quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Três canções para Pattie

 




Este artigo é sobre as três músicas que foram feitas para Pattie Boyd, que foi casada com George Harison (que integrou os Beatles) e Eric Clapton.

O nome correto de Pattie Boyd é Patrícia Anne Boyd, uma ex-modelo internacional que fez sucesso nas décadas de 60 e 70. Ela conheceu George Harison em 1964 quando foi participar do filme A Hard Day’s Night. Na ocasião George se interessou por ela, mas estava noiva de um fotógrafo. Quando ela terminou esse seu relacionamento, cancelando seu noivado, aceitou namorar com o beatle. Em janeiro de 1966 eles se casaram. Nesse ano George foi para a Índia com os Beatles para um encontro “espiritual” com um monge indiano e ele apresentou certas mudanças de comportamento que afetaram seu relacionamento com Pattie. Em 1969 George lançou com os Beatles a música de sua autoria Something. Pattie disse em um relato que ficou emocionada quando George cantou a música para ela na casa deles.

Segundo alguns comentaristas, quando a música foi feita o casal já estava com dificuldades de relacionamento e que na música George queria dizer que não desejava deixar Pattie. Something  foi uma das músicas mais gravadas dos Beatles. Teve 150 regravações. Astros da música como Frank Sinatra, Ray Charles, James Brown e  Elvis Presley criaram suas versões. Quando Frank Sinatra a gravou considerou que a música era “a maior canção de amor dos últimos cinquenta anos”. John Lennon disse que era a melhor música do álbum Abbey Road. É o único single dos Beatles que não foi de autoria de Paul McCartney ou John Lennon.

Embora haja a explicação bem conhecida de que a inspiração para a música foi o sentimento de George por Patty, existe uma outra versão de que a inspiração foi outra. Segundo o escritor Joshua Greene em seu livro Here Comes the Sun: The Spiritual and Musical Journeyof George Harrison, de 2006, George teria revelado para amigos que a cançao foi escrita para a deusa hindu Krishna. O que se tem certeza é que a canção de James Taylor "Something In The Way She Moves” serviu de inspiração inicial para George. Em 2001, após a morte de Harrison, Eric Clapton e Paul Paul McCartney cantaram Something no Concert for George.

Nos anos de 1970 o casal George e Pattie começou a ter dificuldades, com casos de infidelidade. George passou a ter casos com amigas de Pattie e até com a esposa de Ringo Starr, também dos Beatles. O casal acabou se divorciando em 1977.

A segunda música relacionada a Pattie Boyd foi Layla. Esse nome é fictício. Na verdade Eric Clapton fez a música com este nome para Pattie. Eric e George eram grandes amigos, ambos ótimos guitarristas, e Eric se apaixonou por Pattie, que era casada com George. O casamento de George e Pattie não ia bem na época.

Segundo Pattie Boyd, em sua autobiografia de 2007, Layla foi composta por Clapton em 1970 quando ele era parte da banda Derek and the Dominos. Segundo Pattie, ele mostrou a música para ela alguns meses antes de ser lançada, em dezembro do citado ano. Pattie afirmou, ao ouvir a música pela primeira vez: “Ele colocou no aparelho de som, aumentou o volume e me mostrou a música mais poderosa que já ouvi na vida. Ele reproduziu umas duas ou três vezes, enquanto me observava para ver minha reação. A primeira coisa que pensei foi ‘Meu Deus, todo mundo vai saber que é sobre mim”.Era uma declaração de amor de Eric para Pattie, que disse que ele passou a se referir a ela em bilhetes e cartas como Layla.

Apesar da declaração de Eric a Pattie com a música “Layla”, Pattie não se separou logo de George. Houve rumores de que Eric e Pattie tiveram um caso quando ela estava casada com George, mas não há comprovação disso. Ela continuou com George por mais alguns anos. A rejeição inicial por parte de Pattie teria deixado Eric muito deprimido e ele tentou se consolar nas drogas.

Na verdade, o nome “Layla” tem como inspiração o conto persa “Layla e Mainum”, de autoria de um poeta que viveu no século XII. Nesse conto uma princesa deixou um grande amor e acabou tendo um casamento arranjado. A historia dessa princesa seria uma espécie de “Romeu e Julieta” do Oriente. Tomando esse exemplo, na canção Layla seria como uma divindade que está em um nível alto que não se pode alcançar. No processo de criação da música Layla, o guitarrista Duane Allman participou no arranjo final. Também o baterista Jim Gordon participou na criação, acrescentando a seção de piano na segunda metade da canção.

Layla não teve logo sucesso, o que só conseguiu quando foi incluída nos anos de 1970 em coletâneas e shows de Eric Clapton. Chegou a ficar na 27ª posição no ranking das “500 Maiores Músicas De Todos Os Tempos” da revista Rolling Stone e a versão acústica no álbum de Clapton de 1992 chamado“Unplugged”, conquistou o Grammy de “Melhor Canção de Rock” em 1993.

Com o desgaste do casamento de Pattie e George, tendo este a traído várias vezes e se apegado às drogas (segundo comentários, ela também não foi fiel nessa época do casamento), o casal se separou em 1974 e se divorciou em 1977. Eric veio a se casar com Pattie em 1979, mas já estavam em um relacionamento amoroso antes disso. Ele e George continuaram amigos. O casamento de Pattie e Eric durou até 1989.

A terceira canção, “Wonderful Tonight” (composta no fim de 1976) surgiu do relacionamento de Eric e Pattie após ela ter se separado de George. Segundo Eric contou, ele estava sentado em uma cadeira esperando Pattie se aprontar para eles saírem (a versão de Clapton diz que iam para um jantar a dois e há uma outra versão que diz que iam para festa anual em homenagem a Buddy Holly, organizada por Paul e Linda McCartney) e pensou na letra da música que fez parte do disco Snowland (1977). Segundo um relato de Clapton, ele estava ansioso porque Pattie demorava a se aprontar e escreveu a letra da canção em cerca de dez minutos, estando ele sentindo uma mistura de raiva e frustração pela demora.


As três músicas e suas traduções em português


1-Something (George Harrison)

Something in the way she moves
Attracts me like no other lover
Something in the way she woos me

I don't want to leave her now
You know I believe and how

Somewhere in her smile, she knows
That I don't need no other lover
Something in her style that shows me

I don't want to leave her now
You know I believe and how

You're asking me will my love grow
I don't know, I don't know
You stick around now it may show
I don't know, I don't know

Something in the way she knows
And all I have to do is think of her
Something in the things she shows me

I don't want to leave her now
You know I believe and how

 

TraduçãoemPortuguês:

 

Algo

Algo no modo como ela anda
Atrai-me como nenhuma outra mulher
Algo no modo como ela me seduz

Eu não quero deixá-la agora
Você sabe o quanto eu acredito

Em seu sorriso, ela sabe
Que não preciso de nenhuma outra mulher
Algo em seu estilo que me mostra

Eu não quero deixá-la agora
Você sabe o quanto eu acredito

Você me pergunta (se) meu amor crescerá
Eu não sei, eu não sei
Preste atenção e você verá
Eu não sei, eu não sei

Algo no modo como ela entende
E tudo o que tenho a fazer é pensar nela
Algo no que ela me mostra

Eu não quero deixá-la agora
Você sabe o quanto eu acredito

 

 

2-Layla(Eric Clapton)

What'll you do when you get lonely
And nobody's waitin by your side
You've been runnin and hidin much too long
You know it's just your foolish pride

Layla, you got me on my knees
Layla, I'm beggindarlin, please
Layla, darlin, won't you ease my worried mind

 

Tried to give you consolation
When your old man had let you down
Like a fool, I fell in love with you
you turned my whole world upside down

 

Layla, you got me on my knees
Layla, I'm beggindarlin, please
Layla, darlin, won't you ease my worried mind

 

Let's make the best of the situation
Before I finally go insane
Please don't say we'll never find a way
Don't tell me all my love's in vain

 

Layla, you got me on my knees
Layla, I'm beggindarlin, please
Layla, darlin, won't you ease my worried mind

 

Tradução em Português:

 

Layla

O que você vai fazer quando estiver sozinha
E ninguém estiver esperando ao seu lado?
Você tem estado correndo e se escondendo por muito tempo
Você sabe que é apenas seu orgulho tolo

 

Layla, você me pegou de joelhos,
Layla, estou implorando, querida, por favor,
Layla, querida, conforte minha mente preocupada.

 

Tentei lhe dar consolo
Quando seu velho homem a decepcionou
Mas como um tolo, me apaixonei por você
Você virou meu mundo de cabeça pra baixo

 

Layla, você me pegou de joelhos,
Layla, estou implorando, querida, por favor,
Layla, querida, você irá confortar minha mente preocupada?

 

Faça o melhor dessa situação
Antes que eu finalmente enlouqueça
Por favor não diga que nunca encontraremos um jeito
Ou diga que meu amor é em vão

 

Layla, você me pegou de joelhos,
Layla, estou implorando, querida, por favor,
Layla, querida, você irá confortar minha mente preocupada?

 

 

3-Wonderful Tonight (Eric Clapton)

 

It's late in the evening
She's wondering what clothes to wear
She puts on her make up
And brushes her long blonde hair

And then she asks me, "Do I look alright?"
And I say, "Yes, you look wonderful tonight"

We go to a party
And everyone turns to see
This beautiful lady
That's walking around with me

And then she asks me, "Do you feel alright?"
And I say, "Yes, I feel wonderful tonight"

I feel wonderful
Because I see the love light in your eyes
And the wonder of it all
Is that you just don't realize how much I love you

It's time to go home now
And I've got an aching head
So I give her the car keys
She helps me to bed

And then I tell her, as I turn out the light
I say, "My darling, you are wonderful tonight"
Oh my darling, you are wonderful tonight

 


Tradução em Português


Maravilhosa esta noite


 É tarde da noite 

Ela está se perguntando que roupas usar 
Ela coloca sua maquiagem 
E escova seus longos cabelos loiros
E então ela me perguntou: "Eu pareço bem?" 
E eu digo: "Sim, você está linda esta noite"
Vamos a uma festa 
E todo mundo se vira para ver 
Esta linda senhora 
Isso está andando comigo
E então ela me perguntou: "Você se sente bem?" 
E eu digo: "Sim, me sinto maravilhoso esta noite"
Me sinto maravilhoso 
Porque eu vejo o amor brilhar em seus olhos 
E a maravilha de tudo isso 
É que você simplesmente não percebe o quanto eu te amo
É hora de ir para casa agora 
E eu estou com dor de cabeça 
Então eu dei a ela as chaves do carro 
Ela me ajuda a dormir
Quando apago a luz
Digo: Minha querida, você estava maravilhosa esta noite
Ah, minha querida, você estava maravilhosa esta noite

Ooh, ooh, ooh, ooh 

Sugestão de vídeos:

 

Something

 https://www.youtube.com/watch?v=UelDrZ1aFeY


Layla

https://www.youtube.com/watch?v=pKwQlm-wldA


Wonderful Tonight

https://www.youtube.com/watch?v=KIzOxTCOc_0


 


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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História

 

Figura:

https://www.google.com/search?sxsrf=AOaemvJR_aNRiQ5STx66VFhDksbF994AyA:1632958101108&source=univ&tbm=isch&q=imagem+de+eric+clapton+e+george+harrison+juntos


terça-feira, 28 de setembro de 2021

O escritor britânico Tolkien autor de O Senhor dos Aneis

 






O escritor, acadêmico, professor e poeta britânico John Ronald Reuel Tolkien (pseudônimos Ronald; Tollers), que ficou conhecido internacionalmente como J.R.R. Tolkien, nasceu em 3 de janeiro de 1892 em Bloemfontein, Estado Livre de Orange, na atual África do Sul. Teve vários antepassados que foram artesãos pelo lado de pai e a origem da família está ligada à Saxônia, na Alemanha, sendo que a partir do século XVII seus ancestrais paternos foram para a Inglaterra

Quando tinha três anos de idade, Tolkien, com sua mãe e irmão, foi viver na Inglaterra onde tinham nascido seus pais. Sua mãe não pretendia passar muito tempo por lá, porém Arthur Tolkien, o pai, um bancário, morreu de febre reumática no Estado Livre de Orange, na África, o que causou uma situação financeira complicada para a família que teve de ficar na Inglaterra. A mãe Mabel Suffield foi discriminada pelos seus parentes porque ela tinha mudado sua religião de anglicana para católica e assim ela perdeu o apoio financeiro deles, vindo a morrer por complicações causadas por diabetes. Tolkien, diante desses acontecimentos, achou que a mãe tinha se sacrificado por sua fé e resolveu também seguir o catolicismo. Ela enquanto estava viva morando na Inglaterra mostrou aos seus filhos contos de fadas em outras línguas, como o latim e o grego.

Os irmãos Tolkien ficaram sob a responsabilidade do Padre Francis Xavier Morgan, considerado pelo escritor como um segundo pai. John Tolkien revelou ter muito talento para línguas, estudando grego, latim, línguas antigas e modernas, como o finlandês e o galês (que influenciaram na criação de idiomas élficos em suas obras). O mundo imaginário de Tolkien, presente em suas obras, foi desenvolvido com base nas línguas, pois para ele a palavra precedia a história. A composição de suas obras era um trabalho filológico. No seu mundo suas línguas poderiam ser faladas com lendas ao redor. Tolkien no decorrer de sua vida veio a conhecer aproximadamente dezesseis idiomas além do inglês (mais os criados por ele).

Em 1908 passou a namorar Edith Bratt. O Padre Morgan disse a Tolkien que deveria se concentrar em seus estudos e que só poderia voltar a ver sua namorada quando tivesse 21 anos. Quando ele completou essa idade, escreveu a Edith e em 1914 ficaram noivos, casando-se em 1916, tendo ela se convertido ao catolocismo. Eles tiveram quatro filhos.

Estudou licenciatura na faculdade de Letras, em Exeter e foi lutar no exército britânico na Primeira Guerra Mundial. Após a guerra, iniciou seus escritos de um “mundo secundário” que ele criou e chamou de Eä, lugar onde se passavam as historias de suas obras O HobbitO Senhor dos Aneis e O Silmarillion (considerada sua principal obra e que foi postumamente publicada).

Como filólogo, passou a ser professor universitário de anglo-saxão de 1925 a 1945 e de inglês e literatura inglesa, de 1945 a 1959, na Universidade de Oxford. Com a grande popularidade de seu trabalho passou a ser conhecido como “o pai da moderna literatura fantástica”. Foi indicado em 1961 e 1967 ao Prêmio Nobel de Literatura. Suas obras venderam mais de 200 milhões de cópias e foram traduzidas para mais de cinquenta idiomas. A revista The Times, colocou Tolkien em sexto lugar na lista dos maiores escritores britânicos desde 1945.

Tolkien após a Primeira Guerra Mundial tornou-se um filólogo muito respeitado e entrou no grupo incumbido de preparar o New English Dictionary, um dicionário completo da língua inglesa. O supervisor da equipe elogiou bastante o trabalho de Tolkien e a sua competência em relação a línguas. Em 1925 Tolkien publicou junto com E. V. Gordon o seu primeiro livro chamado Sir Gawain & the Green Knight, que tinha base no folclore inglês.

Tolkien participou de sociedades em que o foco era a literatura. Foi nessas sociedades que ele encontrou o seu primeiro público e lá era motivado a escrever. Uma dessas sociedades, The Coalbiters, era dedicada à literatura nórdica, que Tolkien muito apreciava. Um dos membros dessa sociedade era C. S. Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia. Esse escritor foi muito amigo de Tolkien. Os dois participaram também de outro grupo literário: The Inklings. Lewis foi um incentivador da publicação de O Senhor dos Aneis. MasTolkien não gostou de uma famosa obra de Lewis: As Crônicas de Nárnia, achando-a muito infantil e alegórica. Depois de anos a amizade esfriou e Tolkien foi se afastando do amigo.

Em 1937 foi publicada a primeira edição de O Hobbit. Essa obra foi um sucesso entre os leitores. O editor pediu mais livros e Tolkien ofereceu O Silmarillion. Porém não foi publicada e Tolkien partiu para outra obra que levou doze anos para ficar pronta: O Senhor dos Anéis. Enquanto Tolkien escrevia essa obra, escreveu também Leafby Niggle, na qual se manifesta autobiograficamente. Em 1954 foram publicados os dois primeiros volumes de O Senhor dos AneisA Sociedade do Anel e As Duas Torres. Em 1955 foi publicado o último volume: O Retorno do Rei. A divisão da obra em três volumes foi para baixar os custos de impressão. No “Mundo Secundário” criado por Tolkien existiam novas normas, novos povos e Arda, uma terra onde vivem seres fantásticos como elfos, anões, trolls, orcs etc.

Mesmo com críticas, a obra de Tolkien foi bem sucedida na Europa e na América. Na década de 1960 elevou-se a categoria de culto. Tolkien então tornou-se famoso mundialmente, o que proporcionava desprazer no autor em certas ocasiões, devido à procura de  fãs que o importunavam, até mesmo com ligações telefônicas de madrugada. 

Tolkien era uma pessoa nostálgica que não gostava de trens, automóveis, televisão e comida congelada. Ele tinha críticas à tecnologia moderna, tendo sido influenciado pelos momentos difíceis que passou na Primeira Guerra Mundial e tendo filhos seus que lutaram na Segunda Guerra Mundial. A questão do poder está ligada em sua obra O Senhor dos Aneis  ao Um Anel que Frodo tem que destruir e não possuir. O poder que está no anel corrompe e liga-se ao ser maléfico Sauron. E o pequeno hobbit é quem deve destruí-lo.

Na década de 1960 o escritor se aposentou e se mudou para Bournemouth. Sua esposa morre em 1971 e Tolkien foi morar em um apartamento na Universidade de Oxford. Ele recebeu o título de Doutor Honoris Causa em Letras da Universidade de Oxford e a rainha Elisabeth II concedeu a ele a Ordem do Império Britânico, uma elevada condecoração britânica. Tolkien morreu em dois de setembro de 1973, aos 81 anos de idade, em Bournemouth, Inglaterra. Foi enterrado no Cemitério de Wlovercote, junto da esposa, com quem esteve casado por 55 anos. O seu livro O Silmarillion foi publicado em 1977. Graças a seu filho Christopher, foram reunidos vários manuscritos e anotações do autor, o que levou à publicação de A História da Terra MédiaContos IncompletosAs Crianças de Hurin e A Lenda de Sigurd e Gudrún.

Em 2003 uma pesquisa feita pela BBC revelou que as pessoas indicaram "O Senhor dos Anéis" como o livro preferido delas. As obras de Tolkien influenciaram pintores, histórias em quadrinhos, na música, no cinema e na televisão. E Peter Jackson dirigiu filmes de 2001 a 2014 baseados nas obras de Tolkien.

Segundo a autora Dilva Frazão sobre Tolkien:

“(...) Especializou-se em línguas Anglo-Saxônicas, língua alemã e literatura clássica na Universidade de Oxford. Em 1914 alistou-se no Lancashire Fusilieres. 

Em 1916 casou-se com Edith Bratt. Depois de servir na Primeira Guerra Mundial, continuou seus estudos de Linguística na Universidade de Leeds. Entre 1925 e 1945 lecionou língua e literatura anglo-saxônica na Universidade de Oxford, quando se especializou em literatura medieval.

Depois de publicar os ensaios “Sir Gawain e o Cavaleiro Verde” (1925) e “Beowulf” (1936), iniciou a criação de um personagem mitológico inspirado em uma saga épica medieval, repleta de elementos fantásticos e de seres e mundos imaginários.

A novela denominada “Hobbit” (1937) escrita para crianças, narra as aventuras de um povo pacato e sensato que vive na mítica “Terra Média”, junto com elfos, duendes e magos.

O livro Hobbit foi o ponto de partida para um ambicioso ciclo épico que se concretizou com a trilogia de “O Senhor dos Anéis” (1954-1955), dividida em três volumes:

 A Sociedade dos Anéis (1954)

As Duas Torres (1954)


O Retorno do Rei” (1955) 

Ao contrário do HobbitO Senhor dos anéis é um livro escrito para adultos. O eixo principal da história se constitui em uma oposição entre o bem e o mal. A obra recebeu grande acolhida na década de 60 e se converteu em um livro cultuado pelos leitores.

A atividade de J. R. R. Tolkien como novelista é inseparável da de filólogo. Sua paixão por línguas antigas, como o grego, o anglo-saxão, o inglês medieval, o galês, o gótico, o finlandês, o islandês e o norueguês antigos, o levaram a criar sons e inventar uma linguagem, seguindo um método rigorosamente filológico. (...)”

E ainda a mesma autora:

“Obras de J. R. R. Tolkien: Sir Gawain e o Cavaleiro Verde (1925); Hobbit (1937); Sobre Histórias e Fadas (1945); Mestre Gil de Ham (1949); O Senhor dos Anéis (1954-1955); As Duas Torres (1954); O Retorno do Rei (1955); As Aventuras de Tom Bombadil (1962); A Última Canção de Bilbo (1966); Ferreiro do Bosque Grande (1967); Silmarillion (1977) obra póstuma.”

 

Algumas frases de Tolkien:

“Você pode encontrar as coisas que perdeu, mas nunca as que abandonou.”

“Chorar por uma pessoa que esta morta não é tão triste quanto chorar por uma pessoa que ainda vive mas que a perdemos para sempre.”

“Não devemos nos questionar porque algumas coisas nos acontecem e sim o que podemos fazer com o tempo que nos é dado.”

“O que realmente importa na vida é o que se faz com o tempo que nos é dado.”

“Não existe triunfo sem perda, não há vitória sem sofrimento, não há liberdade sem sacrifício.”

“O elogio que vem daquele que merece o elogio está acima de todas as recompensas.”

“O sofrimento é uma pedra de afiar para uma mente forte.”

“Nem todos que procuram estão perdidos.”

“Nada como procurar quando se quer achar alguma coisa. Quando se procura geralmente se encontra alguma coisa, sem dúvida, mas nem sempre o que estávamos procurando.”

“Porque um homem que foge do seu medo pode descobrir que, afinal, apenas enveredou por um atalho para ir ao seu encontro.”

"Que haja uma luz nos lugares mais escuros, quando todas as outras luzes se apagarem."

"Não se adquire um bom vocabulário com a leitura de livros escritos conforme uma ideia do que seja o vocabulário da faixa etária do leitor. Ele vem da leitura de livros acima da sua capacidade".

“Encontra-se a coragem em lugares improváveis.”

"O que você teme, senhora?", ele perguntou. "A gaiola", disse. "Ficar atrás das grades, até que o hábito e a velhice me façam aceitá-las, e todas as chances de fazer grandes feitos estejam além da lembrança e do desejo”

“Não jure que caminhará no escuro aquele que não viu o cair da noite.”

“É sempre assim o curso dos fatos que movem as rodas do mundo: as mãos pequenas os realizam porque precisam, enquanto os olhos dos grandes estão voltados para outros lugares.”

“A estrada segue sempre em frente
Deixando a porta onde começa
Agora distante a estrada continua
E eu devo segui-la, se eu puder

Conquistando-a com meus pés ávidos
Até que ela se junte a um grande caminho
Onde muitas trilhas e tarefas se encontram
E para onde depois? Não sei dizer.”

“Ações generosas não devem ser reprimidas por conselhos frios.”

“Os feitos não serão menos corajosos por não serem celebrados.”

“Não há nada de errado em celebrar uma vida simples.”

“Muitas vezes a verdade se esconde nas mentiras.”

“Para olhos tortos a verdade pode ter um rosto desvirtuado.”

"Onde está o cavalo e o cavaleiro?
Onde está a trombeta que tocava?
Eles passaram como chuva sobre as montanhas, como vento na pradaria.
Os dias se puseram no Ocidente, atrás das colinas para dentro da sombra."

Não vou pedir que não chorem, pois nem todas as lagrimas são um mal.

Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes a vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém a morte. Pois mesmo os muitos sábios não conseguem ver os dois lados.”

 

Sugestão de vídeos:

 

https://www.youtube.com/watch?v=5R2k5h2i7wg

Palavras Sábias de Gandalf - O Senhor dos Anéis - Sociedade do Anel

 

https://www.youtube.com/watch?v=k2orIMsVnHQ

Discurso Emocionante de Sam - O Senhor dos Anéis - Duas Torres

 

_______________________________

Márcio José Matos Rodrigues-Professor de Histór

  

 

 Figura: https://www.google.com/search?q=imagem+de+tolkien&sxsrf=


segunda-feira, 27 de setembro de 2021

O escritor britânico H. G . Wells

 




 

 

O escritor, professor, jornalista e historiador britânico Herbert George Wells, considerado um dos pais da ficção científica,nasceu em 21 de setembro de 1866, em Bromley, um distrito da Grande Londres, na Inglaterra. Foi membro da Sociedade Fabiana. Seus pais eram empregados domésticos que conseguiram ser proprietários de pequenas lojas. Sua educação escolar teve falhas, sendo complementada pelo hábito de ler do futuro escritor.

O contexto onde surge H. G Wells é a Segunda Revolução Industrial, com seus avanços na ciência e tecnologia, com seus automóveis, telefones, uso da eletricidade e vários inventos. Enquanto o escritor precursor da ficção científica Júlio Verne mostra uma visão mais de deslumbramento e de progresso, Wells, outro escritor que se destacou neste gênero literário, vai se mostrar desconfiado e temeroso em relação ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia.

Quando jovem,Wells foi aprendiz de negociante de panos, mas não se destacou nessa ocupação, tendo se esforçado para se dedicar aos estudos. Escreveu posteriormente o romance Kipps, com base nessa ocupação de negociante. Iniciou como professor, em 1883, na Midhurst Grammar Schoool e depois ganhou uma bolsa para estudar na Escola Normal de Ciências, em Londres com a finalidade de estudar Biologia. Os primeiros livros publicados por Wells eram didáticos. Ele começou sua carreira de escritor como jornalista, sendo um colaborador da revista Nature. O primeiro livro publicado por ele foi Livro Didático de Biologia. O primeiro romance foi A Máquina do Tempo(1895).

Nos primeiros romances de Wells, chamados de "Romances científicos”, ele trabalhou em temas que depois seriam aproveitados mais profundamente por outros escritores de ficção científica. Tais temas, como A Máquina do Tempo, O Homem Invísivel e a Guerra dos Mundos entraram para a cultura popular. Outros tipos de romance tiveram boa aceitação no público como Tono-Bungay e Kipps.

Wells em um de seus artigos escreveu que poderia haver uma enciclopédia mundial que para ele “deveria ser viva, crescendo e mudando constantemente sob revisão, extensão e substituição pelos pensadores originais em todos os cantos do mundo”. A ideia dele lembra muito a Wikipédia que só seria criada com a criação da Internet décadas depois.

Apesar de ser um visionário, escrevendo sobre lugares no futuro com novas tecnologias e outras formas de vida, Wells também foi um crítico da realidade em que vivia, tendo escrito sobre luta de classes e a ética na ciência. Em certos romances fez críticas sociais, relatando dilemas e problemas da baixa burguesia vitoriana. Ao mesmo tempo que demostrava espanto pelo avanço da ciência também alertava sobre a questão tecnológica que para ele poderia trazer perigos.

Vislumbrou no início do século XX questões do futuro como uma possível guerra nuclear, o surgimento de um Estado Mundial e sobre a Ética na manipulação de animais. Escreveu romances utópicos, pensando em como seria uma sociedade mais organizada. No livro The Shape of Things to Come, de 1933, um conselho mundial de cientistas toma o poder ( a obra depois foi adaptada por Wells para o filme Daqui a Cem anos, de 1936, dirigido por Alexandre Korda). Nesse filme havia a descrição de um cenário mais tarde visto na Segunda Gierra Mundial, com cidades sendo alvos de bombardeios aéreos. Há romances que não terminam com um final feliz utópico, como na obra When the Sleeper Awakes. O escritor acreditava serem “socialistas” as suas ideias políticas. Assim, de início viu com bons olhos a forma como Lenin tentava reerguer a economia russa, tendo visitado a Rússia em 1920 e escrito o relato: Rússia in the Shadows. Mas em 1934 Wells entrevistou Stalin e mostrou discordâncias sobre o modo do ditador dirigir a União Soviética, em especial no tocante ao excesso de autoritarismo do governo e à falta de liberdade de expressão.

Na sua obra A Máquina do Tempo, um cientista inventa uma máquina capaz de fazer viajar no tempo, indo até o ano de 802.701. Nessa sociedade existiam os Elois, pacíficos, que eram devorados pelos Morlocks, que moravam em subterrâneos. Em “Os dias do Cometa”, seres humanos tem seu comportamento afetado por gases que saem de um cometa que passa perto da Terra. Em A Ilha do Dr. Moreau, Wells descreve a manipulação genética. Em O Homem Invisível,há a possível influência da obra Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, publicado um ano antes, sobre as experiências de um cientista usando a si mesmo como cobaia. Uma invasão alienígena da Terra foi descrita em A Guerra dos Mundos. E em Os Primeiros Homens na Lua antecipa a viagem até o satélite da Terra que no futuro seria feita no fim dos anos de 1960. Júlio Verne também escreveu no século XIX sobre uma viagem à Lua.

H. G. Wells publicou no ano de 1920 a sua obra The Outline of History, que foi traduzida no Brasil nos anos de 1950 como História Universal. Ele nessa obra mostrava uma crença na possibilidade de um socialismo global. Tentou a carreira política, sendo candidato ao Parlamento, sem conseguir se eleger. Ele integrou a Sociedade Fabiana, que objetivava mudar a sociedade inglesa, de forma gradativa, para o socialismo. O escritor passou a criticar o nacionalismo e idealizar um Estado Universal.

Em 1934 foi publicada a autobiografia de H. G. Wells: Um Experimento em Autobiografia e em 1938, na véspera do dia das bruxas, a rede de rádio dos Estados Unidos, Columbia Broadcasting System (CBS), fez uma interrupção na sua programação e noticiou como se fosse verdade uma invasão de marcianos à Terra, provocando pânico em muita gente que escutava o programa. Era um rádio teatro baseado em Guerra dos Mundos, de H. G. Wells.

 Ainda que mostrasse um lado de crítico social e humanista em várias obras, infelizmente há um outro lado de Wells que foi sua visão eugenista. Ele escreveu Anticipations (1901) e The Open Conspiracy (1928). Ele falava da Nova República, na qual mostrava ideias racistas. Disse o escritor: "De que modo a Nova República tratará as raças inferiores? Como ela lidará com os negros? E com os judeus? Com esses enxames de pessoas de pele negra, marrom, branco-escura e amarela, que não se ajustam aos novos requisitos de eficiência? Ora, o mundo não é uma instituição de caridade, e eu assumo que não há lugar para eles". Embora Wells fosse muito crítico em relação aos nazistas, ao expressar tais ideias ele se aproximava deles.

Perto do fim da vida deixou-se dominar por uma visão pessimista em relação ao futuro da Humanidade, o que deixou claro em seu último livro. Morreu em 13 de agosto de 1946, aos 79 anos, em Londres, Inglaterra. Foi casado de 1891 a 1894 com Isabel Mary Wells e de 1895 a 1927 com Amy Catherine Robbins. Teve quatro filhos.

Segundo Luara França, editora da Suma de Letras, que publica as obras de Wells no Brasil: "Wells é um dos pais fundadores da ficção científica. Ele foi o primeiro a imaginar que a Terra poderia ser invadida por extraterrestres do mal. Acho que sem ele, nossa história com os alienígenas seria completamente diferente". E ainda a mesma editora: "Em suas obras, Wells tentou imaginar uma civilização mais humanista do que a nossa. Ele queria mudar o mundo, e fazia isso misturando teorias científicas e críticas à sociedade".

Algumas frases de H. G. Wells:


“A grandeza de homem pode ser medida por aquilo que ele deixa para crescer, e se ele introduziu uma nova mentalidade com um vigor que perdurou após ele´. A julgar por este teste, Jesus ocupa o primeiro lugar.”

“Toda vez que vejo um adulto em uma bicicleta, eu já não me desespero quanto ao futuro da raça humana.”

“Se você caiu ontem, fique de pé hoje.

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História

Figura:

https://www.google.com/search?sxsrf=AOaemvLhzmqlqg6LStaM1HK9CtjnZcH32A:1632778415980&source=univ&tbm=isch&q=imagem+de+H+G+Wells

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terça-feira, 21 de setembro de 2021

A Semana Nacional do Trânsito de 2021

 





Todos os anos, de 18 a 25 de setembro, acontece a Semana Nacional de Trânsito, criada pelo Código de Trânsito Brasileiro em 1997 (art. 326) , com o objetivo de estimular a existência de um trânsito mais seguro na sociedade. Durante esse período ações são realizadas ações para conscientizar os integrantes do sistema de trânsito (motoristas, passageiros, motociclistas, ciclistas ou pedestres). O Dia Nacional do Trânsito é comemorado no dia 25 de setembro. O tema da Semana Nacional de Trânsito de 2021 é: “No trânsito, sua responsabilidade, salva vidas”.

Deve-se considerar na realização da Semana Nacional de Trânsito as recomendações que estão no Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (PNATRANS). Não devemos esquecer que acidentes de trânsito causam milhares de mortos todos os anos no Brasil e outros milhares de sequelados, além de outras consequências ruins (problemas psicológicos em vítimas e familiares; danos materiais; enormes gastos com hospitais, remédios, cuidados médicos etc). Assim é preciso preservar a vida humana e evitar sofrimentos, como também as grandes despesas, pois os recursos que se gastam no atendimento aos feridos nos acidentes poderiam ser utilizados em outras questões que beneficiariam a sociedade. 

Para termos um trânsito melhor é necessário se considerar as ações em educação, fiscalização, engenharia; incentivar os debates; melhorar a estatística dos dados; organizar mais o sistema de trânsito; melhorar a comunicação, desenvolver mais o transporte público, dar melhores condições aos pedestres e ciclistas etc.

O sentido original de responsabilidade está ligado ao verbo latino respondere (responder). A pessoa responsável é aquela que tem condições de pensar sobre seus atos.  Podendo pensar sobre seus atos, do passado como do presente, a pessoa pode escolher como agir no futuro.

O participante no trânsito assim, tem de refletir sobre seus papeis no trânsito, sobre o que está fazendo no trânsito e quais as consequências de seus atos no trânsito. A liberdade individual não raramente é confundida como se cada um pudesse fazer o que bem entendesse, desconsiderando que está em um ambiente social, com outras pessoas. A liberdade individual não deve afetar o bem estar dos outros, não deve levar ao prejuízo de outros participantes do trânsito. É preciso estar consciente disto, assumindo uma responsabilidade no trânsito, por sua segurança e sua vida, pela segurançae pela vida dos outros. E o poder público também tem a responsabilidade de buscar meios para um trânsito mais seguro e pelo bem estar das pessoas no trânsito. As pessoas precisam pensar nas consequências de seus atos no trânsito. Por exemplo, o uso de celular enquanto se dirige, o dirigir sob efeito de álcool ou outras drogas, o excesso de velocidade, agir com imprudência ou negligência são comportamentos perigosos no trânsito. A falta de responsabilidade está ligada a uma falta de respeito pelos outros participantes no trânsito.

Todos que estão no trânsito tem que estar conscientes de que a forma como se comportam influencia no sistema. É preciso saber seus direitos no trânsito, como também seus deveres, suas responsabilidades. E assim, pode-se fazer a ligação com o tema da Semana de Trânsito: No trânsito, sua responsabilidade salva vidas”. E sua responsabilidade contribuirá para menos sofrimentos, menos conflitos, um convívio melhor no trânsito.

A Semana Nacional do Trânsito deve levar a uma reflexão que tem de estar ligada a questões éticas, ao humanismo, à cidadania, a uma maior educação, à gentileza e a cooperação entre as pessoas, ao respeito às leis de trânsito. Mas esta reflexão deve continuar além da duração das Semanas de Trânsito. É preciso se combater os vícios no trânsito, pois quando a liberdade é usada por alguém sem responsabilidade moral há o vício e não a virtude, que se origina no latim virtus, que quer dizer: força ou qualidade essencial.

 Segundo Hans Jonas: “...Age de modo que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autêntica humana sobre a terra. Age de modo que os efeitos da tua ação não sejam destruidores para a possibilidade futura de tal vida...”

E segundo Bruno Bergamo: “A escolha de contribuir com a redução de acidentes está nas mãos de cada condutor, que pode optar por dirigir de forma consciente e defensiva, além de se atentar às normas de cada via. Para tanto, torna-se fundamental a avaliação de riscos e o respeito à cidadania, cuidando da sua própria segurança e também das outras pessoas.

 Para mudarmos essa realidade, é fundamental que todos os motoristas façam a sua parte na redução do número de acidentes nas cidades, como: dirigir com cuidado, respeitar as leis de trânsito, usar os equipamentos de segurança corretamente, dirigir na velocidade permitida da via, utilizar os faróis corretamente à noite, não usar o smartphone ao dirigir, fazer manutenção periódica no veículo e não conduzir sob o efeito de substâncias tóxicas, álcool ou remédios”.

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Márcio José Matos Rodrigues-Psicólogo

 

 


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Crise diplomática entre a França e a Austrália

 






No dia 14 de setembro de 2021 a França convocou para consulta os embaixadores na Austrália e Estados Unidos. Segundo o ministro das Relações Exteriores da França, o governo francês tomou uma “atitude incomum" devido à "gravidade incomum" da situação. Analistas de questões diplomáticas disseram que esse gesto francês é uma mostra de grande insatisfação. Tal atitude se deu porque a França foi informada que no dia 15 de setembro seria assinado um pacto de defesa entre os Estados Unidos, o Reino Unido e a Austrália. Segundo o acordo, haverá transferência de tecnologia para o governo australiano construir oito submarinos movidos à energia nuclear (que são mais poderosos que submarinos comuns). O objetivo é formar uma defesa contra a expansão chinesa na região do sul do Pacífico. O acordo também prevê a inclusão de áreas como inteligência artificial, tecnologia quântica e cibersegurança.

A França tinha um acordo anterior com a Austrália para venda de doze submarinos convencionais e com o pacto com os Estados Unidos o acordo francês será cancelado. Além da reação francesa por causa dos seus interesses que foram contrariados (pois terá perda de cerca de 65 bilhões de dólares), o governo chinês protestou porque considerou que a nova aliança é uma ameaça à sua posição no Pacífico. Um representante do governo chinês assim declarou: "A China sempre pode resolver os problemas com o próprio país da região. Nós não precisamos da intervenção de forças de fora ou que eles percorram milhares de quilômetros de distância para fortalecer outros países. Eu não acho que isso seja necessário. Nós podemos resolver essas questões pacificamente se há alguma disputa entre países da região."

O governo francês considerou que a França tinha sido esfaqueada pelas costas pelos Estados Unidos (seu aliado na OTAN) e pela Austrália. Afirmou o governo da França que considerava ser um "comportamento inaceitável entre aliados e sócios". Análise de especialistas europeus descreve a situação não só como perda financeira como também perda de prestígio por parte da França, que não foi avisada oficialmente do acordo que os Estados Unidos e Austrália firmaram que foi chamado de Aukus (sigla referente à Austrália, ao Reino Unido e aos Estados Unidos)

O governo de Macron não só convocou seus embaixadores, como também anunciou uma aproximação com a Índia, em uma jogada de política internacional. Também o governo francês anunciou o cancelamento da participação francesa em um evento comemorativo da batalha de Chesapeake Bay, que foi uma batalha muito importante na Guerra de Independência dos Estados Unidos, que ocorreu em 5 de setembro de 1781, quando a esquadra francesa derrotou a esquadra da Grã-Bretanha, que queria manter o domínio sobre suas colônias na América.

O governo da Malásia afirmou temer uma corrida armamentista no Pacífico entre os Estados Unidos e seus aliados de um lado e a China de outro, a partir do fornecimento de submarinos nucleares para a Austrália. O governo Biden disse que irá procurar resolver a questão com a França brevemente, por meio diplomático na Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo disse um alto funcionário norte-americano: "Lamentamos que tenham dado esse passo, continuaremos comprometidos nos próximos dias a resolver nossas diferenças, como temos feito em outros temas no transcurso da nossa longa aliança” e disse ainda: "A França é nosso aliado mais antigo e um dos nossos parceiros mais fortes e compartilhamos uma longa história, valores democráticos e o compromisso de trabalhar juntos para abordar os desafios globais”. Biden afirmou que pretende com o plano realizar uma estratégia de longo prazo de segurança na área do Indo-Pacífico, destacando a questão da expansão chinesa que contraria os interesses dos Estados Unidos. A Austrália por sua vez está passando por uma tensão comercial com a China, principalmente desde 2018. Em 2021 a China implementou fortes sanções econômicas a produtos australianos. A Austrália mostrava-se relutante em se alinhar diretamente aos Estados Unidos contra a China, porém o governo australiano começou a temer a expansão chinesa e decidiu reagir à forma que o governo chinês vem se portando nas relações comerciais.

O pano de fundo da crise diplomática é o aumento crescente do poder chinês e sua política cada vez mais intensa naquela área, que preocupa determinados países. Um destaque é a tensão comercial entre China e Austrália, que aumentou desde 2018. Nos últimos meses, a China impôs severas sanções econômicas a produtos australianos.

O governo francês demonstra certa insatisfação com Biden, porque esperava dele um tratamento diferente do que era dado por Trump aos aliados europeus, que era um tratamento de menosprezo. Já o governo australiano disse entender a reação francesa, porém diz que quer que haja um entendimento entre França e Austrália. A declaração da diplomacia australiana foi: "É evidente que são assuntos com os quais é difícil lidar". O francês Clément Beaune, secretário de Estado para Assuntos Europeus, afirmou: "Temos negociações comerciais com a Austrália, não vejo como podemos confiar em um parceiro australiano". O governo australiano destacou que entre as razões porque a Austrália preferiu os submarinos nucleares aos convencionais franceses estão a autonomia maior que os nucleares tem e sua maior dificuldade em serem detectados por uma outra marinha. O porta-voz do governo francês afirmou que Macron ligará para Biden para discutir a questão dos submarinos. 

Também grupos de cidadãos australianos que são contra o envolvimento da Austrália com tecnologias nucleares mostraram sua indignação com o pacto com os Estados Unidos. E o governo da Nova Zelândia tem mostrado preocupação, afirmando para o governo australiano que a Nova Zelândia não considerará bem vindas naus movidas à energia nuclear nas águas deste país.

Reino Unido e Estados Unidos tem tido desde o século XX relações próximas, destacando-se a grande cooperação na Segunda Guerra Mundial, na Guerra do Golfo de 1991 e nas intervenções recentes no século XXI no Iraque e no Afeganistão. A Austrália também tem tido fortes relações com Estados Unidos e Reino Unido, sendo ainda bastante ligada a este último. 

Vou a seguir destacar alguns aspectos históricos para mostrar a relação histórica entre a Austrália, o Reino Unido (ex-metrópole da Austrália) e a relação da Austrália com os Estados Unidos.

 

1-    I Guerra Mundial:

Em quatro de agosto de 1914 a Austrália entrou na Primeira Guerra Mundial em apoio ao Reino Unido. As principais batalhas foram na Campanha de Galípoli contra o Império Turco Otomano; na invasão da Nova Guiné, na época uma colônia alemã no Pacífico; na Península do Sinai contra os turcos e participando da invasão do Império Otomano nas três batalhas de Gaza; e na Frente Ocidental, onde tropas australianas participaram em 1916, 1917 e 1918 ao lado de ingleses e franceses contra forças alemãs.

2-II Guerra Mundial:

A entrada da Austrália na Segunda Guerra Mundial contra a Alemanha, apoiando o Império Britânico deu-se em 3 de setembro de 1939. Posteriormente a Austrália declarou guerra à Itália em 1940 e ao Japão, em 1941. Os australianos lutaram na Campanha do norte da África, na Frente Europeia e na Frente do Sudoeste do Pacífico. Nessa guerra a Austrália foi atacada diretamente pelo Império do Japão que realizou bombardeios contra o território australiano. A Marinha e a Força Aérea da Austrália participaram, junto com seu exército, de várias ações contra o Eixo.

3-Guerra da Coreia:

A Austrália também participou com suas forças armadas da Guerra da Coreia (1950-1953), que começou com a invasão da Coreia do Sul (apoiada pelos Estados Unidos e seus aliados) pela Coreia do Norte (apoiada pela União Soviética e depois também pela China). Em destaque houve a participação do grupo Asa N.º 91, pertencente à Força Aérea Australiana.

4-Guerra do Vietnã: De início a Austrália envolveu-se na Guerra do Vietnã enviando 30 conselheiros militares em 1962, número que aumentou em anos seguintes. Depois, a partir de 1965, houve a participação de tropas australianas em combates no Vietnã do Sul até o início dos anos de 1970. A Austrália chegou a ter mais de 60 mil militares combatendo ao lado do exército do Vietnã do Sul (apoiado pelo governo de Washington) e das tropas dos Estados Unidos. Na época havia o pacto com esse país e a Austrália, pacto chamado de ANZUS.  Também a Austrália desenvolveu durante a guerra ações de assistência a aldeias e à administração provincial, incluindo construções públicas, desenvolvimento agrícola e tratamento médico/odontológico. Ainda que a experiência na Guerra do Vietnã (com perdas em vidas humanas australianas)) tenha causado resistência aos governos australianos em se envolverem em conflitos no exterior, a aliança com os Estados Unidos tem se mantido.

A seguir um histórico da situação do Mar do Sul da China:

O Mar da China Meridional, cuja área cobre aproximadamente3 500 000km², com centenas de ilhotas que formam o arquipélago do Mar do Sul da China, é considerado um mar marginal do Oceano Pacífico. Chama-se de mares marginais os golfos de grandes dimensões que penetram mais ou menos nos continentes. Um exemplo é o Golfo do México. Não tem acontecido conflitos armados na região. No entanto há possibilidades de um conflito futuro devido ao choque de interesses entre nações.  Segundo Cronin e Kaplan (2011): É uma área onde mais de meia dúzia de países tem sobreposições territoriais sobre um fundo do mar com reservas comprovadas de petróleo de sete bilhões de barris e cerca de 900 trilhões de pés cúbicos de gás natural”. A importância do Mar do sul da China está relacionada às características da região, com arquipélagos de ilhas, recifes e outras formações marinhas que podem ser pontos estratégicos por causa de sua importância para o fluxo comercial da região, como também devido às suas reservas naturais, em especial petróleo e gás natural.

Entre os países interessados na região que disputam territórios há a China, o Vietnã, a Malásia, Taiwan e as Filipinas.  A China tem declarado possuir soberania em grande parte dessa região, abrangendo as ilhas Paracel, Spratly, Dongsha, Zhongsha e Huangyan, como também a área de aterramento marítimo, a chamada “Grande Muralha de Areia". O governo da China argumenta que o país tem uma presença histórica na região desde os tempos que era um império. Com base nestes termos, o governo chinês mandou uma nota para a ONU em 2009, depois de manifestações do Vietnã e da Malásia reivindicando territórios. Então tem havido uma situação de disputa por esta região, com uma complexidade jurídica e política. A China tem construído ilhas artificiais fortificadas e realizado exercícios militares na área. Existem riscos de aumento de tensões entre países e também há a possibilidade levantada por especialistas de que pode haver riscos para a biodiversidade marinha.  As reivindicações territoriais da China no Mar do Sul da China, que consideram o histórico do império chinês, contam com um mapa chinês antigo conhecido como a Demarcação da linha dos 9 traços. Tal mapa não foi reconhecido pela Convenção das Nações Unidas e nem pelo Tribunal Internacional do Direito do Mar.

Os Estados Unidos, por sua vez, querem manter sua influência na região. Este país adota a estratégia chamada “comando dos comuns”. Segundo esta estratégia: as áreas que não pertençam a nenhum Estado e que tenham importância para o acesso a grande parte do mundo podem ser de utilização dos Estados Unidos, podendo negá-las a outras nações. A China tem aumentado suas forças armadas e aumentado seus gastos militares, procurando diminuir a influência dos norte-americanos naquela região.  A partir de 2011, a posição do governo Obama chamada de “estratégia de rebalanceamento”, buscou encontrar um equilíbrio militar a favor dos Estados Unidos em relação às forças chinesas no Mar Meridional da China e no Pacífico. Politicamente os Estados Unidos buscam reforçar alianças com países asiáticos como Japão, Filipinas, Cingapura e Índia. Assim, a política norte-americana pretende dar uma aparência maior de conflito regional. O governo Obama realizou a Parceria Transpacífica (TPP) estabelecendo regras de comércio entre os componentes deste grupo de países. Na verdade era um plano do governo Obama de aumentar a presença dos estados Unidos no comércio daquela região da Ásia e Pacífico e fortaleceria a posição no Mar do Sul da China.

Segundo o professor Diego Pautasso, com auxílio dos pesquisadores Gaio Doria, Tiago Soares Nogara e Carlos Renato Ungaretti, no quinto artigo sobre a série “A China e o Mundo”:

“(...) A questão das disputas entre a China e parte de seus países vizinhos pelos domínios de territórios no Mar do Sul da China aparece frequentemente como elemento desestabilizador das relações regionais asiáticas, e não raramente como possível foco de tensão a assumir contornos militares mais amplos. Isso não se dá por acaso, afinal as disputas no Mar do Sul da China têm potencial para uma escalada de violência capaz de impactar todo o sistema internacional. Portanto, constitui mais do que simples celeumas relacionadas às disputas da China com países como Vietnã, Brunei, Malásia e Filipinas. Nesse caso específico, a questão passa pela compreensão de como a China articula a defesa de seus interesses no plano regional com o contexto mais amplo das políticas de cerco e contenção executadas por Washington contra o seu processo de ascensão.

Dito isso, é preciso analisar as mensagens cifradas envoltas na questão do Mar do Sul da China, muitas delas propagadas a partir de centros midiáticos e acadêmicos que não são atores desinteressados nas consequências práticas dessas disputas. Ou seja, a narrativa dominante ocidental se concentra no ‘expansionismo da China’ sobre os vizinhos fragilizados. No entanto, as evidências são, na verdade, de ostensiva presença militar estadunidense na região, bem como de grande disparidade temporal entre a primeira construção de estruturas chinesas nos territórios reivindicados nas ilhas Spratly, que se deu apenas no final de 2013, e aquelas construídas anteriormente pelos demais contendores (...)”

Bem, vê-se então que a questão envolvendo a crise diplomática atual entre França, Austrália e Estados Unidos além da questão comercial está inserida em um contexto mais amplo de disputas na região do Pacífico e do sudeste asiático. 

De acordo com John Blaxland, professor do Centro de Estudos de Estratégia e Defesa da Universidade Nacional Australiana, embora a Austrália possa ter certos ganhos em uma parceria militar com os norte-americanos, também há o risco de associar seu destino ao dos Estados Unidos, o que pode levar a Austrália a entrar em um futuro conflito bélico que possa haver na região.

Em relação à França, é possível que o governo dos Estados Unidos queira dar alguma espécie de compensação ao seu aliado da OTAN ( e aliado histórico em algumas guerras) e membro da União Europeia, com a qual Biden afirmou ter interesses de aproximar-se. A crise atual revela que embora Biden tenha mostrado um espírito conciliador na política interna dos Estados Unidos, externamente está assumindo como o seu antecessor uma política de enfrentamento com a China, mostrando mais uma vez que, apesar de diferenças em algumas posturas entre republicanos e democratas, em se tratando de questões que envolvem os interesses econômicos e geopolíticos da nação da América do Norte, essencialmente não há diferenças tão profundas. Temos nós, seres humanos que habitam este planeta, que torcer para que as tensões entre grandes potências não levem a consequências que possam gerar uma situação severamente problemática para o resto do mundo, considerando-se a força econômica destas poderosas potências industriais e o seu poderio militar. Para o bem da Humanidade devemos torcer para que alternativas diplomáticas sejam utilizadas em vez de "soluções" armadas.

 

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História.