domingo, 6 de dezembro de 2020

A escritora Clarice Lispector, aniversariante de dezembro

 



Em 10 de dezembro de 1920 nasceu Chaya Pinkhasovna Lispector, conhecida no Brasil como Clarice Lispector, em Chechelnyk, Oblast de Vinnitsa, na República Popular da Ucrânia. Foi uma escritora, colunista, contista, cronista e jornalista com dupla nacionalidade (ucraniana e brasileira). Foi uma das escritoras com mais destaque da terceira fase do modernismo brasileiro, chamada de "Geração de 45". Junto com o escritor Guimarães Rosa é considerada a grande escritora brasileira da segunda metade do século XX, devido ao seu estilo, entre a poesia e a prosa.

Seus pais foram o comerciante Pinkhas Lispector e Mania Krimgold Lispector, ambos de religião judaica. Escreveu romances, contos e ensaios e é considerada uma das grandes escritoras brasileiras do século XX. No conjunto de obras suas estão cenas cotidianas simples e tramas psicológicas.

Sua família (pai, mãe e duas irmãs) viu-se com sérias dificuldades financeiras a partir da Guerra Civil nos territórios do antigo Império da Rússia, onde havia uma perseguição dos judeus nessa época e então emigra, chegando ao Brasil em 1922. Sobre a Ucrânia ela disse quando adulta: "Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo". Considerava-se cidadã do Brasil. Primeiramente sua família chegou em Maceió (nessa cidade a família teve problemas financeiros e dificuldades culturais), onde ficou pouco tempo, mudando-se para Recife. Nessa cidade a mãe de Clarice morreu quando ela tinha oito anos. Quando Clarice tinha 14 anos, ela, o pai e as irmãs mudaram-se para o Rio de Janeiro. Lá sua família ficou e foi onde seu pai morreu em 1940. No Brasil os nomes russos de seu pai, mãe, uma de suas irmãs e o dela foram mudados. Chaya virou Clarice. Ela foi uma das figuras mais influentes da Literatura brasileira e do Modernismo.

Um fato marcante na vida de Clarice foi que a mãe de Clarice foi estuprada durante  conflitos armados na Ucrânia e contraiu sífilis. E havia uma crença popular de que uma gravidez poderia curar a doença. Assim a mãe de Clarice engravidou e ela nasceu. Mas a doença não podia ser curada desta forma. Clarice soube desses fatos e isso originou uma espécie de complexo de culpa que pode ter influenciado aspectos de sua vida e até mesmo sua forma de escrever.

Clarice aprendeu a ler e a escrever aos sete anos, em 1928. Em 1930 escreveu sua primeira peça teatral Pobre menina rica. Mas depois as páginas foram perdidas. Enviou seus primeiros contos em 1931 para a página infantil do Diário de Pernambuco, que não os publicou. Segundo ela, a razão era porque os contos dela eram sem fadas, sem piratas.

Quando estudante no Ensino Primário passou a mostrar interesse por Matemática, tendo dado aulas para filhos dos vizinhos. Quando estava na terceira série ela ingressou no Colégio Hebreu-Iídiche-Brasileiro e lá aprendeu hebraico e iídiche. Em 21 de setembro de 1930 a mãe de Clarice morreu aos 42 anos. Foi nessa época que Clarice compôs sua primeira peça para piano, em homenagem à mãe. Em 17 de junho de 1931 o pai de Clarice solicitou formalmente a sua naturalização. Aos 12 anos, em 1932, Clarice e sua irmã Tania ingressaram no Ginásio Pernambucano e em 1933.  Clarice decidiu ser escritora.

Em uma entrevista antes de morrer disse sobre o início de sua formação literária : “Misturei tudo. Eu lia romance para mocinhas, livro cor-de-rosa, misturado com Dostoiévski. Eu escolhia os livros pelos títulos e não pelos autores. Misturei tudo. Fui ler, aos treze anos, Hermann Hesse, O Lobo da Estepe, e foi um choque. Aí comecei a escrever um conto que não acabava nunca mais. Terminei rasgando e jogando fora”. Nos anos 30 Clarice leu obras de Machado de Assis, Rachel de Queiroz, Eça de Queiroz, Jorge Amado e Dostoiévski.

Em 1935, o pai mudou-se para o Rio de Janeiro, cidade na qual esperava desenvolver seus negócios e objetivava casar suas filhas com maridos vindos do meio judaico carioca. As irmãs entraram no serviço público. Em 1937 Clarice ingressou na escola preparatória da Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. Não era comum naquele tempo uma mulher e ainda mais não originária das camadas mais altas da sociedade carioca entrar naquela instituição.  Apesar de certa resistência do pai ela prosseguiu. Disse ela sobre aquela época: “Minha ideia ... era estudar advocacia para reformar as penitenciárias”. Em 1938 mudou para outra escola preparatória, o Colégio Andrews. Na ocasião passou a dar aulas de Matemática e Português, começando sua aprendizagem em Inglês.

Quando começou o Estado Novo, o Brasil estreitou ligações com a Alemanha nazista e o isso influenciou em um crescimento de ideias antissemitas no Brasil. Nessa época o pai de Clarice arrecadava fundos para os judeus que estavam indo para a Palestina.  Em 1939 Clarice ingressou no curso de Direito e trabalhava em um escritório de advocacia como secretária, também fazendo traduções de textos científicos para revistas.

Em 25 de maio de 1940 Clarice publicou seu primeiro conto Triunfo, na revista Pan. O pai dela faleceu em 26 de agosto de 1940, aos 55 anos. A irmã de Clarice, Tania, convidou as irmãs para morarem com ela em seu apartamento.

Clarice, no ano de 1940, tentava entrar no jornalismo e ia nas redações de revistas oferecendo seus contos. A imprensa estava sob censura do governo. Na revista Vamos Ler! Clarice mostrou seus textos ao jornalista Raimundo Magalhães Júnior, que também era secretário do ministro de Propaganda. Segundo Clarice: “Eu sou tímida e ousada ao mesmo tempo. Chegava lá nas revistas e dizia: “Eu tenho um conto, você não quer publicar?”. Aí me lembro que uma vez foi o Raymundo Magalhães Jr. que olhou, leu um pedaço, olhou para mim e disse: “Você copiou isto de quem?”. Eu disse: “De ninguém, é meu”. Ele disse: “Então vou publicar”. O primeiro texto dela na revista foi: Eu e Jimmy. Na época Clarice, passou a trabalhar como editora e repórter na Agência Nacional, do governo brasileiro.

Em 1941 Clarice estava trabalhando como repórter na inauguração do Museu Imperial em Petrópolis e conheceu Getúlio Vargas. Também esteve a trabalho em Belo Horizonte. Nesse tempo publicou textos em periódicos. Em 9 de agosto publicou o conto Trecho e no dia 30 Cartas a Hermengardo, no semanário Dom Casmurro. Também nesse ano escreveu contos que somente seriam publicados em 1979 após a morte de Clarice, na coletânea A Bela e a Fera. No mesmo ano de 1941 ainda foram publicados os contos Gertrudes pede um conselho, Obsessão e Mais dois bêbados. Colabora nesse tempo com a revista universitária A Época, onde foram publicados os ensaios: Observações sobre o fundamento do direito de punir Deve a mulher trabalhar? Embora aparentemente estivesse se aproximando de um ateísmopassou a se aproximar da religião com leituras de autores como Espinoza.

Começou nos anos 40 a frequentar um grupo que se encontrava no bar Recreio, na Cinelândia. Eram membros desse grupo pessoas famosas do meio literário como Vinicius de Moraes, Rachel de Queiroz e Otávio de Faria. Conheceu nessa época o poeta Augusto Frederico Schmidt, com quem começou uma sólida amizade. Uma crítica posterior feita a Clarice era de que seus textos escritos para a Agência Nacional na época do Estado Novo eram dentro de uma tendência para agradar a censura do regime, havendo muitas entrevistas com coronéis e generais estrangeiros que estavam passando pelo Brasil, assim como reportagens sobre inaugurações de locais sob administração ligada ao governo nacional. A autora revelou que foi muito influenciada pelo livro Felicidade, de Katherine Mansfield, tendo comentado após uma primeira leitura: "Este livro sou eu!" Segundo o site Resenhas a la Carte: Cada conto é recheado de sutileza, detalhes importantes – mas nem um pouco cansativos – e a leitura flui muito bem! Os temas são recorrentes do cotidiano, e diversas vezes tornam-se atemporais, como no caso de O Canário. A ironia da autora pode ser percebida nas entrelinhas, lembrando bastante o estilo de autoras brasileiras como Clarice Lispector e até um pouco de Lygia Fagundes Telles.” Clarice fez cursos  relacionados à Antropologia e à  Psicologia.

Nessa época Clarice envolveu-se amorosamente com Maury Gurgel Valente, seu futuro marido, colega no curso universitário de Direito. Passou a trabalhar na redação do Jornal A Noite. Por esse tempo é que teve contato com textos de escritores modernistas como Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Carlos Drumond de Andrade. Foi em 1942 que Clarice terminou de escrever seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem. Segundo a crítica de Álvaro Lins, o livro de Clarice era como "[o primeiro romance brasileiro] dentro do espírito e da técnica de Joyce e Virginia Woolf”. Logo depois iniciou o seu segundo romance: O Lustre.

Clarice conseguiu naturalizar-se em 12 de janeiro de 1943 e em 23 de janeiro casou-se com Maury Gurgel. Seu primeiro livro,Perto do Coração Selvagem, foi publicado em dezembro de 1943, sendo impressos mil exemplares. Recebeu elogios da crítica especializada que o comparou com obras de escritores europeus, mas a autora negou que tivesse havido tal influência. Em 19 de janeiro de 1944 a escritora mudou-se com o marido para Belém. Nessa época dedicou-se a ler autores como Sartre, Rilke, Proust e Virginia Woolf.

Em julho de 1944 Clarice e o marido diplomata estiveram  no Rio de Janeiro e depois partiram  ficando algum tempo em Portugal, onde chegaram em agosto. Foram então para o Marrocos e logo depois para a Argélia. Em 24 de agosto Clarice chegou em Nápoles onde o seu marido iria trabalhar. Lá fez visitas diárias a um hospital norte-americano, escrevendo e lendo cartas para os soldados. Seu livro Perto do Coração Selvagem recebeu o Prêmio Graça Aranha de melhor romance do ano. Em novembro concluiu o segundo livro, O Lustre.

Em 8 de maio de 1945, no dia do fim da guerra na Europa, conheceu em Roma o pintor surrealista Giorgio de Chirico, o qual pintou seu retrato, que não foi do agrado da escritora. Conheceu Florença, Veneza na Itália e também Córdoba, na Espanha. Nesse tempo conheceu o poeta italiano Giuseppe Ungaretti.

Em novembro de 1945, devido a críticas que Manoel Bandeira tinha feito a alguns poemas de Clarice, ela queimou todos os poemas que tinha escrito. Manoel Bandeira depois se arrependeu das críticas que fez e escreveu para ela: “Você é poeta, Clarice querida. Até hoje tenho remorso do que disse a respeito dos versos que você me mostrou. Você interpretou mal as minhas palavras [...] Faça versos, Clarice, e se lembre de mim

Já em 1946 o segundo livro, O Lustre, foi publicado. Clarice esteve a serviço do Ministério das Relações Exteriores e foi à cidade do Rio de Janeiro. Na ocasião conheceu Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos. Em março mudou-se para Berna, na Suiça para onde o marido havia sido transferido. Durante esse tempo na Suiça leu autores como Ibsen, Dreiser, Cocteau e Simone de Beauvoir e escreve alguns contos, entre eles O crime (mais tarde reescrito como O crime do professor de Matemática), que seria o primeiro conto do livro Laços de Família.

Segundo alguns comentaristas, os livros O Lustre e A Maçã no Escuro, foram influenciados pelo Existencialismo do filósofo francês Sartre. Assim, há possibilidade de haver influência de filósofos como Sartre, Simone de Beauvoir na obra de Clarice. Mas sem dar certeza de que ela fosse uma seguidora do Existencialismo.

O primeiro filho de Clarice nasce na Suiça em agosto de 1948. Em fevereiro de 1953 nasce o segundo em Washington, nos Estados Unidos. O primeiro filho, na adolescência, foi diagnostico como esquizofrênico. Clarice passou a se culpar pela doença do filho. Em 1959, Clarice e o marido se separam, pois ele viajava muito e ela queria se fixar em um lugar para cuidar do filho e cuidar de sua carreira. Também não aguentava mais as desconfianças e ciúmes do marido. Ela então fica vivendo no Rio de Janeiro. Nesse ano Clarice assina a coluna Correio Feminino-Feira de Utilidades no jornal Correio da Manhã, assinando como Helen Palmer. Em 14 de setembro de 1966, ao dormir deixando um cigarro aceso, acaba provocando sem querer um incêndio em seu quarto. A escritora passou mal e ficou por três dias com risco de morrer no hospital, onde teve que ficar por dois meses.

Em Cali, na Colômbia, foi convidada em 1975 a participar do Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria e lá fez uma pequena apresentação, falando de seu conto O ovo e a galinha. A partir daí Clarice passa a ser chamada de “a grande bruxa da literatura brasileira”. Em 1977, pouco tempo depois de publicar o romance A Hora da Estrela, a autora é hospitalizada por causa de um câncer de ovário. A doença se dissemina pelo organismo dela, que vem a falecer em 9 de dezembro de 1977, uma dia antes de seu aniversário. Foi sepultada no Cemitério Israelita do Caju, no Rio de Janeiro.

Clarice dominava bem os idiomas  português, inglês, francês e espanhol, um pouco menos os idiomas hebraico e iídiche e com algumas noções de russo. Traduziu obras das línguas inglesa, francesa e espanhola para o português. Traduziu contos, artigos e 35 livros. Ao todo foram mais de 40 traduções.

Entre suas obras, houve cerca de 179 traduções de livros e 25 de contos em mais de 10 idiomas. Seus livros mais traduzidos foram A Hora da Estrela e A Paixão segundo G.H, ambos com 22 traduções. Nos anos 80 suas obras se tornaram mais lidas e com mais traduções. Recebeu  prêmios como o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal e o Prêmio Graça AranhaPrêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro.

 Obras:

1-Romances

Perto do Coração Selvagem

O Lustre

A Cidade Sitiada

A Maçã no Escuro

A Paixão segundo G.H

Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres

Água Viva

Um Sopro de Vida

2-Novela

A Hora da Estrela

3-Contos

Laços de Família

A Legião Estrangeira

Felicidade Clandestina

Onde Estivestes de Noite

A Via Crucis do Corpo

O Ovo e a Galinha

A Bela e a Fera

 

4-Literatura infantil

O Mistério do Coelho Pensante

A Mulher que Matou os Peixes

A Vida Íntima de Laura

Quase de Verdade

Como Nasceram as Estrelas

 

5-Crônicas

Para Não Esquecer

A Descoberta do Mundo

 

6-Correspondências

Correspondências

Minhas Queridas

 

7-Entrevistas

Entrevistas

 

8-Artigos de jornais

Outros Escritos

Correio Feminino

Só para Mulheres

  

Frases e poesias:


“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

“Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”

 “Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.”

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.”

“Já que se há de escrever... que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.”

“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.”

“E umas das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi criadora de minha própria vida.”

“Não escrevo para agradar ninguém”

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”

“Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.”

“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”

Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...”.

“A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre”

 

Minha alma tem o peso da luz

Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita,
prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.

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Precisão

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

 

“Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.”

“Agora preciso de tua mão,
não para que eu não tenha medo,
mas para que tu não tenhas medo.
Sei que acreditar em tudo isso será,
no começo, a tua grande solidão.
Mas chegará o instante em que me darás a mão,
não mais por solidão, mas como eu agora:
Por amor.”

“Abro o jogo!
Só não conto os fatos de minha vida:
sou secreta por natureza.
Há verdades que nem a Deus eu
contei. E nem a mim mesma. Sou
um segredo fechado a sete chaves.

“Pertencer
Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.”

 

“Sou composta por urgências:
minhas alegrias são intensas;
minhas tristezas, absolutas.
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos.
Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos.
Pouco não me serve,
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte!
Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente...
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir,
de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca.”

 

“Sou como você me vê... posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar... suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras, sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calma e perdoo logo.
Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre... Tenho felicidade o bastante para ser doce, dificuldades para ser forte, tristeza para ser humana e esperança suficiente para ser feliz. Não me deem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre... Sou uma filha da natureza: quero pegar, sentir, tocar, ser.
E tudo isso já faz parte de um todo, de um mistério.
Sou uma só... Sou um ser… a única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo.”

“Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.
Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.
No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais”

“Eu me dou melhor comigo mesma quando estou infeliz: há um encontro. Quando me sinto feliz, parece-me que sou outra. Embora outra da mesma. Outra estranhamente alegre, esfuziante, levemente infeliz é mais tranqüilo.
Tenho tanta vontade de ser corriqueira e um pouco vulgar e dizer: a esperança é a última que morre.”

"Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima a qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda."

“Não é a toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei arduamente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido. O caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso não encontrei. Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é o outro, são os outros.
Quando eu puder sentir plenamente o outro, estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.”


Sugestão de  Vídeo: Entrevista com Clarice Lispector em 1977 no site  https://www.youtube.com/watch?v=nhnhthPmL7s

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História e Psicólogo


Figura: https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk00UZ0BgUgGEoUevG3d5JajCAtPspg:1607298416776&source=univ&tbm=isch&q=imagens+de+clarice+lispector


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