sábado, 24 de dezembro de 2016

A energia do Natal


O Natal
Tem uma energia
Toda especial.
A alegria,
Os abraços de felicitações.
Nas igrejas sinos tocam
E fieis cantam canções.
Que as famílias festejem,
Que haja bons alimentos à mesa,
A grande beleza,
Que o Natal tem,
É com certeza,
O sentimento cristão.
Sentir que Cristo nasceu,
Como a luz maior,
Que espanta a escuridão,
Que vem trazer o amor!

Márcio Rodrigues


Imagem: Google


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Natal nas trincheiras de 1914


Neste artigo pretendo abordar a temática do Natal falando sobre o que aconteceu no período natalino de 1914 durante a I Guerra Mundial, quando houve momentos de confraternização entre os soldados aliados (franceses, ingleses, belgas e russos) e os  dos exércitos alemão  e austríaco.Apesar de serem inimigos, pararam por alguns intervalos de tempo suas hostilidades militares, para confraternizar devido ao espírito do Natal, mesmo não tendo sido autorizados para isso pelos seus altos superiores.

A I Guerra Mundial começou em fins de julho de 1914, quando a Sérvia rejeitou o ultimato do Império Austríaco, que exigia uma solução para o caso do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, morto por um estudante de etnia sérvia na Bósnia-Herzegovina. No início de agosto, a Alemanha já atacava a Bélgica para atingir a França e provocava assim a entrada desse país e também da Inglaterra no conflito, que envolveu várias nações no período de 1914-1918.

Em dezembro de 1914, depois de alguns meses de guerra, já havia centenas de milhares de baixas, entre mortos e feridos. A esperança que existia no princípio do terrível conflito internacional, por parte de grandes chefes militares e civis das potências beligerantes, assim como muitos cidadãos das populações dessas nações de que seria uma guerra breve, foi por água abaixo. Percebeu-se que existia um impasse militar, com franceses e ingleses de um lado em suas trincheiras e de outro lado os alemães, na frente ocidental. Já na frente oriental os exércitos alemão e austríaco enfrentavam o exército russo, sem que houvesse chance de uma vitória rápida e decisiva de qualquer uma das partes.

Foi nesse contexto que houve a chamada “Paz nas trincheiras”. O historiador Max Hastings comentou na sua obra “Catástrofe, 1914: A Europa vai à Guerra”, no capítulo 18, “Noite Feliz, noite feliz”: “A aproximação do Natal de 1914 provocou profundas reflexões entre os povos da Europa, tanto em casa como em campos estrangeiros. Se algum dia houve dúvidas sobre a gravidade da trajetória para a qual seus governos os tinham arrastado, não havia mais”. E ainda: “ As realidades dominantes no fim do ano eram o fracasso de ambos os lados em conseguir um ganho estratégico no leste ou no oeste, e seu empenho em renovar ofensivas logo que as condições de tempo e os suprimentos de munição permitissem”.

Sobre os momentos de confraternização Hastings escreveu: “Com a aproximação do Natal, o Papa Bento XV fez um apelo pela suspensão das hostilidades durante o sagrado feriado cristão. A ideia foi rejeitada de imediato por governos e comandantes, mas os soldados se mostraram mais receptivos. As tréguas espontâneas de 1914_pois houve muitas em todo o front, exceto no sérvio_capturaram a imaginação da posteridade, como símbolo da futilidade de um conflito no qual não havia nenhuma verdadeira animosidade ou propósito. A conclusão é injustificada, porque elas nada representaram de inusitado. Interlúdios de confraternização ocorreram em muitas guerras ao longo dos séculos, sem que impedissem os soldados de continuar a matar uns aos outros. Os espasmos de sentimentalismo e autopiedade exibidos em dezembro de 1914, quase todos de iniciativa alemã, refletiam apenas o fato de que no Natal quase todos os aderentes de uma cultura cristã ansiavam por estar em casa com seus entes queridos, ao que passo que agora, em vez disso, milhões amontoavam-se tremendo na neve e na imundície de campos de matança em terras alheias. O emocionalismo gerado por essas circunstâncias levou muitos homens a fazerem fugazes gestos de humanidade, antes de voltarem às rotinas de barbárie determinadas por seus líderes nacionais.”

O autor então cita alguns casos, como o de um soldado bávaro (alemão) que bancou o Papai Noel, convidando o comandante da companhia para acender três velas e desejar a paz e depois da meia-noite soldados franceses e alemães confraternizaram na chamada “terra de ninguém” (território não ocupado por nenhum dos lados). Outros casos envolveram soldados belgas e alemães, austríacos e russos, alemães e ingleses. 

Um fato muito interessante citado por estudiosos da I Guerra Mundial foi a realização de uma partida de futebol na “terra de ninguém”, numa área localizada entre as trincheiras inimigas.

Após essas experiências do Natal de 1914, os comandantes dos exércitos procuram tomar medidas que evitassem novas confraternizações nos demais natais da guerra (1915, 1916 e 1917), embora tenham continuado a haver alguns episódios isolados entre soldados inimigos.

A I Guerra Mundial resultou em milhões de mortos e outros milhões de feridos. Foi horrível e muito destrutiva. Um alto número de combatentes que sobreviveu teve traumas psicológicos.A guerra abalou nações e causou mudanças mundiais, inclusive houve efeitos que tiveram forte influência para que ocorresse a II Grande Guerra.

As experiências de confraternização nos mostram, mesmo que por curtos intervalos, um aspecto humano e religioso de combatentes que sabiam que estavam ali para lutar, matar e até mesmo morrer, tendo superado naqueles momentos possíveis sentimentos de ódio ou vingança contra membros de uma força militar inimiga, que dias antes podiam ter atacado e provocado muitas mortes e que em momentos posteriores poderiam estar em situações de combate.

Alemães e aliados juntos durante a Trégua do Natal de 1914

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Márcio José Matos Rodrigues-professor de História


Imagem: Google





domingo, 18 de dezembro de 2016

O Significado do Natal



O Natal é uma festividade cristã relacionada ao nascimento de Jesus Cristo. É tradicionalmente comemorado no dia 25 de dezembro, embora historicamente não se saiba com exatidão qual o dia do nascimento de Jesus.  Por muitos séculos tem se relacionado o Natal como um sentimento de alegria entre os cristãos e a data é muito especial na cristandade. Simbolicamente  é uma festa cristã vista como o dia consagrado à reunião da família, à paz, à fraternidade e à solidariedade entre os homens.

Vou abordar aqui alguns aspectos históricos e simbólicos sobre o Natal, tendo recorrido a autores que escreveram sobre o assunto e que se embasaram nas suas áreas de conhecimento.

Em 245 d. C o teólogo Orígenes repudiava a idéia de se festejar o nascimento de Jesus "como se fosse um Faraó". Há inúmeros testemunhos de como os primeiros cristãos valorizavam cada momento da vida de Jesus Cristo, especialmente sua Paixão e Morte na Cruz. No entanto, não era costume na época comemorar o aniversário e portanto não sabiam que dia havia nascido o seu Senhor.

Sobre a origem do Natal o dia 25 de dezembro foi estipulado pela Igreja Católica no ano de 350 pelo papa Júlio I, depois oficializado como feriado. O Natal passou a ser celebrado para substituir a festa pagã da Saturnália, que tradicionalmente acontecia entre 7 e 25 de dezembro. Pode-se dizer que a comemoração do Natal no dia 25 foi uma tentativa de facilitar a aceitação do cristianismo entre os pagãos.

O dia 25 de dezembro era tido também como o do nascimento do misterioso deus persa Mitra, o Sol da Virtude. Assim, em vez de proibir as festividades pagãs, forneceu-lhes simbolismos cristãos e uma nova linguagem cristã.  As referências da Igreja ao simbolismo de Cristo como "o sol de justiça" (Malaquias 4:2) e a "luz do mundo" (João 8:12) demonstram um sincretismo religioso. Semelhantemente, o Natal também incorpora esse mesmo princípio de renovação ao celebrar o nascimento de uma  figura central  do cristianismo, Jesus Cristo.


Não dá para dizer ao certo como eram os primeiros Natais cristãos, mas é fato que hábitos como a troca de presentes e as refeições suntuosas permaneceram. No decorrer da Idade Média, enquanto missionários espalhavam o cristianismo pela Europa, costumes de outros povos foram entrando para a tradição natalina. A que deixou um influência mais forte foi o Yule, a festa que os nórdicos faziam em homenagem ao solstício. O presunto da ceia, a decoração toda colorida das casas e a árvore de Natal vêm dessa cultura.

Outra contribuição do norte foi a idéia de um ser sobrenatural que dá presentes para as criancinhas durante o Yule. Em algumas tradições escandinavas, era (e ainda é) um gnomo quem cumpre esse papel. No Ocidente  essa figura  ganharia traços mais humanos, sendo representada atualmente pelo Papai Noel.

As antigas comemorações de Natal costumavam durar até 12 dias, pois este foi o tempo que levou para os três reis Magos chegarem até a cidade de Belém e entregarem os presentes (ouro, mirra e incenso) ao menino Jesus. Para a Igreja Ortodoxa o Natal é comemorado no dia 07 de janeiro.

A psicóloga Caroline Treigher elaborou um  texto seu publicado na Internet em 2013 sobre o Natal, fazendo sua análise a partir da Psicologia Analítica. Vou reproduzir aqui um pequeno trecho:

"...Dentro do referencial simbólico, qualquer dia pode ser Natal, pode nascer esse Filho de Deus em nós. E com Ele, nascem o Amor e a Fraternidade, a Fé e a Realização. O fato dessa data ser comemorada no final do ano, tem a conveniência – também simbólica! – de nos remeter ao fim de uma etapa e começo de outra, ou de morte e renascimento. Mas para quem viveu momentos marcantes, talvez a contagem do tempo seja diferente e um ano novo tenha começado ainda em julho, ou vá começar apenas ano que vem..."

Em seguida a opinião da psicóloga e membro do Instituto Junguiano do Paraná, Maria de Lourdes Bairão Sanchez, que  define o Natal como um rito de passagem que envolve as pessoas em torno da ideia de fim (do ano) e renascimento (representado pela figura de Jesus Cristo): “Nossa sociedade tem cada vez menos rituais, e o Natal é um dos poucos que ainda preservamos”, Ela considera os rituais importantes pois nos permitem sair da rotina para compartilharmos mais: “Isso faz bem à psique, porque não se vive sozinho. É a interação que faz o humano continuar humano, e no Natal exercemos nossa humanidade da forma mais plena. Porém, é fundamental manter uma vida afetiva no dia a dia, e não só nas festas de fim de ano”.

Como visto na opinião de autores citados,  a importância do Natal além do sentido religioso é o de um rito de passagem, de um simbolismo ligado à esperança e à renovação e à interação humana e ao relacionamento familiar. A troca de presentes precisa ser vista mais no sentido simbólico, como forma de se confraternizar, de fazer parte de uma tradição que busca há muito tempo a aproximação entre as pessoas e não como forma de consumismo ou materialismo somente. A tradição de trocar presentes é muito antiga, mas não quer dizer que se deva valorizá-la mais que a questão maior do Natal, que é  Jesus.

É óbvio que há uma questão comercial. Porém olhemos também de outra forma. Se por um lado temos que ver em primeiro lugar o significado principal ligado a  Cristo, fator que incentiva sentimentos de confraternização e solidariedade, por outro lado não condenemos radicalmente o comércio nesta época, que proporciona às pessoas que desejarem (e que tem condições) poderem comprar presentes para dar e para comprar enfeites natalinos que servirão de adornos as suas casas,  dando uma satisfação de estar vivendo um data especial. E também há a questão do emprego, mesmo que temporário, para os que trabalham em lojas nesta época.

É bonita a atitude de pessoas que ajudam outras que têm carências (materiais e mesmo afetivas) no Natal. Alguns até se vestem de Papai Noel para dar alegrias às crianças pobres.

Nesta atual  fase de dificuldades  do nosso país, que o Natal sirva como um momento de felicidade, de maior aproximação entre as pessoas e de renovação de esperanças. E neste sentimento natalino peçamos a Deus pela paz no mundo, que ainda está envolvido com guerras, injustiças e tantos conflitos.


Márcio José Matos Rodrigues - Psicólogo e Professor de História.

Imagem: Google



domingo, 11 de dezembro de 2016

Uma análise sobre dois Símbolos do Natal: Árvore de Natal e o Papai Noel


Vou falar de dois símbolos do Natal: a Árvore de Natal e o Papai Noel, buscando um histórico dos dois e as influências culturais de diversos povos.

Árvore de Natal

Documentos de 1419 fazem a primeira menção ao uso de pinheiros nas festas natalinas. Os povos pagãos da região báltica na Europa, às vésperas do solstício de inverno, cortavam pinheiros e os levavam para seus lares, enfeitando-os para que, depois da queda das folhas de inverno, os espíritos das árvores retornassem. O cedro no Egito antigo se associava a Osíris e os gregos antigos também tinham suas associações: o loureiro a Apolo, o abeto a Átis e a azinheira a Zeus. Os germânicos tinham o costume de colocar presentes para as crianças sob o carvalho sagrado de Odin.

Na Europa permaneceu durante séculos a tradição de adornar a árvore durante o solstício de inverno. E a árvore de Natal como conhecemos atualmente teve origem na Alemanha, por volta do século XVI. O monge beneditino São Bonifácio, na tentativa de acabar com a crença dos povos pagãos cortou um pinheiro sagrado que habitantes locais adoravam no alto de um monte. Mas não conseguindo acabar com a crença, ele decidiu associar o formato triangular do pinheiro à Santíssima Trindade e suas folhas resistentes e perenes à eternidade de Cristo.

A etnóloga Christel Köhle-Hetzinger, da Universidade de Jena, na Alemanha, conhece uma história que tenta explicar a origem da tradição medieval: "Sabe-se também que árvores verdes eram postas nas igrejas na época de Natal. Era, sem dúvida, uma alusão à árvore do paraíso, que desempenha um papel próprio em toda a liturgia cristã. Ou seja, uma árvore cristã da vida. Como na história de Adão e Eva."

A estrela colocada no topo das árvores na celebração natalina,  representa simbolicamente o "guia celeste" dos três Reis Magos: assim teriam sido guiados Gaspar, Baltazar e Melchior ao local do nascimento de Cristo.

As bolas coloridas colocadas nas árvores representam frutos e os enfeites representam virtudes, desejos e sonhos das pessoas da casa onde está a árvore de Natal. Surgiram diversas tradições familiares, com alguns colocando 12 bolas simbolizando os doze apóstolos ou mesmo múltiplos de 12. Ou 33 bolas, representando os anos de vida terrena de Jesus. E havia outras tradições envolvendo o número das bolas. Para algumas comunidades religiosas, as bolas simbolizam as orações do período do Advento: as azuis são de orações de arrependimento, as prateadas de agradecimento, as douradas de louvor e as vermelhas de prece.


O Papai Noel

A figura do Papai Noel foi inspirada num bispo chamado Nicolau, que nasceu na Turquia em 280 d.C, que costumava ajudar as pessoas pobres, deixando saquinhos com moedas próximos às chaminés das casas. Foi transformado em santo, São Nicolau, pela Igreja Católica, pois foram atribuídos milagres a ele. Foi na Alemanha que a imagem de São Nicolau foi associada ao Natal e depois espalhou-se pelo mundo com vários nomes pelo mundo, por exemplo, Santa Claus nos Estados Unidos, Papai Noel no Brasil e Pai Natal em Portugal.

Papai Noel era representado com uma roupa de inverno até o final do século XIX, na cor marrom ou verde escura. O cartunista alemão Thomas Nast criou a imagem da roupa vermelha e branca, com cinto preto, em 1886 e apresentada na revista Harper's Weeklys no mesmo ano. Uma campanha publicitária da Coca-Cola mostrava em 1931 o mesmo figurino de Nast, pois as cores da roupa do Papai Noel divulgadas por ele eram as mesmas do refrigerante. A campanha ajudou a espalhar a nova imagem do Papai Noel pelo mundo.

Uma história sobre a origem do Papai Noel é a seguinte: Três moças da cidade de Myra (localizada hoje em dia na Turquia), no século IV estavam em situação ruim. O pai delas não tinha boas condições financeiras e as jovens só viam um jeito de sair da extrema pobreza que seria entrar na prostituição. Então, numa noite de inverno, um homem misterioso jogou um saquinho cheio de ouro pela janela (há uma outra versão que diz que foi pela chaminé) e sumiu. Na noite seguinte atirou outro e na outra noite mais outro até que todas as moças tivessem seu saquinho. Elas usaram o ouro como dotes de casamento. O nome do homem era Nicolau de Myra, o bispo da cidade. Não há comprovação dessa história. O Nicolau aí descrito seria o que foi santificado pela Igreja como São Nicolau, por dizerem ser milagroso.

O antropólogo Lévi-Strauss fala do Papai Noel  em sua obra de 1952, "O Suplício do Papai Noel. A antropóloga Florencia Ferrari fala a respeito da obra do grande mestre:

"A análise da figura de Papai Noel tem início nas manifestações de senso comum que veem nele puro empréstimo dos Estados Unidos. Aos poucos o autor mostra como esse personagem vem associado a inúmeros outros fragmentos provenientes de contextos diversos – a troca de presentes, os pinheiros, as luzes decorativas, as botas na lareira, os cartões – revelando uma matriz arcaica. A árvore de natal, por exemplo, sintetizaria num só objeto a árvore mágica, a luz duradoura e a folhagem persistente, presentes em costumes medievais dispersos. O mesmo pode-se dizer do papel do bom velhinho distribuidor de presentes às crianças, que resultaria da fusão sincrética de várias figuras, como o Bispo dos Tolos, o Julebok escandinavo e São Nicolau.

Mas é a comparação com a figura das katchina dos índios pueblo do sudoeste americano que confere singularidade à análise de Lévi-Strauss. As katchina são personagens fantasiados e mascarados que encarnam deuses e ancestrais e voltam periodicamente às aldeias para punir ou recompensar as crianças. A analogia com o personagem de Papai Noel permite uma reflexão sobre os ritos de iniciação e a função de negociador entre duas classes da população: as crianças e os adultos. Mas o mito pueblo explica que as katchina são almas das primeiras crianças indígenas, são portanto prova da morte e testemunho da vida após a morte. É nessa oposição mais profunda entre vivos e mortos que jaz a explicação estrutural do antropólogo para o sentido do Papai Noel contemporâneo, e que caberá ao leitor descobrir em minúcia no ensaio.

Lévi-Strauss mostra que nos ritos de Papai Noel não estamos diante apenas de vestígios históricos, mas de formas de pensamento. A sobrevivência de costumes antigos não explica sua permanência. A distinção de um ponto de vista histórico de um ponto de vista estrutural é o que permite compreender na atualidade desse personagem a constância do medo da morte em termos de empobrecimento e privação. Diante dessa imagem, o “frenesi” de consumismo que nos exaspera nesta época do ano ganha uma interpretação algo mais profunda: para além do “empréstimo” de uma sociedade capitalista injusta que perdeu seus valores, ele apontaria para a tentativa desesperada de disfarçar nossa verdadeira condição diante de uma vida breve."

Espero que estas explicações possam ter dado alguns esclarecimentos sobre estes dois famosos símbolos natalinos.

Márcio José Matos Rodrigues - Psicólogo e Professor de História.


Imagens: Google


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Algumas reflexões considerações sobre política no Brasil


Alguns casos de mau uso do poder no Brasil tem chamado minha atenção. Isso tem a ver com uma cultura política que infelizmente persiste. São casos ligados à costumes arraigados como aquele velho hábito dos poderosos que costumam dizer: "Você sabe com quem está falando?" Os direitos e deveres deveriam ser iguais para todos, porém não é o que realmente acontece. Há quem se valha de seu prestígio para não ser tratado como deveria e procura privilégios devido à posição que ocupa, às amizades influentes que tem ou o poder econômico que possui.

Roberto da Matta, renomado antropólogo, fez os seguintes comentários em 2011: "A reflexão sobre limites, sobre o que é suficiente ou bastante para cada um de nós (e consequentemente para os outros) é o resultado de mais igualdade, liberdade, oportunidade, poder de consumo e daquilo que se chama "modernidade" de mercado e competição eleitoral e de democracia. Da operação consistente de um sistema que tem no centro o indivíduo cidadão livre e igual perante a lei. Todas as sociedades que passaram por aguda transformação no sentido de maior igualdade, acoplada a uma consciência mais aguda de liberdade, vivem um aparente paradoxo. Como usufruir a liberdade e a igualdade sem ofender os outros e, mais que isso, sem levar o sistema a uma anarquia e a um caos no qual alguns podem fazer tudo, o outro não existe e_como consequência_quem ocupa cargos importantes sobretudo no governo e do Estado acaba virando um mandão (ou mandona)  de modo que em vez de igualdade e limite temos o justo oposto: uma hierarquia e o enriquecimento de poderosos por meio daquilo que é o teste mais claro do limite da igualdade: o sistema eleitoral que o elegeu".

E diz ainda: "Não nos parece uma tarefa fácil conciliar desejos (que geralmente são ilimitados e odeiam controles) e a questão fundamental de cumprir regras, leis e construir espaços públicos seguros e igualitários, válidos para todos, numa sociedade que também tem o seu lado claramente aristocrático e hierárquico. Um sistema que ama a democracia, mas também gosta de usar o "Você sabe com quem está falando?"

Que é justamente a prova conforme disse em "Carnavais, malandros e herois, um livro publicado em 1979".

Faço também uma menção ao Coronelismo, por achar que há ainda certos elementos culturais do tempo em que este predominava, que era uma época agrária do Brasil, na República Velha. Os "coronéis" eram principalmente grandes fazendeiros de considerável poder regional e que tinham conexão com o poder nacional. Diz o professor de História Rainer Souza: "Em uma sociedade em que o espaço rural era o grande palco das decisões políticas, o controle das polícias fazia do coronel uma autoridade quase inquestionável. Durante as eleições, os favores e ameaças tornavam-se instrumentos de retaliação da democracia no país.

Qualquer pessoa que se negasse a votar no candidato indicado pelo coronel era vítima de violência física ou perseguição pessoal. Essa medida garantia que os mesmos grupos políticos se consolidassem no poder. Com isso, os processos eleitorais do início da era republicana eram sinônimos de corrupção e conflito. O controle do processo eleitoral por meio de tais práticas ficou conhecido como "voto de cabresto"..."Apesar do desaparecimento dos coronéis podemos constatar que algumas de suas práticas se fazem presentes na cultura política do nosso país. A troca de favores entre chefes de partido é um claro exemplo de como o poder econômico e político ainda impede a consolidação de princípios morais definidos nos processos eleitorais e na ação dos nossos representantes políticos".

Por fim cito uma frase presente nas eleições de 1840 para a Câmara nas chamadas "Eleições do Cacete", disputadas entre o Partido Conservador e o Liberal, durante o II Império no Brasil, quando os chefes políticos já se valiam de violência e fraudes diversas: "Para os amigos o pão (os agrados), para os inimigos o pau"(a violência). Há uma outra forma costumeira de se dizer a mesma coisa: "Aos amigos os favores  e aos inimigos os rigores da lei" e ainda uma frase com alguma semelhança de significado, atribuída a Magalhães Barata, um líder político paraense dos anos 30, 40 e 50 do século XX: "Lei é Potoca". Entendo que ele quis dizer que para os que tem poder a obediência às leis não seria levada a sério.

Isso revela a vontade de burlar as leis pelos poderosos e os interesses pessoais dos mesmos buscando se  colocar acima delas. Aspectos que ainda acontecem no Brasil de hoje e que provocam um atraso no desenvolvimento da nação.


Márcio José Matos Rodrigues - psicólogo e professor de História.


Imagem: Google



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O ataque japonês à Pearl Harbor





Em 7 de dezembro de 1941, o Japão atacava a base naval de Pearl  Harbor, no Havaí.  Com esse ataque, terminava a neutralidade dos Estados Unidos que entraram na II Guerra Mundial contra o Eixo.

No dia 01 de setembro de 1939 tinha começado a II Guerra Mundial com o ataque da Alemanha nazista à Polônia. A Alemanha já vinha, desde a segunda metade dos anos 30 mostrando uma política expansionista, com a anexação da Áustria e dos Sudetos, tendo encerrado a independência da Tchecolosváquia com uma invasão traiçoeira.

Em 1940 a guerra na Europa já havia se estendido, com as invasões alemães à Dinamarca, Noruega, Luxemburgo, Holanda, Bélgica e França e houve as batalhas entre as forças aéreas da Inglaterra e da Alemanha, a chamada "Batalha da Inglaterra", com o fracasso alemão em superar a Inglaterra no ar, o que impossibilitou a invasão. No mesmo ano a Itália fascista atacou os ingleses na África, mas foi sofrendo derrotas que significaram em pouco tempo o fim de sua presença na Etiópia e Somália, assim como poderia ter resultado na derrota total na Líbia, após a tentativa de derrotar o exército britânico no Egito. A eliminação das forças italianas só não aconteceu antes de 1943 devido à ajuda alemã com seu "Afrika Korps", no início de 1941.

Ainda na  Europa, no ano de 1941, além da invasão da Iugoslávia e da Grécia pelo Eixo, o que foi destaque mesmo foi o rompimento do tratado de não agressão entre Alemanha nazista e União Soviética stalinista, a partir da invasão alemã em junho de 1941.

O Japão nos anos 30 estava dominado por uma política nacionalista e militarista, o que o levou a uma expansão pela China. Em 1937 houve uma grande invasão do território chinês, numa guerra que continuou até o fim da II Guerra Mundial. Esse envolvimento japonês na China provocou um enorme uso de recursos, tanto em número de tropas, como de material bélico, com grandes perdas de soldados nipônicos.

O Japão já tinha feito aliança com a Alemanha e Itália em setembro de 1940, passando a fazer parte  do Eixo. E nesse ano, após intimidar a França colaboracionista de Vichy, mandou forças militares para a colônia francesa da Indochina. Tanto a invasão japonesa cada vez mais ativa da China e a presença militar na Indochina provocou a reação dos Estados Unidos, que tinha seus interesses imperialistas no Pacífico e passou a pressionar os japoneses a se retirarem da China e da Indochina, negando exportar para o Japão produtos essenciais como o petróleo, o que levou a cúpula do Exército e da Marinha japoneses a considerar um ataque altamente destrutivo à marinha dos Estados Unidos no Pacífico como uma forma de força esse país a buscar uma política conciliatória, desistindo assim de pressionar o Japão.

Diversos líderes militares japoneses sabiam da enorme superioridade industrial da potência americana e uma vitória rápida que causasse um dano terrível à frota do adversário seria a forma de eliminar a interferência dele.

O ataque à Pearl Harbor, apesar de ter causado muita destruição no porto, destruindo também grandes navios e muitos aviões, não destruiu totalmente os depósitos de combustível, nem causou destruição suficiente nos estaleiros de manutenção e muito menos atingiu os porta-aviões que estavam fora da base. Apesar de por alguns meses o Japão ter sido capaz de conquistas significativas em 1942 (Filipinas, domínio dos Estados Unidos e colônias europeias como o arquipélago indonésio que era colônia holandesa e a Malásia, colônia inglesa etc) a sua força aeronaval não teve capacidade de derrotar o poderio militar dos Estados Unidos. O grande golpe seria ainda em junho de 1942 com a perda de quatro porta-aviões japoneses em Midway, perda que para o Japão foi um desastre considerável.  Os combates continuariam terríveis nos anos seguintes da guerra, com batalhas sanguinárias como Saipan, Ywo Jima  e Okinawa.

Em agosto de 1945 a guerra terminaria de modo terrivelmente trágico para a nação oriental. Após bombardeios convencionais devastadores dos Estados Unidos contra cidades japonesas, pouco tempo antes, vieram então os dois ataques atômicos catastróficos em Hiroshima e Nagasaki. Também nessa época a URSS invadia o norte da China, atacando o exército japonês que lá estava. Era o fim de uma guerra mundial que levou à morte mais de cinquenta milhões de pessoas.

A seguir alguns trechos da obra "Inferno, O Mundo em Guerra 1939-1945" de Max Hastings:

"A perspectiva ocidental diante da guerra contra o Japão é dominada pelas campanhas do Pacífico e do Sudeste Asiático. Mas a China, e a recusa de Tóquio em abandonar suas ambições ali, foi fundamental para o fracasso dos japoneses. Entre 1937 e 1939, houve uma grande luta, pouco reconhecida no Ocidente, na qual as forças japonesas prevaleceram à custa de grandes perdas. Sua retirada do continente em 1940 ou 1941 provavelmente teria evitado a guerra com os Estados Unidos". E também: "Ainda que os exércitos chineses tenham sido ineficazes, o comprometimento do Japão impôs uma hemorragia maciça de recursos. A maldição do governo japonês foi o predomínio de soldados dedicados à suposta virtude de guerrear por guerrear. Embriagados pela crença em sua virilidade guerreira, eles não perceberam a dificuldade ou mesmo a impossibilidade, de vencer uma guerra contra os Estados Unidos, a maior potência industrial do mundo".

 Márcio José Matos Rodrigues-professor de História

Imagem: Google