde os anos 1880 até o começo dos anos 1930. Os irmãos passaram a trabalhar nesse tipo de atração artística. Além dos irmãos Marx outros artistas famosos começaram suas carreiras no vaudeville como Charles Chaplin, Bob Hope, Abot e Costello, Will Rogers, Mae West etc.

Em 1905 Groucho estreou como cantor. Em 1907 foi formado o trio The Three Nightingales (rouxinóis), com Groucho, Gummo e Mabel O'Donnell. Em 1908 a eles se juntou Harpo. Em 1910 a mãe dos irmãos e uma tia também entraram nesse grupo que passou a se chamar The Six Mascots. Depois de um episódio em um teatro do Texas em que Groucho fez uma tirada cômica ocasional, a plateia achou muita graça e os familiares dele acharam que existia um potencial cômico para o grupo. A partir de então começou a haver uma mistura de canto com comédia. Havia uma sala de aula em que Groucho era o professor e os outros participavam como alunos (Opa! Será que isso lembra alguma coisa aqui no Brasil muito tempo depois na televisão?)

Os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial e Gummo foi lutar como soldado.  Nos anos finais de vaudeville, até a Broadway e depois nos filmes na Paramount Zeppo o substituiria.

Os irmãos passaram a chamar seu grupo de The Four Marx Brothers, destacando-se no seu tipo de comédia e se dedicaram a formar seus personagens. Groucho iniciou o uso de um bigode pintado; Harpo interpretava um personagem mudo, excêntrico, com uma peruca loura, usando buzina de bicicleta e se comunicando por gestos e assobios; Chico passou a falar com sotaque italiano, usava um chapéu estilo tirolesa e roupas velhas, era o muitas vezes o parceiro preferido de Harpo.

Eles se tornaram famosos e passaram a ser um dos grupos teatrais favoritos nos Estados Unidos. Eles tinham um forte e inteligente senso de humor, faziam sátiras com instituições, com destaque para as graças em relação à alta sociedade e ironizando a hipocrisia das pessoas. Chico exercia a gerência e Groucho era o diretor criativo e assim eles ficaram muito conhecidos na Broadway.

No início dos anos 30 os filmes falados começaram sua disseminação e foi nesse contexto que os irmãos Marx assinaram contrato com a empresa de cinema Paramount para fazer filmes. Em 1932 estrearam um filme que se tornou muito popular e até ganhou uma capa na revista Time: Horse Feathers (no Brasil, Os Reis da Pelota). Eles satirizavam nesse filme o sistema universitário americano. Esse. Em 1933 os irmãos fizeram o último filme na Paramount: DuckSoup (no Brasil: Diabo a Quatro), cujo diretor era Diabo a Quatro. Críticos consideram esse filme o melhor dos irmãos. É o único a constar na lista do American Film Institute dos filmes do século. Esse filme foi o último de Zeppo.

Após a saída de Zeppo, os outros três irmãos foram para a Metro Goldwyn Mayer (MGM), acatando a sugestão do produtor Irving Thalberg mudaram a forma de agir nos próximos filmes. Que passariam a ter comédia, romantismo e números musicais não-cômicos. Nesse tipo de forma os cinco primeiros são muito elogiados como geniais. Os dois filmes que foram feitos com Thalberg (que morreu em 1937) foram A Night at the Opera (1935), que teve grande sucesso e A Day at the Races (1937). A outra empresa cinematográfica que os irmãos trabalharam por pouco tempo foi a RKO, na qual fizeram em 1938 o filme Room Service. Fizeram ainda mais três filmes na MGM: At the Circus (1939), Go West (1940) e The Big Store (1941). Chico era o empresário do grupo, tinha mania de jogar, com vários casos amorosos e contraía dívidas. Para pagar essas dívidas os Irmãos Marx fizeram A Night in Casablanca (1946) e Love Happy (1949), que foram produzidos pela United Artists.

Nos anos de 1950 os três irmãos trabalharam juntos em cenas diferentes, em um filme que a crítica não considerou bom: The Story of Mankind, de 1957. Em 1959 houve o especial de televisão, The Incredible Jewel Robbery. Às vezes Chico e Harpo faziam algumas aparições em teatros.

Groucho Marx foi apresentador de 1947 até parte dos anos de 1960, no programa You Betyour Life. Ele escreveu os livros autobiográficos: Grouchoand Me (1959) e Memoirsof a Mangy Lover (1964).

Os Irmãos Marx ainda vivos em 1977 colocaram seus nomes na Calçada da Fama.

Segundo Paulo Emílio Guardado (em maio de 2019):

“(...) O grupo começou sua carreira cinematográfica fechando um contrato de quatro filmes com a Paramount. Entre 1929 e 1933, eles lançariam um filme por ano. Começando com No Hotel da Fuzarca (The Coconauts, 1929), um dos primeiros filmes da era do cinema falado.

Com um humor completamente anárquico e nonsense, cada um dos quatro artistas desenvolvia suas características mais particulares. Vamos começar pelo líder do grupo: Groucho Marx. Mesmo que você nunca tenha ouvido falar dos Irmãos Marx, tenho certeza que o rosto dele você já viu. Seu tradicional charuto na boca acompanhado pelos óculos e o forte bigode (para tristeza de muitos, um truque feito com pintura capilar) seguem icônicos até hoje. Mas a aparência não era tudo, Groucho se destacava pelo sarcasmo e humor ácido que tornaram muitas de suas frases memoráveis. “Nunca frequento um clube que me aceite como sócio”, “O matrimônio é a principal causa do divórcio”, “Nunca esqueço um rosto, mas no seu caso vou abrir uma exceção”, e a minha favorita: “Se você não gosta dos meus princípios, eu tenho outros”.

Também não podemos deixar de comentar que ele se destacaria como uma das primeiras personalidades da história do cinema a aperfeiçoar a técnica teatral de quebra da quarta parede, artimanha muito utilizada até hoje. Em quase todos os 13 filmes do grupo, Groucho se vira para a câmera e fala com o público, geralmente fazendo alguma piada. Um desses momentos que mais me arrancou risos foi no filme Um Dia No Circo, de 1939, em que Groucho precisa pegar um envelope com dinheiro das mãos de uma mulher que imediatamente o esconde em seu sutiã. O bigodudo, então, se vira para a câmera e diz: “Preciso arrumar um jeito de pegar este envelope sem ter problemas com a censura”.

Harpo era o mais aloprado do grupo, com sua típica peruca loura (sim, era uma peruca), caretas e gestos. Usando um humor excêntrico, interpretava sempre um personagem que não falava. Aliás, um fato curioso é que há raríssimos registros da voz do ator. Ele nunca falou uma única palavra no cinema ou na televisão durante toda a sua carreira, fazendo com que muitos acreditem até hoje que o ator era verdadeiramente mudo. Mas mesmo não falando, seu personagem é, para muitos, o melhor da trupe. Ele se comunicava através da postura corporal, assobios, trejeitos e – claro – de sua tradicional buzina de bolso, sempre acionada na presença de uma bela mulher.

O apelido Harpo não veio à toa, Adolph Marx – podemos entender por que ele preferiu mudar de nome – era um grande tocador de harpa. Em todos os filmes do grupo havia um momento especial para que pudesse tocar o instrumento.

Chico, por sua vez, se caracterizava como um típico trambiqueiro. Com seu falso sotaque italiano, roupas velhas e chapéu estilo tirolesa, ele ficou marcado como o grande parceiro de Harpo, tendo uma habilidade única em compreender o que seu irmão dizia por gestos e assobios. Enquanto um tocava a harpa, o outro tocava com categoria o piano. Chico também era o empresário do grupo, e um dos principais responsáveis por uma negociação bem proveitosa para os Irmãos Marx (volto a falar do assunto em seguida).

E por fim, Zeppo. O galã. Sua aparência sempre o colocava no papel do mocinho e todo o clichê que isso envolvia. Logicamente era um papel secundário, sua função no grupo era serum escada, o ator que dá a deixa para que o comediante principal faça sua piada. Talvez por conta disso que o rapaz deixaria o grupo em 1933, depois de filmarem o último filme com a Paramount, Diabo a Quatro (Duck Soup).

A saída de Zeppo foi um divisor de águas na carreira dos Irmãos Marx. O próximo passo seria dado com imensa participação de Chico, que jogava cartas todas as noites com o produtor Irving Thalberg e jogou na mesa a possibilidade da MGM fazer um contrato com ele e seus irmãos. Thalberg marcou uma reunião com o grupo e os deixou esperando por um dia inteiro na sala de espera para, no fim, pedir que eles voltassem no outro dia.

Os três retornaram e, novamente, esperam Thalberg por horas e horas. Cansado, Groucho conseguiu enquadrar o produtor: “Senhor Thalberg, se pedir para virmos aqui à meia noite, estaremos aqui à meia noite. Mas se nos chamar, por favor nos atenda. Ou não trabalharemos com o senhor”.

Aquilo foi um choque, obviamente. Thalberg nunca havia sido abordado daquela maneira. No dia seguinte, ele atendeu o grupo pontualmente às 11h, como combinado, mas voltou a entrar e sair da sala quando bem entendia. Fez isso repetidas vezes. Mas na quarta escapada, os Irmãos Marx pegaram um imenso armário de arquivos e bloquearam a entrada. Só permitiram que ele entrasse às 17h. Quando entrou, viu o grupo assando batatas em uma lareira que tinha na sala. Detalhe: completamente nus.

Depois dessa brincadeira sútil, Thalberg nunca mais deixou os Irmãos Marx esperando. Os dois filmes produzidos por ele são provavelmente os mais engraçados do grupo. Uma Noite Na Ópera (A Night At The Opera), de 1935, o primeiro filme sem Zeppo e o primeiro de Allan Jones, seu substituto. E Um Dia Nas Corridas (A Day at the Races), de 1937, também com Allan Jones fazendo o papel do galã. Este último é o mais longo e mais completo filme dos irmãos, que conseguem explorar todas as suas habilidades durante a trama. É a minha recomendação certeira para quem quer se iniciar no mundo dos Marx.

Entretanto, neste mesmo filme, o grupo sofreria uma perda considerável. Irving Thalberg viria a falecer de uma pneumonia antes mesmo da conclusão de Um Dia Nas Corridas. Para muitos, isso marcou o fim da nova trajetória dos Irmãos Marx. Eu devo discordar. A nova fase do grupo, mesmo desfalcado, só estava começando.

Com a MGM, a trupe se atentava em fazer filmes ligeiramente diferentes, focando não só na comédia escrachada, mas também em conflitos românticos e histórias mais desenvolvidas. Essa, digamos, maturidade, não mudou a forma como faziam humor, ainda anárquica e poderosa.

Tanto na fase com a Paramount quanto com a MGM, podemos citar uma peça importantíssima na carreira dos Marx: a atriz Margaret Dumont. Fazia sempre o papel da senhora inocente, ingênua e muito rica, que acabava se envolvendo com os personagens de Groucho – interessado, claro, na grana da coitada. Dumont chegou a fazer 7 filmes com o grupo, dois a mais que o próprio Zeppo, o que lhe gerou o apelido de “Quinto Irmão Marx”.

A filmografia dos Marx não seria lá muito extensa, com apenas 13 filmes. O último deles, Loucos de Amor, além de um dos mais fracos, sequer mostra os três irmãos juntos em cena. Entretanto, os outros 12 se tornaram clássicos e obras primas da comédia, citados em diversos outros filmes e séries até os dias de hoje.

Destaques para os filmes No Tempo do Onça (Go West), de 1940, com o trio se aventurando no Faroeste Americano, A Grande Loja (The Big Store), do ano seguinte, em que Harpo e Chico dividem um teclado de piano tocando “Mamãe eu Quero”, grande sucesso brasileiro da época, e Uma Noite em Casablanca(A Night In Casablanca), de 1946, penúltimo filme dos Marx e, nas palavras do próprio Groucho: “O filme que me fez ver que eu não era mais um rapaz”.

Neste longa, os Irmãos Marx fazem uma sátira do clássico Casablanca, de 1941, estrelado por Humphrey Bogart. A Warner Brothers ameaçou processar o grupo, alegando que o título era um plágio de seu filme. Groucho, sempre inteligente, respondeu à empresa com uma carta um tanto irónica: “Querida Warner Brothers. Se vocês prestarem atenção, verão que a única semelhança entre os filmes Casablanca e Uma Noite em Casablanca está na palavra Casablanca. De resto, tudo é diferente, o roteiro, os atores, tudo. Vocês se incomodaram tanto assim só com a palavra Casablanca? Não sabia que ela pertencia a vocês. E finalmente, vocês usaram o nome Warner Brothers, sendo que nós já éramos os Marx Brothers há muito mais tempo, e não falamos nada”.

O primeiro dos Irmãos Marx a nos deixar seria o mais velho, Chico, em 1961. Harpo morreria três anos depois, e Groucho nos deixaria no dia 2 de outubro de 1977, aos 86 anos, vítima de uma pneumonia. Sua morte foi injustamente pouco noticiada na época, só pelo fato de que três dias antes havia falecido um tal de Elvis Presley. Gummo havia falecido meses antes em 21 de abril de 1977, e há quem diga que Groucho, hospitalizado, morreu sem saber da partida do irmão mais novo. Zeppo seria o último a seguir para o plano de cima, em 1979, aos 78 anos. Ele também morreria rico, entretanto não por causa do cinema, mas sim de seus negócios no ramo da engenharia.

Possivelmente os Irmãos Marx foram menos famosos que comediantes como Charles Chaplin ou o Gordo e o Magro. Mas ainda assim, foram responsáveis por inovar a comédia a um novo nível, numa época em que não era tão comum desrespeitar as regras. Ao assistir qualquer filme do grupo, não recomendo a ninguém fazer uma detalhada análise cinematográfica, já que em muitos a história a ser contada é o menos importante. O que importa é o jeito de fazer humor, seja nos diálogos ou na graça corporal que marcou o grupo(...)”.

 

Frases de Groucho Marx:

“Acho que a televisão é muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para a outra sala e leio um livro.”

“As noivas modernas preferem conservar os buquês e jogar seus maridos fora.”

“- Vamos descobrir um tesouro naquela casa?
- Mas não há nenhuma casa...
- Então vamos construí-la !”

“Eu nunca me esqueço de um rosto, mas, no seu caso, ficarei feliz em abrir uma exceção.”

“Se acredito na vida após a morte? Não sei nem se acredito na vida antes da morte! Acho que acredito na morte durante a vida.”

“Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros.”

"Eu pretendo viver para sempre, ou morrer tentando."

"Um brinde a nossas esposas e namoradas: que elas nunca se encontrem!"

"Eu não sou vegetariano, mas como animais que são".

“O matrimônio é a principal causa do divórcio.”

"Inclua-me fora disso."

"Por que eu deveria me importar com a posteridade? Ela nunca fez nada por mim."

"Do momento em que peguei seu livro até o que larguei, eu não consegui parar de rir. Um dia, eu pretendo lê-lo".

“Egoísta é toda pessoa que pensa mais nela do que em mim.”

“Apenas um entre mil é um líder de outros homens – os outros 999 seguem suas mulheres.”

“Disseram que dei vexame bebendo champagne no sapato de Sophia Lorem. Não é verdade. Derramei quase metade porque ela se recusava a tirar o maldito pé do sapato.”

"Eu não posso dizer que não discordo com você."

“O problema de não fazer nada é você nunca saber quando acabou.”

“Fale quando estiver com raiva e você fará o melhor discurso do qual se arrependerá.”

“O riso é uma coisa séria demais.”

“Se o dinheiro não pode comprar a felicidade, ele certamente deixa você escolher sua própria forma de miséria.”

“Eu, e não os acontecimentos, tenho o poder de me fazer sentir feliz ou infeliz hoje. Eu posso escolher como é que quero estar. O ontem está morto, o amanhã ainda não chegou. Eu tenho apenas este dia, o de hoje, e vou ser feliz enquanto ele decorrer.”

“O humor é a razão enlouquecida.”

“Muita gente parece não perceber que a primeira coisa que desaparece quando estão transformando um país num estado totalitário é a comédia.”

“Morrer, minha querida?
Esta será a última coisa que farei!”

Sugestão de vídeo:

Os Irmãos Marx - A Invenção da Comédia Falada

https://www.youtube.com/watch?v=KsQNk2CxmoM

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História


Figura:

https://www.google.com/search?q=imagens+irm%C3%A3os+marx&sxsrf=ALiCzsbV2wgvINRnCvPeVMc6b4k-gyfl8A:1654896005084&tbm=isch&source=

 

terça-feira, 7 de junho de 2022

O cientista escocês James Clark Maxwell

 




James Clark Maxwell foi um importante físico que nasceu em 13 de junho de 1831 em Edimburgo, na Escócia. Ele foi um fantástico teórico do século XIX, conseguindo complementar o cientista Faraday, que era um ótimo experimentalista. Ele foi muito religioso, uma pessoa tímida, com forte senso de humor e com simplicidade. Tinha uma intuição física muito boa e usou modelos visuais e matemáticos com brilhantismo, exerceu uma imaginação criadora. Maxwell com sua síntese no eletromagnetismo, por meio de suas equações de campo, contribuiu de uma forma que pode ser comparada aos feitos de Newton e Einstein na mecânica.

Aos 15 anos, por intermédio  da Royal Society de Edimburgo, ele publicou seu primeiro trabalho científico chamado "Descrição das Curvas Elípticas".  Entrou na Universidade de Edimburgo em 1847, lá ficando por três anos e depois foi estudar matemática no Trinity College, em Cambridge. Em 1849 começou a pesquisar sobre visão a cores em 1849 e por meio dessa pesquisa demonstrou como todas as cores podem ser obtidas a partir das cores primárias, vermelho, verde e azul.

Escreveu, em 1855, o artigo "Sobre as Linhas de Força de Faraday”, o qual tratava de eletricidade e magnetismo, tomando com base trabalhos de Michael Faraday. Em 1858 casou-se com Katherine Dewar e em 1860 passou a ser professor do King's College,na Universidade de Londres, tendo sido nessa instituição o primeiro cientista a usar a teoria das probabilidades no estudo das propriedades dos gases. Na época escreveu também um artigo sobre os anéis de Saturno. Foi eleito em 1861 para a  Real Society de Londres.

Em 1865 o pai de Maxwell faleceu. Eles eram muito ligados, pois o pai o tinha criado desde a morte da mãe quando James tinha somente 8 anos. De volta à Escócia, Maxwell entra como professor de Filosofia Natural na Universidade de Aberdeen. Nesse tempo ele estudou a teoria dos campos magnéticos e produziu a primeira fotografia colorida. Apresentou na Real Society um trabalho sobre as propriedades dos gases em 1866.

Em 1871 veio a se tornar o primeiro professor de física experimental da Universidade de Cambridge, tendo construído o Laboratório Cavendish. Maxwell faleceu em 5 de novembro de 1879. É considerado um formidável cientista do século XIX, com trabalho que fez a relação entre o eletromagnetismo e a luz. 

Segundo Domiciano Marques, graduado em Física:

“Maxwell demonstrou, usando a analogia das oscilações dos campos elétrico e magnético com as oscilações de um fluido, que essas oscilações poderiam se propagar da mesma forma que as ondas mecânicas. Maxwell imaginou que essas ondas se propagariam em um meio que chamou de éter, um meio invisível que envolveria todos os objetos.

A ideia da existência do éter perdurou até o estabelecimento da Teoria da Relatividade, na segunda década do século XX. Usando as propriedades dos campos elétrico e magnético, conhecidas na época, Maxwell calculou a velocidade de propagação dessas ondas, obtendo o valor de 3x108 m/s, que reconheceu como sendo o valor da velocidade da luz. Tomando como referência essa descoberta, ele propôs que a luz visível deveria ser uma onda eletromagnética.

Maxwell, no ano de 1864, juntou, ou melhor, unificou e generalizou as Leis de Coulomb, Ampère, Faraday e Lenz, enunciando o que hoje conhecemos como as Leis de Maxwell. De uma forma simplificada, elas diziam que:

- A força entre cargas pontuais é diretamente proporcional ao produto das cargas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre elas (Lei de Coulomb).

- Não existem monopolos magnéticos.

- Um campo elétrico variável ou uma corrente elétrica podem criar um campo magnético.

O trabalho de Maxwell não foi bem aceito pela comunidade científica da época. Não havia comprovação experimental da relação entre luz e fenômenos elétricos e magnéticos. Quando morreu, não houve homenagens a ele. Somente os cientistas de visão, como Hertz, reconheceram de imediato a importância das suas descobertas.

A comprovação experimental da existência de ondas eletromagnéticas fora do espectro visível só ocorreu em 1888, quase dez anos após a morte de Maxwell. Como dito, coube ao físico alemão Heinrich Hertz demonstrar, de forma indiscutível, a existência dessas ondas. As contribuições de Maxwell o colocaram como um dos maiores cientistas de todos os tempos(...).”

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Márcio José Matos Rodrigues- Professor de História.

 Figura: https://www.google.com/search?q=imagem+de+James+Clerk+Maxwell&sxsrf=ALiCzsaSG5QUDi5XanaDKvtd7KFuruWkKA



quarta-feira, 1 de junho de 2022

Armas nucleares táticas

 




Neste artigo vou tratar sobre armas nucleares táticas. As armas nucleares táticas ou armas nucleares de uso tático em relação às estratégicas possuem pequeno poder explosivo, em geral uma força de 0,5 a 5 kilotons para atingir alvos específicos. Por exemplo, tropas, grupos de blindados, bases militares, navios ou mesmo porta-aviões. Estas armas utilizam o poder de destruição e calor ou o pulso eletromagnético, que são as principais formas de energia liberada pelo artefato explosivo. As armas táticas podem ser minas terrestres, projéteis de artilharia, cargas de profundidade e torpedos.

Um exemplo de arma nuclear tática lançada por artilharia, em 1953, na operação Upshot-Knothole Grable foi o canhão M65, arma que ficou conhecida como "canhão atômico". Uma importante característica destas armas é que, mesmo com poder explosivo menor, elas tem efeito radioativo, o que cria uma dificuldade para o uso. As armas táticas tem como objetivo ataques com alcance menor e podem ser lançadas do ar, mar e terra. Embora haja países que nomeiam armas de curto alcance como estratégicas, ao invés de táticas, tais armas, na maior parte dos casos, são menores que armas nucleares estratégicas se for considerada a carga útil e são criadas para acertar alvos menores ou para se fazer ataques diretos em campo de batalha.

O objetivo de se usar armas nucleares táticas seria atingir forças armadas inimigas. Para não ser necessário utilizar uma arma tática mais destrutiva, que possa afetar também a fonte lançadora, o ideal é que o alvo esteja mais perto da base que está lançando para que se use uma bomba de potencial menor.

Entre as armas táticas há as ogivas de cargas de profundidade nucleares, para serem usadas contra submarinos que estejam a uma profundidade grande. Durante a Guerra das Malvinas o governo argentino acusou a Inglaterra de usar cargas de profundidade nucleares. Mas o governo inglês negou, afirmando que possuía tais cargas na guerra, porém não as tendo utilizado. Tanto Estados Unidos como a União Soviética tinham mísseis ar-ar com ogivas nucleares quando existia a Guerra Fria. O possível uso dessas armas seria a destruição de aviões bombardeiros nucleares do adversário. Em 19 de Julho de 1957, na Operação Plumbbob, houve teste do míssil ar-ar nuclear AIR-2-Genie. Esse míssil foi o primeiro do tipo ar-ar com carga nuclear lançado de um avião F-89J sobre o deserto de Nevada, a uma altitude de cerca de 4,5 Km. Depois também os caça-bombardeiros F-101 B e F-106 A da Força Aérea dos Estados Unidos passaram a carregar esse tipo de míssil, cujo objetivo era causar danos ou mesmo destruir bombardeiros estratégicos voando muito alto. Esse bombardeiros seriam atingidos por pulso eletromagnético (PEM) com o uso do míssil. O PEM era mais eficaz que a onda de choque da explosão da bomba em situação de ar rarefeito.

Hoje em dia não há necessidade de se usar armas nucleares táticas para se produzir pulsos eletromagnéticos ou grande quantidade de calor e pressão porque já existem armas convencionais que causam o mesmo efeito, como as bombas de pulso eletromagnético ou bombas de energia direta. Um exemplo é o JSOW, arma que produz uma descarga eletromagnética com microondas direcionadas, podendo danificar equipamentos eletrônicos, de computação ou comunicação em pequenas áreas.

Em termos de destruição, armas táticas podem ser substituídas por bombas termobáricas, com poder de destruição de 1kiloton. Estados Unidos e Rússia afirmam ter armas termobáricas com poder destrutivo entre 5 e 11 kilotons. Os Estados Unidos já usaram esta arma no Afeganistão e no Iraque. A Rússia utilizou na Chechênia.

O surgimento das armas nucleares está ligado aos grandes investimentos de Estados Unidos e União Soviética nos anos de 1940, quando começou a Guerra Fria e até os anos 80 o poder de destruição da bomba que destruiu Hiroshima já tinha sido superado em milhares de vezes. Essa situação gerou o potencial de destruição mútua garantida (MAD), o que provocou o temor de uma guerra nuclear com uso de armas de alta destruição. Assim, nesse contexto, a OTAN, diante da enorme quantidade de tropas da União Soviética no Pacto de Varsóvia, começou a implantar armas nucleares de curto alcance para impedir um ataque grande de forças terrestres soviéticas.

No início da Guerra Fria houve a implantação da "Atomic Annie”, uma das primeiras armas nucleares táticas colocadas na Europa, que se caracterizava por ser uma grande peça de artilharia que em 1950 tinha a capacidade de disparar a uma distância de 29 km uma ogiva nuclear de 15 quilotons (o mesmo poder de destruição da bomba de Hiroshima). Uma arma nuclear tática da época foi a Davy Crockett, com alcance de quatro quilômetros. Depois essas armas saíram de circulação e os Estados Unidos colocaram ogivas nucleares em foguetes de curto alcance. Mesmo um artefato de 0,3 quilotons causaria danos terríveis, mesmo em escala menor.

Nos Estados Unidos e na Rússia as armas nucleares táticas formam aproximadamente de 30 a 40% dos arsenais nucleares desses países e em outros países o percentual é maior.  As armas nucleares táticas não são direcionadas para uma destruição nuclear ou radioativa em massa. Já foram feitos acordos entre a Rússia e os Estados Unidos para limitar o poder e tamanho de armas nucleares táticas, ainda que este tipo de armas não tenha uma regulação como foi feita com as estratégicas. Segundo Nikolai Sokov, no The James Martin Center:

“Seu tamanho pequeno, vulnerabilidade ao roubo e percepção de usabilidade tornam a existência de ANTs em arsenais nacionais um risco para a segurança global. E a nova percepção da usabilidade de armas nucleares na Rússia e nos Estados Unidos, embora por razões diferentes, pode criar um precedente perigoso para outros países”

Atualmente, em relação à guerra na Ucrânia, o governo dos Estados Unidos mandou formar uma equipe especial para informar à OTAN sobre como agir em caso de haver por parte da Rússia o uso de qualquer arma nuclear tática para ataque às forças ucranianas. Tem havido uma desconfiança por parte de líderes ocidentais de que Putin pode ordenar o uso de armas nucleares táticas, pois o presidente russo disse ter mandado seus generais: “colocar as forças de dissuasão do exército russo em alerta especial de combate”. William Burns da CIA comentou que: “É possível que o presidente Putin e os líderes russos entrem em desespero levando em conta os contratempos que sofreram até agora do ponto de vista militar”.  Mas ele também reconheceu “não ter encontrado fatos concretos (...) ". 

Devemos torcer para que em nenhum conflito sejam utilizadas armas nucleares táticas, pois embora sejam menos destruidoras que as armas nucleares estratégicas, são armas atômicas que além do potencial de destruição, também estão ligadas à radioatividade que é espalhada, embora em um sentido muito mais limitado que as armas nucleares estratégicas e o uso pode acender o perigo de uso de mais armas nucleares em uma escala que pode ser muito perigosa.

Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História

 


 

 Figura:

https://www.google.com/search?sxsrf=ALiCzsZnV-2-92NFL-iwXVPfyqm233-JGQ:1654141380687&source=univ&tbm=isch&q=imagem+de+armas+nucleares+t%C3%A1ticas


quinta-feira, 26 de maio de 2022

O "Olhar de mil jardas"


 

 

O termo “olhar fixo de mil jardas” teve origem na Primeira Guerra Mundial. Ele passou a ser usado para combatentes com estresse de batalha e a impressão que dava é que os olhos poderiam mesmo ver muito longe. Mas o termo se popularizou mais durante a Segunda Guerra Mundial. É um tipo de olhar vazio, sem foco de soldados que adotaram uma postura de distanciamento emocional em relação aos horrores de guerra. Outras vítimas de outros tipos de traumas também apresentam este sintoma ligado a um aspecto dissociativo.

A revista Life publicou a pintura “Marines Call It That 2.000 Yard Stare”, do artista e correspondente da Segunda Guerra Mundial Thomas Lea, sobre um fuzileiro naval que lutou na Batalha de Peleliu. Esse fuzileiro foi ferido na sua primeira campanha, teve doenças tropicais, dormindo pouco à noite e combatia os soldados japoneses durante o dia. As baixas de seu grupo tinha sido numerosas (aproximadamente dois terços da companhia foram mortos ou feridos).

Houve também um relato de um cabo dos fuzileiros dos Estados Unidos chamado Joe Houle, que lutou na Guerra do Vietnã. Ele relatou que não percebia emoções nos olhos de seu novo esquadrão, segundo palavras dele sobre o olhar dos soldados: "O olhar nos seus olhos era como se a vida lhes tivesse sido sugada".

Um caso mais recente de “olhar de mil jardas” foi mostrado na revista National Geographic. Trata-se da foto de capa da revista, na qual há uma garota afegã de olhos verdes, com um olhar que aparenta passar bem pela câmera, fitando um futuro desconhecido e sombrio. Há uma falta de emoção e um distanciamento no olhar dela, indicando uma experiência de estresse e dificuldade.

O “olhar de mil jardas” é com frequência associado a soldados que estiveram há pouco tempo em combate e considerado um precursor da síndrome de estresse traumático. Para médicos, esse tipo de olhar está relacionado a um trauma muito forte que fez a pessoa se dossociar ou desconectar do mundo. Mas,mesmo não apresentando emoções, os soldados com estes sinais continuam funcionais em meio às situações de combate.Mas geralmente não apresentam muita eficiência no combate pois tem fadiga, tempo de reação mais lento, indecisão, desconexão do ambiente e incapacidade de priorizar.

Depois de um certo tempo, há pessoas que embora sem assistência especializada conseguem ir voltando à realidade. Porém, muitos que passaram por tais experiências acabam necessitando de apoio psicológico para superar a dissociação. Apresentando ainda estes sintomas, as pessoas podem ser diagnosticadas com distúrbios de estresse agudo ou choque, como também o olhar pode ser um sintoma de Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT), que requer um tratamento especializado. 

Outros sintomas podem aparecer junto com o “olhar de mil jardas”. Pessoas que tem este olhar podem ter distúrbios do sono , tendência a abusar de bebidas alcóolicas, humor irregular, ataques de pânico ou de ansiedade etc. O quadro sintomático pode demorar a desaparecer. Apesar de ter ficado muito conhecido por causa das guerras, há outros casos que não são relacionados ao ambiente de batalhas. Há quem apresente estes sintomas por ter passado por experiências traumáticas como ataques violentos, desastres naturais, perigo constante ou grandes perdas.

Segundo a Wikipédia:

 

“Olhar de mil metros ou olhar de dois mil metros , o que significa o olhar de mil metros de distância , é uma expressão em inglês. Muitas vezes é usado para descrever o olhar vazio e disperso de soldados que criaram uma barreira emocional para os horrores pelos quais estão passando. De maneira mais geral, esse termo é às vezes usado para descrever o olhar que reflete a dissociação em vítimas de outros traumas .”

Também o artigo da Wikipédia define a Reação ao estresse de combate:

“Reação de combate ao estresse ( CSR ) é um termo usado nas forças armadas para descrever a desorganização comportamental aguda vista pela equipe médica como resultado direto do trauma da guerra. Também conhecido como "fadiga de combate" ou "neurose de batalha", tem alguma sobreposição com o diagnóstico de reação aguda ao estresse usado na psiquiatria civil . É historicamente ligado ao choque de bomba e às vezes pode preceder o transtorno de estresse pós-traumático .”

Sugestão de vídeos:

https://www.youtube.com/watch?v=-v2nBQ3wvOE

 https://www.youtube.com/watch?v=-Q-113FGZrs


Márcio José Matos Rodrigues-Psicólogo e Professor de História

 



Figura:

https://www.google.com/search?q=imagem+de+olhar+de+mil+jardas&sxsrf=ALiCzsZV2MDO-tz9S5532Tm


terça-feira, 17 de maio de 2022

Um caso de Contágio Psíquico em uma escola de Recife no Brasil

 







 

Na Escola Estadual de Referência em Ensino Médio Ageu Magalhães, em Recife, houve, recentemente, uma situação de transtorno coletivo em alunos. Aproximadamente às 15h e 30 minutos, depois da refeição, 26 alunos tiveram uma crise de pânico ou ansiedade generalizada. Deitaram um por um no chão, suavam bastante e tinham tremores. Eles choravam e apresentaram dificuldade para respirar. Alguns desmaiaram.

Pelas características apresentadas, pode ter sido um caso de Contágio Psíquico, anteriormente chamado de Histeria Coletiva. Houve informação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) a respeito do caso. De acordo com essa informação, os estudantes tiveram sintomas como sudorese, saturação baixa e taquicardia. Mas tiveram atendimento no local e não foram encaminhados para hospitais.

A psicóloga Anna Paula Brito, que é doutora em educação e professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), destacou o contexto social que precisa ser considerado e que afeta estudantes, professores e pais. Disse ela: "Existe uma cadeia aí, a gente viveu um momento de crise muito grande, de crise social, na humanidade. [...] Aumento do desemprego, a crise econômica que a gente está vivendo, tudo isso faz com que a gente tenha a vida afetada, além da pandemia, com a morte de pessoas próximas. Nós ficamos dois anos com a sombra da morte junto da gente. Tudo isso não tinha como não promover um desequilíbrio emocional. Um episódio desse [como o da escola] para a gente é um sinal".

Ela também disse:

"Esses adolescentes foram privados do convívio com os seus colegas e já estavam vivendo um movimento de reclusão, trancafiados em seus quartos com seu celular. Isso terminou sendo agravado com a pandemia". E ainda:

"Perdemos nossos espaços de escola e nossos espaços de manifestação cultural, de arte e de lazer. A gente perdeu tudo de uma vez: contato social, lazer, cultura, arte e escola como espaço de interação social".

Outros especialistas também explicam a ocorrência de tais casos. Eles dizem que, os casos acontecem em decorrência de alguma imposição política e social dogmática. Outro fator a ser considerado nestes casos é um contexto de escassez, como também a ausência de poder descarregar essas emoções coletivas, o que se fazia em tempos passados em certos rituais.

Esses casos, antes chamados de “histeria coletiva”, acontecem quando há em um grupo numeroso de pessoas certos sintomas físicos ou psicológicos como riso incontrolável, desmaios, enjoos, dores musculares.  Este transtorno pode acontecer devido a um fator ambiental, por exemplo, a contaminação do suprimento de água, causando a preocupação de pessoas em um grupo de ficarem doentes, sentindo sintomas mesmo estando saudáveis ou indivíduos que observam um membro do grupo adoecer, apresentando os mesmos sintomas. Ou as pressões sociais ou emocionais que se se tornam excessivas para um grupo de pessoas tolerar, causando ansiedade generalizada. Tal quadro pode se espalhar por comunidades, cidades e até mesmo podendo atingir países. Na Idade Média, casos de histeria coletiva foram confundidos com bruxaria ou posse demoníaca. Segundo especialistas, os casos de “histeria coletiva” podem estar ligados ao estresse emocional e mental. No passado, houve diversos casos em escolas, prisões e conventos.

Considerando a denominação anterior do Contágio Psíquico, ou seja,“histeria coletiva” a Wikepédia assim descreve o transtorno:

“Histeria Coletiva, também conhecida por histeria em massaou folie à plusieurs(do francês, "Loucura de muitos), é o fenômeno sóciopsicológico definido pela manifestação dos mesmos ou semelhantes sintomas histéricos por mais de uma pessoa. Uma manifestação comum de histeria coletiva ocorre quando um grupo de pessoas acredita que sofre de uma  ou padecimento semelhante. O início da histeria coletiva se dá quando alguém adoece  ou torna-se histérico durante um período de estresse. E após isso, outras pessoas passam a apresentar sintomas parecidos como fraqueza muscular, náuseas, convulsões ou dores de cabeça. “

Há exemplos de casos que foram considerados como “Histeria Coletiva”:

1-Entre os séculos XIII e XVII houve a “praga da dança” ou também chamada de dança de “St. John” e “dança de St. Vitus.” Em 1374 na cidade de Aachen, na Alemanha, centenas de pessoas dançaram por dias descontroladamente, por dias e só pararam quando estavam já exaustos.

2-O autor J. F. C. Hecker, em sua obra de 1844 “Epidemics of the Middle Ages”, relatou que houve uma situação em que, em um convento na França, uma freira passou a miar como uma gata e que outras freiras da imitaram até que todas apresentaram o mesmo comportamento. Soldados foram chamadas e bateram nas freiras, que deixaram de “miar”.

3- Em 1962, na cidade de Kashasha, Tanzânia, três moças que estavam emum internato feminino passaram a rir sem controle, outras moças presentes também começaram a tir. Após algumas semanas, a mesma situação aconteceu também acontecendo em outras 14 escolas. Todas essas escolas tiveram de ser fechadas.

4-Na região de Salém, Massachussetts, nos Estados Unidos, houve casos da chamada  histeria coletiva, entre 1692 e 1693. Houve dezenas de meninas que gritavam e se contorciam. Elas foram acusadas de bruxaria e julgadas, sendo que 25 delas foram condenadas à morte..

-Outros casos: Epidemia de dança em um lugar da França, em 1518; ,No Reino Unido, Irish Frightem 1688 e Spring Heeled Jack, em 1837; Epidemia do purgador de vento de Seatle, nos Estados Unidos, 1954; Epidemia de desmaios na Cisjordânia, em 1983; Envenenamento de estudantes em Kosovo, 1990; Avistamento de palhaços, em 2016 etc.

E em Recife? O que de fato ocorreu? Não se sabe exatamente. Como ocorrem em casos assim, emoções são muito reprimidas, a repressão pressiona e as emoções querem sair e com intensidade, de alguma forma. Lá houve a ansiedade coletiva, com sintomas de falta de ar, ansiedade, desespero e crença de morte.

Segundo estudiosos que analisaram os fatos em Recife (entre eles a psicóloga Anna Paula Brito, já mencionada), alguns fatores podem ter influenciado para o surgimento do surto na escola. Por exemplo, a volta às aulas depois de um tempo de aulas não presenciais e de isolamento, quando as crianças tinham necessidade de relacionamentos interpessoais e mais a questão de pânico devido à pandemia. E num sentido mais amplo, os especialistas dizem que outros fatores podem ter contribuído como a questão financeira do país, afetada pela pandemia;  o dogmatismo religioso fortalecido em alguns grupos; aspectos ligados à violência na sociedade; e as incertezas sociais.

Em situações como a situação da escola em Recife, surtos podem ocorrer sem motivo aparente e podem durar dias ou meses até terminarem totalmente. Tais casos podem ocorrer em indivíduos do mesmo grupo, por exemplo, alunos de uma mesma escola ou torcedores de um mesmo time, devido à ligação psicológica entre os componentes desses grupos.

Segundo analistas, o Contágio Psíquico também tem seu lado positivo para a sobrevivência de diversas espécies, inclusive a humana. Estudos indicam que graças ao Contágio Psíquico é que surgiu a questão de um grupo sentir fome e sono em um mesmo horário ou de outras pessoas vomitarem quando um indivíduo do mesmo grupo vomita.

Conforme explicações da neurociência, mesmo o pensamento mais racional tem raízes nas emoções. A ligação psíquica profunda e extrema entre seres humanos é explicada, por exemplo, por Jung, no que ele chamou de “Inconsciente Coletivo”. Já Gilbert Durand chamou de “Imaginário” e Edgar Morin de “Noosfera”. É por meio desta ligação psíquica profunda que tais conteúdos com potentes cargas emocionais vem à tona e dominam os indivíduos, podendo levar a desmaios, danças, terem falta de ar etc. No caso das crianças, que estão se desenvolvendo psiquicamente, elas são mais sensíveis à influência psíquica da família, do grupo em que estão inseridas e dos acontecimentos que ocorrem na nação. Segundo o psicoterapeuta Leonardo Torres: “No livro "Contágio Psíquico: a loucura das massas e suas reverberações na mídia”, da editora Eleva Cultural, demonstro que o caso de Recife não é único, ocorreu e ainda ocorre diversas vezes em escolas pelo mundo. Existem epidemias de ansiedade e pânico, como a que aconteceu recentemente, mas também de diversas outras emoções”.

Em muitas partes do mundo há os principais elementos formadores do Contágio Psíquico: grupos sob estresse psicológico e físico, geralmente com fome, cansado ou ambos. Mas há uma espécie de gatilho que inicia pessoas ao seu limite e que faz com que ocorram os sintomas em massa. Há momentos de incertezas e as mentes humanas querem explicações e sem explicações há um descontrole emocional e o aumento do medo. Para especialistas em psicossomática, há explicações fisiológicas adicionais para alguns dos sintomas de surtos de histeria em massa. Pessoas muito agitadas e assustadas podem hiperventilar ou começar a respirar muito rapidamente, o que as faz exalar uma quantidade considerável de dióxido de carbono, baixando os níveis deste elemento no corpo e havendo espasmos nos músculos das extremidades, o que pode explicar a dormência, formigamento e contração muscular sentidos por algumas vítimas. Pessoas com alto nível de ansiedade podem interpretar mal as sensações físicas normais. Um simples problema no estômago pode ser sentido como intoxicação alimentar e o nível de medo pode aumentar e a pessoa cair no chão se antes tiver visto outras pessoas ao redor caírem no chão como se estivessem se sentindo intoxicadas. Aquela pessoa foi absorvida pelos sintomas do grupo. Pode ser relevante também a hierarquia social do grupo na disseminação dos sintomas.

Segundo Yuri Vasconcelos(Publicado em 11 de agosto de 2010) a respeito de “Histeria Coletiva”, relatando sobre como Freud tratava a questão:

“O exemplo que utiliza do terceiro tipo de identificação é o das ‘moças do internato’. A situação é de uma moça que recebe uma carta de alguém por quem está apaixonada, que lhe causa ciúmes e ela tem uma ‘crise de histeria’. A crise da moça apaixonada desperta como reação o fato de que suas amigas que sabem da situação ‘compartilham da crise’, num mecanismo que Freud subscreve como ‘infecção mental’ ou “identificação baseada na possibilidade ou desejo de colocar-se na mesma situação” (p.117). Freud assinala que esse efeito não se dá por simpatia, mas por uma ‘identificação ao desejo’ das outras moças que também desejariam ter um romance e, por isso, compartilham o sofrimento envolvido na situação. Disso, ele argumenta que o que acontece em uma cena como a descrita acima pode ser compreendido como ‘identificação por meio do sintoma’, na qual há uma ‘analogia significante’ entre o eu da moça da carta e o das outras, isto é: há um sinal de um ponto de coincidência entre os eus. Desse ‘ataque histérico’ em série, pode-se então supor uma histeria que é coletiva, ou seja: uma histeria que se compartilha e, daí, sugerir de onde é que se extraiu o termo ‘histeria coletiva’ – que nada tem que haver como uma predeterminação de tipo clínico histérico. Ou seja: isso não tem qualquer relação com o tipo clínico dos membros de um grupo, diz muito mais do modo como se delineia o contágio em grupo.

O exemplo das ‘moças do internato’ é o que Freud utiliza para falar que é possível que se dê um tipo de identificação através de algo em comum compartilhado e que não tem o sexual como mediador ou causa; e, como destacou, quanto mais comum, mais bem-sucedida é a identificação. Para Freud, este é o tipo de identificação presente nos membros de um grupo e isso também pode ser remetido ao laço que o grupo estabelece com o líder. Característica, aliás, que permite Freud elaborar que os sujeitos não possuem um ‘instinto gregário’, mas que são animais de horda, na medida em que os grupos capazes de subsistir estão sempre remetidos a uma liderança.

Já começamos a adivinhar que o laço mútuo existente entre os membros de um grupo é da natureza de uma identificação desse tipo, baseada numa importante qualidade emocional comum, e podemos suspeitar que essa qualidade comum reside na natureza do laço com o líder. Outra suspeita pode dizer-nos que estamos longe de haver exaurido o problema da identificação e que nos defrontamos com o processo que a psicologia chama de ‘empatia’ [Einfühlung] o qual desempenha o maior papel em nosso entendimento do que é inerentemente estranho ao nosso ego nas outras pessoas. Aqui, porém, teremos de nos limitar aos efeitos emocionais imediatos da identificação, e deixaremos de lado sua significação em nossa vida intelectual. (Freud, 1921/2006, p.117-118)” . E também diz Yuri:

“Não é possível localizar as razões de cada um que desencadeiam esse tipo de reação em série e isso que se diz ‘comum’ fica aprisionado à imagem de ataque histérico, mesmo que não se trate de um. Se voltarmos ao próprio texto de Freud, em uma de suas passagens, ele pressupõe que o sujeito no coletivo ‘abre mão’ daquilo que lhe é individual para agregar-se ao grupo, esfacelando assim o que lhe é particular. Pois, em grupo, o sujeito está exposto a uma condição que afrouxaria as repressões inconscientes (Freud, 1921/2006, p. 85). O afrouxamento das repressões inconscientes seria uma característica constitutiva da sociedade humana, na qual “pouca originalidade e coragem pessoal podem encontrar-se nela, de quanto cada indivíduo é governado por estas atitudes da mente grupal que se apresentam sob formas tais como características raciais, preconceitos de classe, opinião pública etc.” (Freud, 1921/2006, p.127).”

Finalizando, ressalto que a Organização Mundial de Saúde (OMS) fez uma estimativa de que 18,6 milhões de brasileiros são afetados pela ansiedade e que houve uma agravamento dos transtornos ligados à ansiedade por causa da pandemia de Covid-19.

 

Márcio José Matos Rodrigues-Psicólogo e Professor de História.

 

 

Figura:

https://www.google.com/search?sxsrf=ALiCzsb3NHZ8wHwCp1DffVKB-g2r7y2Y0w:1652840939079&source=univ&tbm=isch&q=imagens+do+caso+de+histeria+coletiva+em+recife&fir=