segunda-feira, 15 de março de 2021

O compositor argentino Astor Piazzolla

 





 Em 11 de março de 1921 nasceu em Mar Del Plata, na Argentina, Astor Pantaleón Piazzolla, considerado o compositor de tango de maior importância da segunda metade do século XX. Fez inovações no tango, no ritmo, no timbre e na harmonia mas foi muito criticado por outros artistas de tango mais tradicionais. Era filho dos italianos Vicente Piazzolla e Asunta Manetti. Com quatro anos ele e sua família foram viver em Nova York, buscando melhores condições de vida. Quando vivia nos Estados Unidos sabia falar em espanhol, inglês, italiano e francês. Piazzolla teve uma infância pobre e difícil nos Estados Unidos. Era um imigrante com uma deficiência em uma das pernas na Nova York dos tempos da Lei Seca e das máfias. Seu pai lhe deu um bandoneón (instrumento muito usado por músicos de tango) em 1929. Astor descobriu as músicas de Bach. Em 1933 iniciou aulas de piano com Bela Wilde, um pianista húngaro seguidor do compositor russo Sergei Rachmaninoff.

Na ocasião em que o famoso cantor de tango Carlos Gardel esteve em Nova York para filmagens de El Dia Que Me Quieras, Piazzola o conheceu. Tinha apenas 13 anos. A situação foi a seguinte: o pai de Astor mandou o filho com peças de madeira entalhada para dar de presente a Gardel. Como era impossível ao garoto se aproximar do famoso cantor pois a segurança era rígida, o menino então foi pela escada de incêndio e entrou pela janela. Gardel gostou do jeito de Astor, que falava muito bem o inglês e que passou a ser usado como tradutor do cantor argentino que deu a ele um papel pequeno no filme em que estava participando.

Fez arranjos orquestrais e tocou, em sua juventude, para o bandoneonista, compositor e diretor Anibal Troilo. Teve influências do jazz em sua música, criando  uma nova linguagem. Em 1938, na Argentina, passou a ter aulas com Alberto Ginastera (1916 – 1983), um talentoso compositor argentino de música erudita. Casou-se em 1943 com Odette María Wolff e teve dois filhos, Diana (1943) e Daniel (1944). Em 1953 Piazzola compôs a “Sinfonia Buenos Aires” dividida em três movimentos.

Estudou teoria harmônica e contraponto tradicional com a compositora, pianista e diretora de orquestra francesa Nadia Boulanger que o incentivou a continuar com o tango e com a música clássica. Os críticos ortodoxos de Gardel diziam que seus tangos eram complicados e não dançantes. A velha guarda não o aceitava no mundo do tango, mesmo ele tendo conseguido realizar gravações e com  sua orquestra tocando em cafés.

Piazzolla dizia que o que criava era música contemporânea de Buenos Aires, respondendo a autores de tango mais conservadores nos anos de 1960. Gravou muitos discos. Houve pessoas de destaque que gravaram com ele como Gary Burton, Antônio Carlos Jobim, e o violinista Fernando Suarez Paz. Na Argentina teve parceiros como o poeta Horacio Ferrer, a cantora Amelita Baltar e o escritor Jorge Luís Borges. Entre suas composições mais famosas podem ser citadas “Libertango” e “Adiós Nonino”. No filme “Toda Nudez Será Castigada” (1973), uma adaptação da peça com o mesmo nome de autoria de Nélson Rodrigues, algumas músicas de Piazzolla fizeram parte da trilha sonora do filme, como Fuga n° 9. O compositor ganhou Menção Especial do Júri, como melhor trilha, no Festival de Gramado de 1973. Em homenagem ao pai que estava prestes a morrer, Piazzolla fez a canção "Adiós Nonino", em 1959. Sobre esta canção o compositor disse uma vez:  “Talvez eu estivesse rodeado de anjos. Foi a mais bela melodia que escrevi e não sei se alguma vez farei melhor”.A cantora argentina Eládia Blázquez o convenceu a colocar na música um poema que ela havia escrito. Após a morte do pai ele teve complicações  em sua vida que o levaram a divorciar-se, tendo rompido relações com seus filhos. Compôs em 1969 o tango que fez muito sucesso Balada para um Loco. Em 1975 compôs Libertango, outro grande sucesso. Por esses tempos é que Piazzolla se casou com Laura Escalada, que era cantora de ópera e locutora de rádio. 

Tendo o hábito muito forte de fumar e já tendo tido problemas no coração, em 4 de agosto de 1990 Piazzolla sofreu um AVC hemorrágico em Paris, ficando em coma. Em 4 de julho de 1992, faleceu em Buenos Aires. Sua viúva Laura Escalada disse a respeito dele sobre comentários de que ele não teria um bom caráter: “Não, era um homem muito doce, terno, muito tímido”. E ainda: “Acontece que todos temos um caráter áspero quando apanhamos”. Este apanhar referia-se muito à forma como em certas ocasiões foi maltratado na Argentina, pois houve argentinos que o insultavam e um taxista uma vez lhe fez a acusação de ser “o assassino do tango”. Em 1995 Laura Escalada, criou a Fundação Astor Piazzola e em 2018 convidou Daniel Villaflor Piazzolla, filho do compositor, para trabalharem juntos na Fundação.

Piazzolla disse em uma entrevista certa vez quando esteve em 1989, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul: “...Tenho uma maneira de ver a música popular argentina, com bastante interesse, mas que é só do ponto de vista musical. O popular me atrai por esse ângulo. Nada mais. Depois, se é tango ou não, é um problema sem importância para mim. Não me agrada manter qualquer apego ou tradição. O artista deve mudar sempre. Este é o meu compromisso.” E ainda: O artista que não muda está morto. Quando um criador se detém, ele deixa de ser um criador. Está acabado. Penso que faz parte da vida artística abraçar as revoluções estéticas. Em determinado momento, pensei que era difícil alcançar o sucesso. Depois, concluí que é muito fácil. Vence-se estudando e trabalhando incansavelmente. Fui a Paris estudar com Nádia Boulanger e percebi que era fundamental estar aberto a alterações da tradição. Não basta, porém, ser bom aluno. É imprescindível o talento. Difícil mesmo, neste mundo, é seguir, sustentar uma carreira e não se deixar invadir pelo acomodamento. Esta é para mim a parte mais tortuosa”.

 

Segundo o pianista Dario Rodrigues Silva:

“Temos então, um compositor argentino, descendente de imigrantes italianos, que passou sua infância em Nova Iorque e que mais tarde estudou na sofisticada Paris dos anos 50. Foi justamente essa multiplicidade de influências que possibilitou a Astor Piazzolla, no decorrer dos anos, causar uma verdadeira revolução no cenário do tango ao regressar para a Argentina em meados de 1955, difundindo o que foi chamado pela crítica e admiradores de “Nuevo Tango”, ou seja, um novo tango que agora manifestava os mais variados sotaques, desde as harmonias e síncopas típicas do jazz, até as colorações mais intensas da harmonia francesa, adensadas pelo ritmo visceral de Alberto Ginastera e, ao mesmo tempo, reverenciando ao legado de Gardel e outros da velha guarda. Ao contrário do que se pensava, Piazzolla não causou uma desestruturação ou descaracterização do gênero, mas, sim, uma ampliação, fazendo com que o tango passasse de uma manifestação idiossincrática para uma de âmbito global, capaz de dialogar com os mais variados universos estilísticos em um hibridismo nunca antes experimentado.”

 

Sugestão de vídeos

Libertango in Berlin Philharmonic 

https://www.youtube.com/watch?v=GnyAgOWhMnk

 

Adios Nonino - Astor Piazzolla

https://www.youtube.com/watch?v=VTPec8z5vdY&t=8s

 

Piazzolla, Guitarra, Bandoneón y Orquesta de Cuerdas-Alondra de la Parra & Orchestre de París

https://www.youtube.com/watch?v=Un9sXWWuChU

 

 Invierno porteno, Astor Piazzolla, Winter in buenos Aires

https://www.youtube.com/watch?v=b-q4FLTCzUI

 

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História.

 

Figura:

https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk00S0pl3osFl97BwUolTU3sMKNS04Q:1615866817040&source=univ&tbm=isch&q=imagem+de+piazzolla&sa=

 


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