sexta-feira, 30 de abril de 2021

O escritor espanhol Miguel de Cervantes

 






 

Tencionava que este fosse meu último artigo de abril, mas eis que comecei em 30 de abril e terminei no dia primeiro de maio. Assim é o meu primeiro artigo de maio. É sobre o famoso escritor Miguel de Cervantes, um talentoso escritor, autor de uma das obras mais lidas no mundo: Dom Quixote. Ele morreu há 405 anos, em um mês de abril de 1616. O nome todo dele era Miguel de Cervantes Saavedra. Ele foi dramaturgo, romancista e poeta castelhano. A sua obra Dom Quixote é um clássico da literatura ocidental, considerada por vários especialistas como o primeiro romance moderno e um os melhores romances já escritos. O conjunto de obras de Cervantes é dos mais importantes na literatura mundial e de grande influência sobre a língua castelhana.

 

Cervantes nasceu em 1547, possivelmente em Alcalá de Henares. Seu pai era cirurgião. Não se tem certeza sobre o dia de seu nascimento. Pode ter sido em 29 de setembro (data da festa em homenagem a São Miguel Arcanjo). Mas sabe-se que foi batizado em 9 de outubro de 1547.

 

Em 1569 houve um atrito com um jovem chamado Antonio Sigura, que foi ferido por Cervantes e esse foge então para a Itália. Na época Miguel já tinha publicado quatro poesias de qualidade. Participa da batalha de Lepanto em 1571 e é ferido na mão e no peito. Sua mão esquerda é inutilizada por causa do ferimento e passou a ser chamado de o manco de Lepanto.

 

Quando fazia uma viagem de Nápoles para Castela, em 1575, piratas argelinos, com ligação com o Império Otomano, o capturam. Somente em 1580 seu resgate é pago e ele é libertado. Depois disso, ficou dois anos em Lisboa entre 181 e 1583. Procurou ser bem visto pelo rei espanhol Filipe no momento que Portugal estava há pouco tempo unido à Espanha na União Ibérica. Ficou encantado por Lisboa e pelas mulheres de lá, vindo a escrever “Para festas Milão, para amores Lusitânia”. Elogiou os habitantes da capital portuguesa descrevendo-os como agradáveis, corteses, liberais e apaixonados, ainda que discretos.

 

Ao voltar para a Espanha, casou-se em 1584 com Catalina de Salazar. Morou então nesse tempo em Esquivias, que fazia parte de La Mancha, local de nascimento de Catalina e o escritor passa a se inclinar para o teatro. Em 1585 é publicado A Galatea, o primeiro livro de ficção de Cervantes, em estilo de novela pastoral. Esse livro ajuda a torná-lo conhecido em certos círculos da elite intelectual. Em 1587 foi nomeado comissário real para recolher azeite e trigo para a Armada espanhola, chamada de Armada Invencível.

 

Foi preso em 1597, após a quebra de um banco e ele é obrigado a pagar uma dívida enorme. Cria então Dom Quixote de La Mancha. Não se tem certeza se começou a escrever o livro na prisão ou se teve apenas a idéia de começar a escrever quando esteve preso. Em 1605 a primeira parte de Dom Quixote é publicada. A segunda só vai surgir em 1615: O engenhoso cavaleiro dom Quixote de La Mancha.

 

Cervantes no período entre a primeira e segunda partes de Dom Quixote publica as Novelas exemplares (doze narrações breves). Em 1615 outra obra foi publicada: Oito comédias e oito entremezes novos nunca antes representados. O drama atualmente mais popular do autor só foi publicado no século XVIII: O cerco de  Numancia.

 

Em 22 de abril de 1616, Cervantes faleceu, provavelmente de cirrose. Sua obra  Os trabalhos de Persiles e Sigismunda é publicada um ano após a morte do escritor. Seu enterro foi no dia 23 de abril e nesse dia é comemorado o Dia do Livro na Espanha.

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Segundo a professora Daniela Diana:

“(...) As dificuldades financeiras eram uma marca na vida de Miguel de Cervantes. Seu pai, por ser surdo desde o nascimento, atuava de maneira precária, o que forçou a família a mudar diversas vezes de endereço em busca de melhores perspectivas profissionais.

Segundo pesquisadores, as privações econômicas da infância não limitaram a formação intelectual de Miguel de Cervantes, considerado um leitor ávido ainda criança.

Não há consenso sobre a educação do autor, que não teria sido formal, mas estaria a cargo de um parente. Acredita-se, ainda, que Cervantes tenha recebido educação de padres jesuítas.

As primeiras publicações de Miguel de Cervantes são lançadas em 1569, quando o autor contribui com poesias para o memorial em homenagem a Elizabeth de Valois, casada com o rei Felipe II (...)” . E ainda diz a autora:

"O romance Dom Quixote de La Mancha, publicado pela primeira como O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, é um clássico da literatura.

Trata-se de uma sátira às novelas de cavalaria. A obra relata a história de um homem já idoso que se apaixona de tal maneira por histórias antigas e bravos cavaleiros que busca reviver as aventuras dessas fantasias.

Perdido em seu próprio mundo, Dom Quixote convence o camponês Sancho Pança a lhe servir como escudeiro.

Envolto no realismo fantasioso, luta contra um moinho de vento, que confunde com um gigante. A novela termina quando o personagem principal recobra os sentidos.

Obras

 

Romances: A Galatea (1585); O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha (1605); Novelas Exemplares (1613);O Amante LiberalA CiganinhaRinconete e CortadilloA Espanhola InglesaO Juiz dos DivórciosA Força do SangueO Ciumento estremenhoA Criada IlustreAs Duas DonzelasA Senhora CornéliaO Licenciado Vidraça;O Casamento Enganoso;O Engenhoso Cavalheiro Dom Quixote de La Mancha – segunda parte (1615)Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda (1617).

 

Teatro

 

Tragédia de Numancia (1585); A Conquista de JerusalémA Cida em Argélia;O Galardo Espanhol;O Grande SultãoA Casa da Inveja e a Floresta de ArdeniaO Labirinto do Amor; A Divertida; Pedro de UrdemalasO Rufião FelizDiálogo dos Cães.

 

Poesia

 

Índice de todos os Primeiros Versos de Poesia;Índice de Primeiras linhas de Poemas Soltos;O túmulo do rei Filipe II em SevilhaNa entrada do Duke Medina em Cadiz.”

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Segundo a autora Dilva Frazão:

 

“(...) A obra “Dom Quixote” teve um sucesso tão grande que, em 1614, surge uma falsa segunda parte de Dom Quixote assinada por Avellaneda. Em 1615 Cervantes publica a segunda parte de Dom Quixote. A obra foi difundida em toda parte, até se tornar o mais lido romance em todo o mundo, por crianças e adultos.

Ao escrever a obra, Cervantes pretendia ridicularizar os livros de cavalaria que gozavam de imensa popularidade na época. A obra impressiona por sua feição realista. A ação principal do romance gira em torno das três incursões feitas pelo protagonista por terras da Mancha, de Aragão e de Catalunha.”

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Frases e poemas de Miguel de Cervantes:

 

"Todo homem é feito à vontade dos céus, e às vezes pior que a encomenda."


"Contento-me com pouco, mas desejo muito.”

 

“O pesar e o prazer andam tão emparelhados que tanto se desnorteia o triste que desespera quanto o alegre que confia.”

 

“Quem perde seus bens perde muito; quem perde um amigo perde mais; mas quem perde a coragem perde tudo.”

 

“A humildade é a base e o fundamento de todas as virtudes e sem ela não há nenhuma que o seja.”

 

“A pena é a língua da alma.”

 

“O sonho é o alívio das misérias dos que as têm acordados.”

 

 “Andar por terras distantes e conversar com diversas pessoas torna os homens ponderados.”

 

“A ingratidão é filha da soberba.”

 

“As desgraças buscam o desgraçado mesmo que ele se esconda nos cantos mais remotos da terra.”

 

“A inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas.”

 

“A formosura da alma campeia e denuncia-se na inteligência, na honestidade, no reto procedimento, na liberalidade e na boa educação.”

 

 “A perseverança é a mãe da boa sorte.”

 

“O poeta pode contar ou cantar as coisas, não como foram mas como deviam ser; e o historiador há-de escrevê-las, não como deviam ser e sim como foram, sem acrescentar ou tirar nada à verdade.”

 

“A história é émula do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro.”



“Santa amizade, que habitar imitas
neste baixo, fingido, e térreo assento,
mas q tens por morada o firmamento
coas essências angélicas benditas.

De lá, por dó das térreas desditas
sonhos nos dás de alegre fingimento,
imitações do céu por um momento,
fugaz consolo ás regiões proscritas.

Volta, volta dos céus, pura amizade,
ou proíbe que a amável aparência
te usurpe a desleal perversidade.

Confundida coa nobre e infame essência,
breve reverte o mundo á prisca idade;
volve o caos, é morta a Providência.”

 

 “DESOCUPADO LEITOR: Não preciso de prestar aqui um juramento para que creias que com toda a minha vontade quisera que este livro, como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o mais galhardo, e discreto que se pudesse imaginar: porém não esteve na minha mão contravir à ordem da natureza, na qual cada coisa gera outra que lhe seja semelhante; que podia portanto o meu engenho, estéril e mal cultivado, produzir neste mundo, senão a história de um filho magro, seco e enrugado, caprichoso e cheio de pensamentos vários, e nunca imaginados de outra alguma pessoa? Bem como quem foi gerado em um cárcere onde toda a incomodidade tem seu assento, e onde todo o triste ruído faz a sua habitação! O descanso, o lugar aprazível, a amenidade dos campos, a serenidade dos céus, o murmurar das fontes, e a tranqüilidade do espírito entram sempre em grande parte, quando as musas estéreis se mostram fecundas, e oferecem ao mundo partos, que o enchem de admiração e de contentamento.”

“Quem deixará, do Verde Prado Umbroso

Quem deixará, do verde prado umbroso,
as frescas ervas e as lustrais nascentes?
Quem, de seguir com passos diligentes
a solta lebre, o javali cerdoso?

Quem, com o canto amigo e sonoroso,
não prenderá as aves inocentes?
Quem, nas horas da sesta, horas ardentes,
não buscará nas selvas o repouso,

por seguir os incêndios, os temores,
os zelos, iras, raivas, mortes, teias
do falso amor que tanto aflige o mundo?

Do campo são e hão sido meus amores,
rosas são e jasmins minhas cadeias,
livre nasci, e em livre ser me fundo”

 

“A Ciganinha

   

Quando Preciosa a pandeireta toca,
e fere o doce som os ares vãos,
pérolas são que espalha com suas mãos,
flores são que arremessa de sua boca.

 

A alma fica suspensa, a mente louca
aos atos sobrehumanos sem ação,
que por limpos, honestos e por sãos
sua fama lá no céu mais alto toca.

Pendentes do menor de seus cabelos
mil almas leva, e ajoelhado tem
Amor, que uma e outra flecha aos pés lhe deita:

 

cega e ilumina com seus raios belos,
seu trono Amor por eles se mantém,
e mais grandezas de seu ser suspeita”

 

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História. 

 


segunda-feira, 26 de abril de 2021

A cantora norte-americana Billie Holiday

 










Em 7 de abril de 1915 nascia a cantora e compositora afro-americana Eleanora Fagan Gough, mais tarde conhecida como Billie Holiday e também como Lady Day, na Filadélfia, Estados Unidos, considerada por especialistas como uma das melhores cantoras de jazz da História. Seus pais eram muito novos quando ela nasceu. Sua mãe era Saddy Fagan e seu pai Holiday Gough, guitarrista e banjoista. Ele seguiu com uma banda de jazz e abandonou Saddy e a filha que ainda era bebê.

Eleanora (Billie) teve uma infância difícil, sujeita a humilhações e abusos, sem irmãos ou amigos, ficando sob o cuidado de familiares porque sua mãe precisava trabalhar. Aos dez anos sofreu abuso por um vizinho, sendo depois internada numa instituição para meninas que tinham passado por abusos, mas lá foi vítima de mais tipos de violências, fugindo aos 12 anos, indo morar na rua, pedindo esmolas. Tinha vontade de reencontrar sua mãe e temia encontrar familiares que a trataram mal. Conseguiu um trabalho, lavando o chão em um prostíbulo. Após ficar lá por dois anos, aos 14 anos de idade, o proprietário do lugar a estuprou e ela fugiu de volta às ruas. Conseguiu rever sua mãe que se sentiu culpada pelo que lhe aconteceu. As duas foram morar em Nova York, onde passaram graves dificuldades financeiras. Eleonora, adolescente e desempregada, com sua mãe doente que havia se tornado prostituta, também recorreu à prostituição, na qual permaneceu até os 18 anos. Essa vida a levou à ter crises de depressão, o que a levou ao álcool e às drogas, assim como tentativas de suicídio.

Em 1930, já se chamando Billie, o nome que usava quando trabalhava à noite, tentou a vida como dançarina. Não foi bem sucedida, porém o pianista com pena dela lhe deu uma chance para cantar. Ela cantou e foi aplaudida pelo público presente no local. Passou então a cantar lá aos fins de semana. Mas na época não deixou a prostituição. Ficando grávida na adolescência, foi pressionada pela mãe a fazer um aborto em condições perigosas para sua vida.

Billie, sem ter tido uma formação musical, procurava se aperfeiçoar por meio de melodias que ouviu de Bessie Smith e Louis Armstrong. Depois de 3 anos cantando em bares do Harlem, o crítico de música John Hammond gostou da voz dela, os dois fizeram amizade e tiveram um breve namoro. Ele a levou a um estúdio onde ela gravou, com a big band de Benny Goodman, seu primeiro disco em 1933, que foi um grande sucesso. Ela  pôde comprar um apartamento e finalizou sua vida na prostituição e de cantora em pequenos bares. Daí em diante começou a cantar em casas noturnas de nível mais requintado, em Nova York. Pôde cantar então com as big bands de Artie Shaw e Count Basie. Foi uma das primeiras mulheres negras a cantar em uma banda formada por homens brancos naquela época de segregação racial. Ficou ainda mais famosa cantando com as orquestras de Duke Ellington, Teddy Wilson, Count Basie e Artie Shaw, como também ao lado de Louis Armstrong.

 

Billie tinha uma voz diferenciada, flexível e levemente rouca, demonstrando sensualidade e emoção. Diziam que ela nunca cantava uma música da mesma maneira duas vezes. Gravou cerca de 50 canções de Laster Young em quatro anos, com swing e cumplicidade. Ele lhe chamava de "Lady Day".

Nos anos de 1940, Billie Holiday tinha de conviver com uma depressão que a consumia desde a infância e envolveu-se cada vez mais com álcool, cigarros, cocaína, maconha e heroína. Seus relacionamentos amorosos fracassavam e incluíam traições e agressões. Ela tentou se suicidar algumas vezes. Pensou em abandonar a profissão de cantora por não querer mais ser famosa. A sua dor psicológica influenciava na sua voz grave e emotiva, que fazia sucesso em shows não só nos Estados Unidos como em outros países. O seu auge como cantora foi entre os anos de 1933 e 1944. Na segunda metade dos anos 40 ela já estava dominada pelas drogas e a sua voz começou a fica cada vez mais prejudicada. Em 1947 foi presa por estar com uma certa quantidade proibida de heroína, sendo acusada de tráfico de drogas, ficando presa por poucos dias, depois de ter pago a fiança. Escreveu em parceria com o jornalista William Dufty sua biografia com o título: Lady sings the blues.

Os homens com quem se casou tinham ligação com a música. Casou-se em 1941 com Jimmy Monroe (casamento que terminou em 1947). De 1951 a 1957 esteve casada com Joe Guy e de 1957 a 1959 com Louis McKay. Além da música, um outro fator em comum entre eles era de que usavam drogas. Em seus casamentos Billie passou por humilhações, traições e agressões, como também houve questões relacionadas a ciúmes e dinheiro. Por isso ela terminou esses relacionamentos. Ela quis ser mãe, porém os tratamentos que fez para engravidar não deram certo, o que lhe deixou frustrada, contribuindo para os momentos depressivos que ela passava. Também o que a angustiava eram as trapaças de sócios e empresários, assim como a perda de dinheiro, em parte relacionada ao seu vício com as drogas. Houve rumores de que ela teria tido envolvimentos com os atores de cinema Clark Gable e Orson Welles e que foi amiga íntima da atriz Tallulah Bankhead.

Em 8 de dezembro de 1957 Billie teve seu último grande momento como intérprete com a gravação do programa de TV The sound of jazz, da rede CBS, em Nova York. Quando ela começa a falar, sua voz parece muito fraca e pouco se dá para ouvir. Mas ao cantar Fine and mellow, um blues de sua autoria, sua voz  toma uma proporção grandiosa.

Em 1959 Billie soube que tinha cirrose hepática por uso excessivo de álcool. Apesar de ter tentado parar de beber, depois voltou ao vício de modo intenso. Em maio piorou seu estado de saúde, com agravamento da cirrose, estando ela muito deprimida. Em 31 de maio foi internada no Hospital Metropolitano de Nova York. Além da cirrose estava com insuficiência cardíaca e edema pulmonar. Uma enfermeira teria contado à polícia que Billie estava consumindo drogas ilícitas no hospital. Foi encontrada grande quantidade de drogas escondidas em uma peça de roupa dela e ela foi autuada por tráfico. Os policiais ficaram de guarda na porta do quarto onde ela se encontrava e iriam leva-la presa quando recebesse alta, porém isso não aconteceu porque morreu de edema pulmonar, cirrose hepática e insuficiência cardíaca em 17 de julho de 1959. Tinha quando faleceu 70 centavos na sua conta bancária e com ela havia 750 dólares escondidos em uma meia de seda que ela usava, pagos por um jornal por ter publicado um artigo a respeito dela.

 

Segundo o jornalista Gilbert Millstein (ao descrever a morte dela na contracapa do álbum O Essencial de Billie Holiday, relançado em 1961), que trabalhava no jornal The New York Times e que narrou os shows de Billie no Carnegie Hall em 1956:

 

"Billie Holiday morreu no Hospital Metropolitano, em Nova York, na sexta-feira, 17 de julho de 1959, na cama em que havia sido presa pouco mais de um mês antes, já mortalmente doente, por posse ilegal de narcóticos; no quarto de onde um policial havia se retirado - por ordem judicial - apenas algumas horas antes de sua morte, que, como sua vida, foi desordenada e lamentável. Havia sido belíssima, mas desgastou-se fisicamente a uma reduzida e grotesca caricatura de si mesma. Os vermes de todos os tipos de excesso - drogas eram apenas um - tinham-na devorado... A probabilidade existe de que - entre os últimos pensamentos desta mulher cínica, sentimental, profana, generosa e muito talentosa de 44 anos - estava a crença de que seria acusada na manhã seguinte. Ela teria sido, eventualmente, embora talvez não tão rapidamente. Em qualquer caso, ela retirou-se, finalmente, da jurisdição de qualquer tribunal terreno."

Músicas que ela compôs:

·         "Billie's Blues" 

·         "Don't Explain"

·         "Everything Happens For The Best" 

·         "Fine and Mellow" 

·         "God Bless the Child" 

·         "Lady Sings the Blues" 

·         "Long Gone Blues" 

·         "Now or Never"

·         "Our Love Is Different" 

·         "Stormy Blues" 

Filmes sobre Billie Holiday:

-O Ocaso de uma estrela (1972), com Diana Ross como Billie Holiday. Título original: Lady Sings The Blues.

Os Estados Unidos vs. Billie Holiday (2021), com Andra Day como Billie Holliday. Título original: The United States vs. Billie Holiday

 

Segundo a autora Dilva Frazão sobre Billie Holiday:

“Pouco a pouco, foi ganhando prestígio no mundo do Jazz. Cantou com várias bandas e gravou uma série de músicas com o saxofonista Lester Young.

Mudou a batida e a melodia das canções que interpretava. Ganhou fama se apresentando com as orquestras de Duke Elington, Teddy Wilson, Count Basie e Artie Shaw e também ao lado de Louis Armstrong, já com o nome artístico de Billie Holiday.

Em 1939, com sua interpretação de “Strange Fruit", uma canção de protesto contra o racismo nos Estados Unidos, viu sua carreira se consolidar. Strange Fruit e God Bless The Child  se tornaram as canções mais simbólicas de sua carreira.

Entre outras canções destacam-se: Trav’ lin Light, Gloomy Sunday, Lover Man, Summertime, Crazy Calls Me e Body and Soul.”

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“Não me parece cantoria. É mais um sentimento, como se eu fosse tocar um instrumento de sopro. Eu tento improvisar como Les Young, como Louis Armstrong ou qualquer outra pessoa que eu admiro. Eu odeio simplesmente cantar. Eu preciso transformar uma melodia a fim de reproduzi-la em sua própria maneira. Isso é tudo o que eu sei”. Billie Holiday

“Existem dois tipos de blues. O blues alegre e o blues triste. Jamais canto o blues do mesmo modo duas vezes. Nem repito o ritmo. Na primeira noite, é um pouco mais lento. Na noite seguinte, um pouco mais rápido. Depende de como me sinto.” Billie Holiday

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Algumas canções:

 


 Strange Fruit ( Um sucesso de Billie Holiday)

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

 

Fruta Estranha (tradução)

Árvores do sul produzem uma fruta estranha,
Sangue nas folhas e sangue nas raízes,
Corpos negros balançando na brisa do sul,
Frutas estranhas penduradas nos álamos.

Cena pastoril do valente sul,
Os olhos inchados e a boca torcida,
Perfume de magnólias, doce e fresca,
Então o repentino cheiro de carne queimando.

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem,
Para a chuva recolher, para o vento sugar,
Para o sol apodrecer, para as árvores derrubarem,
Aqui está a estranha e amarga colheita.

 

Composição: Lewis Allan. 

Escutar em: https://www.youtube.com/watch?v=Xe05m6aojro

 

 

 

*Strange Fruit é uma canção contra o linchamento de pessoas negras por supremacistas broncos. Uma canção que foi composta baseada no poema Bitter Fruit, de Abel Meeropol.

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Don't Explain

Hush now, don't explain
Just say you'll remain
I'm glad your back, don't explain

Quiet, don't explain
What is there to gain
Skip that lipstick
Don't explain

You know that I love you
And what love endures
All my thoughts of you
For I'm so completely yours

Cry to hear folks chatter
And I know you cheat
Right or wrong, don't matter
When you're with me, sweet

Hush now, don't explain
You're my joy and pain
My life's yours love
Don't explain

 

Não Se Explique (tradução)

Fique quieto agora, não se explique
Apena diga que você ficará
Fico feliz que está de volta, não se explique

Quieto, não se explique
O que há para ganhar
Limpe esse batom
Não se explique

Você sabe que eu te amo
E o que amor suporta
Todos os meus pensamentos sobre você
Porque sou completamente sua

Choro de ouvir sobre suas confissões
E eu sei que você me trai
Certo ou errado, não importa
Quando você está comigo, querido

Fique quieto agora, não se explique
Você é minha alegria e minha dor
Minha vida é o seu amor
Não se explique

 

Composição: Arthur Herzog, Jr. / Billie Holiday. 

 

Para escutar: https://www.ouvirmusica.com.br/billie-holiday/175890

Lady Sings The Blues

Lady sings the blues
She's got them bad
She feels so sad
Wants the world to know
Just what the blues is all about

Lady sings the blues
She tells her side
nothing to hide
Now the world will now
Just what the blues is all about
The blues ain't nothing but a pain in your heart
when you get a bad start
When you and your man have to part
I ain't gonna just sit around and cry
And now I won't die
Because I love him

Lady sings the blues
she's got 'em bad
She feels so sad
The world will know
She's never gonna sing them no more

No more

 

A Dama Canta o Blues (tradução)

A Dama Canta o Blues
Ela está mal
Ela se sente tão triste
Querendo que o mundo saiba
Apenas tudo o que é o blues

A Dama Canta o Blues
Ela diz a seu lado
que não há nada a esconder
Agora o mundo saberá
Apenas tudo o que é o blues
O blues não é nada além de uma dor em seu coração
quando você começa um mau começo
Quando você e seu homem têm que se separar
Eu não vou apenas sentar e chorar
E agora eu não vou morrer
Porque eu o amo

A Dama Canta o Blues
Ela está mal
Ela se sente tão triste
O mundo saberá
Ela nunca vai cantá-lo de novo

Não mais

 

Para escutar: https://www.letras.mus.br/billie-holiday/177292/traducao.html

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História

Figura:https://www.google.com/search?q=images+billie+holiday&sxsrf=ALeKk01TH6HCsoAmSSD9KmqKbwDb-bBuTA:1619490955527&tbm=isch&source=iu&ictx=                    

sábado, 24 de abril de 2021

Poesia: Insônia

 



À noite,

E de madrugada,

Havia a insônia!

Para que ela passasse,

Chamei-a de Sônia,

Disse a ela que já foi minha amada,

Mas que podia ir

Fiz um aceno de despedida,

Dizendo-lhe:

Vai Sônia querida,

Já tomaste parte de minha vida,

Quantas horas passamos

Vendo as noites estreladas?

Quantas vezes conversamos,

Nós até nos beijamos,

Em meio às sombras.

Lembras?

Teu beijo é gelado!

Ela me dizia:

“Fica comigo meu amado!”

Eu pedi então ajuda

Aos carneirinhos;

Eles pulavam

E eu contava.

Tu Sônia sorrias,

Rias de minhas infrutíferas tentativas!

Tu és muito possessiva!

Porém quis me libertar de tuas cadeias!

Pedi a benção da lua cheia

E a proteção do deus do sono.

Agora eu sonho

Com sereias!

Márcio José Matos Rodrigues


Figura: https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk037GWgEKHV0A7qlUA6kt2PeRvVzLA:1619320739527&source=univ&tbm=isch&q=imagem+de+uma+noite+estrelada&fir=8cpKn0VNshVNDM%252CDKT


terça-feira, 20 de abril de 2021

A escritora brasileira Lygia Fagundes Telles

 





A escritora brasileira Lygia Fagundes Telles, conhecida como “a dama da literatura brasileira” e considerada pelos críticos e acadêmicos como "a maior escritora brasileira viva", uma importantíssima escritora brasileira do século XX e da história da literatura brasileira nasceu em São Paulo, em 19 de abril de 1923. Seu nome de batismo era Lygia de Azevedo Fagundes. É advogada, romancista, contista e está ligada ao pós-modernismo, sendo que obras suas tem a ver com temas como o amor, a morte, o medo, a loucura e a fantasia. 

Era a quarta filha de Durval de Azevedo Fagundes, procurador, promotor público (que também foi advogado distrital, comissário de polícia e juiz) e de Maria do Rosário Silva Jardim de Moura, uma pianista talentosa que, por causa do preconceito em relação às mulheres, viu-se reduzida aos deveres domésticos considerados femininos.

Lygia passou parte de sua infância em Sertãozinho e outras cidades pequenas cidades paulistas (Apiaí, Assis e Itatinga), devido a transferências de seu pai. Suas babás conheciam lendas e influenciaram a menina com histórias de personagens do folclore popular. Aprendeu a ler em casa. Foi matriculada no Grupo do Arouche e lá ficou estudando por quatro anos. Foi com sua família aos oito anos para a cidade do Rio de Janeiro, ficando por cinco anos, quando então voltou para São Paulo, matriculando-se no Instituto de Educação Caetano de Campos, iniciando seu gosto pela literatura. Devido à separação de seus pais, ficou vivendo com sua mãe que passou a enfrentar dificuldades financeiras. Foi incentivada a escrever por escritores como Carlos Drumond de Andrade, Edgard Cavalheiro e Érico Veríssimo.  Formou-se no Instituto em 1937.

Em 1938 foi publicado seu livro de contos Porão e Sobrado, financiado por seu pai e com boa aceitação da crítica. Em 1939, ela cursou o pré-jurídico e a Escola Superior de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP).

Em 1944 de novo teve sucesso com novo livro: Praia Viva. Em 1946 ela concluiu o curso de Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde era uma de seis mulheres em uma classe que tinha mais de cem homens. Conheceu lá a poeta Hilda Hilst, que se tornou uma grande amiga e sofreu com preconceito por ser uma mulher fazendo um curso superior, o que não era comum naqueles tempos. Nessa Faculdade conheceu Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Sales Gomes e outros intelectuais da época. Veio a integrar a academia de letras da faculdade, colaborando com os jornais Arcádia e A Balança. Em 1947 casou-se com Gofredo Teles Júnior (que era filho de seu professor de direito internacional privado). Dessa união surgiu o filho Gofredo da Silva Telles Neto.  Tornou-se colaboradora do jornal carioca A Manhã.

Em 1954 foi publicado o primeiro romance de Lygia, Ciranda de Pedra, com boa aceitação de público e crítica. Separou-se do primeiro marido em 1960. Em 1962, passou a viver com o crítico de cinema  Paulo Emílio Salles Gomes. Foi criticada pela sociedade conservadora da época, já que não era casada com ele, que morreu em 1977. O casal escreveu o roteiro para cinema Capitu (1968), que recebeu o Prêmio Candango de Melhor Roteiro Cinematográfico. Seus livros de contos Histórias Escolhidas e O Jardim Selvagem foram publicados em 1964 e 1965.

Recebeu o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, pelo terceiro livro de contos dela, O Cacto Vermelho. Além de ser escritora, exerceu a profissão de advogada e foi Procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo. Também foi presidente da Cinemateca Brasileira, instituição fundada pelo segundo marido.

Nos anos de 1970 Lygia teve grande sucesso como escritora, sendo reconhecida internacionalmente, tendo sido publicadas algumas de suas obras mais elogiadas: Antes do Baile Verde (1970), com um dos contos (o que dá nome ao livro) sendo premiado no Grande Prêmio no Concurso Internacional de Escritoras, na França; As Meninas (1973), livro ganhador do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, também ganhando o Prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras e um prêmio da Academia Paulista dos Críticos de Arte. Outra obra premiada nessa época foi Seminário dos Ratos, de 1977, obra ganhadora do Pen Club do Brasil. Em 1977, Lygia esteve com os intelectuais que foram à Brasília entregar o "Manifesto dos Intelectuais”, protestando contra o regime militar e a censura.

Em 1982 Lygia entrou para a Academia Paulista de Letras e em 1985 para a Academia Barsileira de Letras, vindo a ocupar a cadeira de número dezesseis em 1985, com posse em 12 de maio de 1987. Também nesse ano passou a ser um dos membros da Academia das Ciências de Lisboa.

Outras obras em que Lygia teve sucesso como escritora foram Verão no Aquário, de 1964; Mistérios, de 1981; As Horas Nuas, de 1989; Invenção e Memória, publicada em 2000.  O livro mais recente de Lygia foi publicado em 2012: Um Coração Ardente. Parte de seus livros foi traduzida para outras línguas (espanhol, alemão, francês, italiano, polonês, sueco, tcheco). Livros seus tiveram muitas edições em Portugal. Ela colaborou com a revista luso-brasileira Atlântico. Tornou-se Comendadora da Ordem do Infante Dom Henrique em Portugal, em 26 de novembro de 1987. A Universidade de Brasília lhe deu o título de Doutora Honoris Causa.  

Foi vencedora da 17ª edição do Prêmio Camões, em 2005, prêmio concedido a escritores de países com língua portuguesa como língua oficial.  Foi em 2016 indicada ao prêmio Nobel de Literatura. Para o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Antônio Cândido a escritora: “sempre teve o alto mérito de obter, no romance e no conto, a limpidez adequada a uma visão que penetra e revela, sem recurso a qualquer truque ou traço carregado, na linguagem ou na caracterização". Para o professor e ensaísta Silviano Santiago: "uma definição curta e sucinta dos contos de Lygia dirá que a característica mais saliente deles é a dificuldade que têm os seres humanos de estabelecer laços”. 

A escritora abordou temas ligados à vida nas grandes cidades, problemas sociais e outros como adultério, drogas e o amor. Tanta Lygia como Clarice Lispector, de quem era amiga, romperam com limites morais que eram impostos às mulheres. Ambas exploraram o universo feminino. Lygia teve influências do escritor norte-americano Edgar Alan Poe em contos que ela escreveu. Ela afirmou que teve influências também de Machado de Assis por causa de: "ambiguidade, o texto enxuto, a análise social e a ironia fina”.

Nas obras da autora há uma prosa intimista, focando-se na dimensão psicológica dos personagens, com destaque a um realismo fantástico, mas havendo o lado político e social. Ela disse a respeito: “Sou, como escritora, uma testemunha desse nosso tempo e dessa nossa sociedade”.

A autora é uma defensora da liberdade e crítica de determinados aspectos da política brasileira. Diz que faz um tipo de política por meio de suas obras literárias, dando sua mensagem, denunciando o que considera estar errado na sociedade, incentivando a reflexão dos leitores. Segundo ela:

“Faço política ao poder político. (...) Denuncio de forma romanceada as torturas, os vicios, as feridas, os mandos e desmandos de nossa sociedade.”

Afirmou não apoiar qualquer partido político, tendo sua posição crítica em relação aos mesmos, considerando que há imposições neles que ela não aceita. Mas ela disse que respeita os filiados aos partidos. Ela critica os profissionais políticos do Brasil, pois para ela a política ficou muito ligada a um modo de se ganhar, de se mandar e desmandar, de se conquistar.  Ela diz ter uma posição socialista e foi uma intelectual opositora do regime militar.

Lygia teve como um de seus amigos o poeta Carlos Drummond de Andrade, elogiando a postura política dele em seus escritos e reconhecendo todo o apoio que ele lhe deu no início de sua vida como escritora: "Ele percebeu que eu era uma jovem sozinha, sem dinheiro, com ambições, escrevendo, e ele então foi afetuoso, foi ouvinte. Ele fez a terapia que eu jamais teria dinheiro para pagar. Ele me aceitou, me estendeu a mão”. Quando recebeu em 2005 o prêmio Camões, na cidade do Porto, em Portugal, país pelo qual tem afinidades, estavam presentes os presidentes do Brasil e de Portugal da época. Em 2015 ela venceu o Prêmio Cultura da Fundação Conrado Wessel.

Certa vez ela comentou sobre sua realidade como escritora brasileira:

"Como eu digo no texto sobre o meu processo criativo, sou uma escritora do Terceiro Mundo, uma escritora engajada nos horrores das diferenças sociais, uma escritora num país de miseráveis e analfabetos. [...] Aqui, os que sabem ler, não leem. Os que compram livros também não leem. [...] Fala-se muito em prêmios. Ora, os prêmios... Escrevemos numa língua desconhecida. Desprestigiada. Não somos lidos nem na América Latina, quem nos conhece na Venezuela? No Chile? Na Colômbia? [..] Participei em Cáli de um encontro da nova narrativa sul-americana, fui para falar do meu trabalho. E acabei informando ao público de escritores sul-americanos que a nossa língua era o português. Português? Sim, português com estilo brasileiro”.

Foi lançado um livro sobre ela pela Editora da Universidade Federal de Alagoas, em 2 de setembro de 2016: "A construção de Lygia Fagundes Telles - Edição Crítica de Antes do baile verde", escrito pelo professor, ator e escritor alagoano Nilton Resende. Em novembro de 2017 a Tv Cultura realizou o filme Lygia, uma Escritora Brasileira.

 

 Comentário:  

 

“Lygia é uma ávida escritora e reúne um vasto conjunto de contos, crônicas e romances. Além disso, participou de várias antologias e coletâneas; e, ainda traduziu e adaptou diversos textos.

Muitos livros da escritora foram publicados em outros países: Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia, Estados Unidos, dentre outros.

Confira abaixo as obras mais relevantes de contos e romances da escritora:

Contos: Porão e sobrado (1938); Antes do Baile Verde (1970);Seminário dos Ratos (1977);Mistérios (1981);Invenção e Memória (2000).

 

Romances: Ciranda de Pedra (1954);Verão no Aquário (1964);As Meninas (1973); As horas nuas (1989).”

 

Daniela Diana-Professora licenciada em Letras

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Frases e pensamentos de Lygia Fagundes Teles:

“Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos, não tanto por virtude, mas por cálculo. Controlar essa loucura razoável: se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura. O jeito é se virar em casa mesmo, sem testemunhas estranhas. Sem despesas”.

 

“A beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio tom, nessa incerteza”.

 

“Quero ficar só. Gosto muito das pessoas, mas às vezes tenho essa necessidade voraz de me libertar de todos”.

 

“Quem me detesta tanto assim para me atacar até em sonho? Quis saber e nesse instante vi minha imagem refletida no espelho”.

 

“Não peça coerência ao mistério nem peça lógica ao absurdo”.

“Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas”.

“Se é difícil carregar a solidão, mais difícil ainda é carregar uma companhia”.

 “É difícil separar a ficção da invenção, a fantasia da memória. Não há uma linha separando o que você viu do que você sonhou. A imaginação ocupa o espaço da memória”.

“Mas hoje minha face lúcida acordou antes da outra e está me vigiando com seu olho gelado. “Vamos-diz ela-nada de convulsões, sei que você é da família dos possessos, mas não escreva como uma possessa, fale em voz baixa, sem exageros, calmamente”. <erior 

“Ouça, Virgínia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher as rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas.“

"Apenas duas"


O poeta dizia que era trezentos, trezentos e não sei quantos. Eu sou apenas duas: a verdadeira e a outra. Uma outra tão calculista que às vezes me aborreço até a náusea. Me deixa em paz! – peço e ela se põe a uma certa distância, me observando e sorrindo. Não nasceu comigo mas vai morrer comigo e nem na hora da morte permitirá que me descabele aos urros, não quero morrer, não quero! Até nessa hora sei que vai me olhar de maxilares apertados e olho inimigo no auge da inimizade: “Você vai morrer sim senhora e sem fazer papel miserável, está ouvindo?” Lanço mão do meu último argumento: tenho ainda que escrever um livro tão maravilhoso… E as pessoas que me amam vão sofrer tanto! E ela, implacável: “Ora, querida, as pessoas estão fazendo montes. E o livro não ia ser tão maravilhoso assim”. É bem capaz de exigir que eu morra como as santas.”

 

“Gato

Ele fixara em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.”

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História


Figura:

https://www.google.com/search?q=imagem+de+lygia+fagundes+telles&sxsrf=ALeKk02qLoeg71AjChUXYkM8zT4k-I2t5g:1618972202212&tbm=isch&source