terça-feira, 24 de agosto de 2021

Nações esfaceladas 2: Somália

 

 

 






 


O segundo artigo da minha série "Nações esfaceladas" é sobre a Somália. 

Os ingleses fundaram nos anos 80 do século XIX o protetorado da Somália Britânica no norte da Somália e a Itália ocupou regiões do nordeste e da costa sul, formando uma colônia italiana. Foi em primeiro de julho de 1960, com a junção das ex-colônias, a britânica e a italiana, que surgiu a Somália.

 

De 1960 a 1969 quem governava a Somália era a Liga de Juventude Somali. Apesar de a Somália ter sido considerada na época um exemplo de democracia, as questões ligadas aos clãs e os conflitos internos enfraqueciam o regime. Em 1969 foi assassinado o presidente Abdi Rashid Shermake e o general Siad Barre subiu ao poder por meio de um golpe de Estado, instalando uma ditadura militar de base socialista e se aproximando da União Soviética, sendo assinado um tratado em 1974 dando abertura para esse país instalar uma base militar. O ditador mandou construir estradas e hospitais e nacionalizou as indústrias, bancos e empresas, além de incentivar cooperativas agrárias e enfrentar o sistema de clãs, procurando reforçar a obediência ao governo e não aos líderes tribais. Fez mudanças também no sistema educacional. Porém, o governo ao combater o poder dos chefes dos tradicionais clãs e assumir uma postura política ateísta entrou em conflito com os costumes daquela sociedade islâmica.

 

O governo Barre perdeu uma guerra com a Etiópia, ao procurar anexar a região de Ogaden (com população de maioria somali), no período de 1977 a 1978, que fazia parte do território da Etiópia há décadas. A União Soviética que antes apoiava a Somália, em 1977 abandonou esse apoio e passou para o lado etíope que também tinha um governo socialista. O governo somali rompeu seu acordo com os soviéticos e se aproximou dos Estados Unidos.

 

Em 1980, no norte da Somália, os clãs começaram a se rebelar contra o controle do governo central. Barre ativou seu aparelho repressivo contra eles. Em 1987 uma oposição armada com apoio da Etiópia passou a enfrentar vigorosamente o governo e em 1990 os rebeldes tomaram a maior parte do país, mas o movimento se dividiu em três: Movimento Patriótico Somali, agindo no sul; Movimento Nacional Somali, ao norte e a capital Mogadíscio foi tomada em 1991 pelo Congresso Unido Somali. O governo militar de Siad Barre acabou, embora ele tenha permanecido junto com partidários leais no sul da Somália travando alguns combates até 1992.

 

Os clãs, com seus senhores da guerra, passaram a disputar o controle de regiões do país. Nesse contexto de guerra interna e descentralização política a ex-Somália Britânica se declarou independente em 1991 com o nome de Somalilândia e o nordeste da Somália, chamado de Puntland, formou um governo próprio em 1998.

Houve em 1992 o início de uma ação humanitária da Organização das Nações Unidas (ONU), com participação de tropas estrangeiras, com a liderança das forças dos Estados Unidos. Mas a ação da ONU, apesar de amenizar a questão da fome por um tempo, não conseguiu alcançar seu objetivo e houve a morte em combate de 24 soldados paquistaneses e 19 soldados norte-americanos, assim como mais de mil combatentes somalis. Devido à situação muito violenta na Somália, os representantes da ONU deixaram o país em 1995, tendo deixado de contar com o apoio dos soldados dos Estados Unidos a partir de 1993. A ONU tentou formar sem sucesso um governo nacional somali. 

 

No ano 2000 houve uma reunião de delegados somalis em Arta e foi aprovada uma lei nacional, que tinha entre seus pontos o respeito aos direitos humanos. Essa lei tinha o objetivo de ser uma Constituição da Somália por três anos para uma transição. Foi criada a República Somali com um sistema federal de governo, com 18 administrações regionais. Foi escolhido Abdiqasim Salad para presidente do Governo de Transição Somali. E em 2004 Abdullahi Yusuf Ahmed passou a ser o presidente deste governo de transição, reconhecido pela ONU. Foi eleito por somalis que se reuniram em Nairobi, no Quênia. Porém Mogadíscio continuou controlada por líderes de clãs que não reconheciam o governo de transição que se baseou em Baidoa. 

 

O tsunami de dezembro de 2004, que atingiu países asiáticos com maior força, também afetou a Somália, com destruição de povoados e causando a morte de cerca de 300 pessoas.

 

Em maio de 2006 a Aliança para a Restauração da Paz e grupos armados da União de Tribunais Islâmicos enfrentaram-se na capital Mogadíscio. A guerra civil continuou. Em 5 de junho de 2006 forças da União das Cortes Islâmicas (UCI), conquistaram a maior parte da capital e já controlavam outras áreas da Somália. A intenção da UCI era implantar a Sharia, a lei islâmica. Em julho de 2006 a UCI passou a controlar inteiramente a capital e o sudeste da Somália. A ONU afirmou que a UCI estava sendo apoiada pelo governo da Eritreia, uma nação africana próxima, enquanto o governo da Aliança para a Restauração da Paz recebia armas do governo da Etiópia. Em dezembro do mesmo ano a Etiópia mandou uma força militar para ajudar o governo da Aliança a combater em locais dominados pela UCI, sendo tomada a capital e outras cidades. Essas batalhas causaram uma migração de milhares de somalis para as fronteiras com o Quênia e a Etiópia.

 

O Governo de Transição Somali em 2007 conquistou cada vez mais territórios, como a Jubalândia e Galmudug. Ainda em 2007 houve uma divisão na UCI com a criação do grupo Aliança para a Reliberação da Somália (ARS). Esse grupo fez um acordo em 2008 com o governo provisório para a formação de um governo de unidade, com a eleição de Sharif Ahmed para presidente do Governo de Transição Somali. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha revelaram suspeitar haver uma ligação entre a UCI e a Al-Qaeda. O governo de transição e a ARS em março assinaram mais um acordo buscando a unificação do país. Em meados de 2012 o governo de transição conseguiu aprovar uma nova Constituição, passando a ser uma federação.

 

Anos de guerra interna tem causado graves problemas econômicos, como sérias dificuldades na questão agrícola e na distribuição de alimentos. Esses conflitos na Somália foram responsáveis pelo aumento da população de esfomeados, com centenas de milhares de mortos.

 

A situação precária na política e na economia foi responsável pelo aparecimento crescente de grupos de piratas somalis, que passaram a atacar navios estrangeiros. Os grupos de piratas foram formados por ex-pescadores, guerrilheiros de clãs e técnicos em eletrônica, utilizando pequenos barcos rápidos para parar e abordar navios.

 

A partir dos anos 1990 os piratas somalis sequestraram navios, inclusive petroleiros, em troca de altas quantias, ameaçando a navegação internacional próxima ao chamado Chifre da África. A pirataria provocou um aumento no custo de fretes e nos problemas para distribuição de alimentos para a população somali. Os cargueiros só podiam descarregar seus produtos em portos somalis se estivessem com forte escolta. Em 2008 uma força tarefa naval formada por diversos países passou a atuar para patrulhar as áreas afetadas pela pirataria e dar segurança à navegação.

 

Apesar das tentativas de unificação, ainda não há uma estabilidade política na Somália e o poder político ainda não está unificado em todo o país, que ainda apresenta divisões, com algumas regiões tendo se declarado independentes. Agravando a situação, há a existência de milhões de famintos que precisam de ajuda externa para sobreviverem. Em 2020 o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou a retirada da maioria dos 700 soldados das forças especiais que estavam treinando e assessorando tropas do governo somali contra os membros do Al Shabab, organização com ligação com a Al-Qaeda. O Al Shabab é um grupo guerrilheiro e terrorista que controla uma pequena parte da Somália e quer instituir um Estado IslâmicoEm 14 de outubro de 2017 o grupo realizou um atentado com explosivos que matou 512 pessoas e feriu mais de 300.

 

Além de todos os problemas relatados, há alguns fatos atuais que agravaram a realidade da Somália: o ataque recente de gafanhotos às plantações e a pandemia. Como disse James Swan, chefe da Missão de Assistência das Nações Unidas para a Somália (UNSOM): "A Covid-19 está a ter um impacto económico grave, com as remessas da diáspora somali a diminuir e o governo federal a projetar queda de 11% do PIB nominal este ano.” Há decerto muitas dificuldades. Para se conseguir a paz, um maior desenvolvimento econômico e a unificação territorial ainda há um longo caminho a percorrer. Mas os esforços em busca de soluções políticas continuam e não deixam desaparecer a esperança de dias melhores.

 

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História

 

 



 

Figura: https://www.google.com/search?q=imagem+do+mapa+da+somalia&tbm=isch&ved=2ahUKEwjc3bW50MryAhWDA7kGHaz2BvcQ2-cCegQIABAA&oq=imagem+do+mapa+da+somalia&gs_lcp=CgNpbWcQAzoECC



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