segunda-feira, 12 de abril de 2021

Dia internacional para reflexão do genocídio de 1994 contra os Tutsi em Ruanda

 








A data 7 de abril foi escolhida como o Dia internacional para reflexão do genocídio de 1994 contra os Tutsi em Ruanda. É uma data para se refletir sobre o terrível acontecimento que foi o massacre de cerca de 800 mil pessoas em aproximadamente 100 dias em Ruanda, um país africano. O período de tempo em que ocorreu o genocídio foi de 7 de abril  a 15 de julho de 1994. Na época do massacre, mais de 80% da população de Ruanda era constituída por hutus. As vítimas eram, em sua grande maioria, da comunidade dos tutsi, chacinadas por bandos armados hutus. Também houve pessoas da comunidade hutu, principalmente oposicionistas ao governo hutu, que foram mortos. Houve membros dos twas, outro grupo ruandês, que também foram incluídos na matança. Deve-se refletir sobre o que aconteceu, considerando a dor dos sobreviventes e a dos que perderam familiares. Também é preciso que se pense em meios para que fatos assim não voltem a ocorrer.

Antecedentes históricos:

Após a derrota alemã na I Guerra Mundial, o território onde hoje é Ruanda, que era uma colônia da Alemanha desde o fim do século XIX, passa ao controle da Bélgica. Esse país passou a favorecer os tutsi em detrimento dos hutu, acirrando conflitos entre os povos. Para estudiosos da história de Ruanda, foi o governo colonial belga que criou certas diferenças entre tutsi e hutu que antes não existiam. Os colonialistas belgas queriam com isso estabelecer uma divisão entre a população para exercer um domínio baseado em castas sociais.

Em 1959 houve um movimento hutu que destituiu a monarquia tutsi em Ruanda. Em 1960 houve a decisão dos ruandenses pela república em vez de monarquia. Em 1962, ocasião da independência em relação à Bélgica, os hutus estavam então no poder. Problemas econômicos que aconteceram em determinados períodos aumentavam as tensões. Houve um êxodo de dezenas de milhares de tutsis para países vizinhos. Nessa época um grupo de rebeldes tutsi no exílio formou uma força combatente, a Frente Patriótica Ruandesa. Essa Frente invadiu Ruanda em 1990. Houve combates entre os grupos militares dos hutu e dos tutsi até que um acordo foi estabelecido em 1993. Mas, um fato veio perturbar essa paz. Em 6 de abril de 1994 foi derrubado o avião que transportava os presidentes de Ruanda (Juvenal Habyarimana) e o da nação vizinha Burundi (Cyprien Ntaryamira). Foi aí que começou a onda de assassinatos comandada por milícias hutu, que culpavam a Frente Patriótica Ruandesa pela derrubada do avião. Mas a Frente acusou os extremistas hutus de terem derrubado o avião para terem o pretexto de começar um genocídio.

 

Os massacres (planejamento e execução)

Houve um planejamento para a realização dos massacres. Há historiadores que afirmam que pelo menos um ano antes já havia planos de se realizar o genocídio. O partido ligado ao governo, MRND, que tinha entre seus componentes pessoas da elite política hutu, tinha uma facção jovem chamada Interahamwe, que tornou-se uma milícia para realizar as matanças.  Listas com nomes de opositores e de seus familiares foram elaboradas. As armas e listas de pessoas foram entregues a grupos locais. Estações de rádio e jornais com ligação aos extremistas hutus instigavam o ódio, dizendo que se devia “eliminar as baratas” (modo como eles estavam chamando os tutsi) e nomes de pessoas a serem mortas eram lidas por meio de rádio. Na orgia de sangue que começou, até mesmo maridos hutus mataram suas mulheres tutsi e vizinhos hutu matavam seus vizinhos tutsi. A matança foi facilitada pelo fator de que na época constava nas carteiras de identificação se a pessoa era hutu ou tutsi. Houve participação de soldados, policiais e membros de milícias hutus. Muitas mortes aconteceram por golpes de facas ou facões. Fuzis também foram usados. Mulheres tutsi foram levadas aos milhares para serem abusadas por hutus. Há um cálculo de que entre 250 mil e 500 mil mulheres tenham sido violentadas. Há atualmente acusações de que alguns padres e freiras participaram da matança. Houve gangues constituídas por hutus que iam atrás de civis tutsi escondidos em igrejas e escolas para matá-los.

Apesar de existirem tropas da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Bélgica (ex- metrópole colonialista) em Ruanda, não havia uma ordem superior para interferir nos massacres. Os Estados Unidos tinham tido uma experiência ruim na Somália um ano antes e não queriam se envolver. Quando dez soldados belgas foram assassinados, a força belga se retirou junto com a maioria do contingente de soldados da ONU. O governo da França que era aliado do governo hutu, enviou soldados com o objetivo de criar uma zona que seria segura, porém não agiram com suficiente vigor para evitar mortes. O governo atual de Ruanda já fez acusações à França, dizendo que a mesma  teve sua responsabilidade na ocorrência dos massacres que aconteceram.

O fim da matança de tutsi

Com apoio do exército de Uganda, a força da milícia tutsi Frente Patriótica Ruandesa conseguiu, após combates, chegar na capital ruandesa, Kigali. Dois milhões de hutus fugiram para o Zaire (atual República Democrática do Congo), entre eles havia pessoas envolvidas no genocídio. Houve denúncias de grupos defensores dos direitos humanos de que a Frente Patriótica ao tomar o poder matou milhares de hutus na perseguição à  Interahamwe, como uma forma de vingança. No exílio milhares de refugiados morrerem de cólera. A República Democrática do Congo sofreu efeitos dos conflitos entre hutus e tutsis no seu território, sendo que em anos de conflitos, cerca de cinco milhões de pessoas morreram. O governo de Ruanda que está no poder chegou a invadir por duas vezes a República Democrática do Congo para combater milícias hutus. Grupos tutsi neste país receberam armas do governo de Ruanda para combater grupos hutus.

 

Atualidade

 

O presidente atual de Ruanda é Paul Kagame, um líder da Frente Patriótica Ruandesa. Apoiadores dele o elogiam pelo rápido crescimento econômico. Houve esforços dele em transformar Ruanda em um próspero centro tecnológico. Há críticas de opositores de que ele é um governante muito autoritário e que já teria dado ordens para executar adversários. Sobre o genocídio de 1994, houve diversos julgamentos em tribunais locais em Ruanda. Quase dois milhões de pessoas foram julgadas. Na Tanzânia, um país vizinho, houve julgamentos em um tribunal da ONU de líderes dos que executaram massacres. Não se é mais permitido pelo governo em se falar de etnia em Ruanda. O governo alega que assim se evita mais assassinatos. Porém críticos dizem é uma tentativa de se camuflar a realidade, impedindo uma verdadeira reconciliação e consideram que novos conflitos posteriormente possam acontecer. O genocídio teve efeitos duradouros e profundos em Ruanda e nos países vizinhos. Ruanda hoje em dia tem dois feriados em relação ao genocídio. O regime atual ruandense proíbe que se negue o genocidio ou se tente fazer um revisionismo histórico  sobre ele. 


Citação

 

 

“Diferença entre hutus e tutsis

 

A diferença mais significativa entre hutus e tutsis não tem a ver com características físicas ou linguísticas. A questão se relaciona com atividades econômicas e a divisão de poder.

Tradicionalmente, os hutus eram agricultores, enquanto os tutsis, se dedicavam à criação de gado, e neste sentido, os tutsis eram mais ricos que os hutus.

Igualmente, as posições mais altas dentro do reino ruandês estavam destinadas aos tutsis, embora os hutus pudessem participar como conselheiros.

Esta divisão étnica, contudo, não era impedimento para que as pessoas de ambas as etnias se casassem ou servissem o Exército juntas.

A partir de 1916, a Bélgica dominou Ruanda e, a fim de melhor controlar a população, os belgas se aproveitaram da natural divisão étnica que existia no local.

Os tutsis representavam 14% da população ruandesa, enquanto os hutus, 84%; e o restante eram composto por diversas etnias como a twa.

Na década de 20 do século XX, existiam várias teorias raciais na Europa, que buscavam provar a supremacia das raças. Com esta ideia, os belgas introduziram um novo conceito em Ruanda: havia características físicas nos tutsis que os faziam mais capazes intelectual e fisicamente que os hutus.

Portanto, aos tutsis foi dado o direito de ir à escola e ocupar cargos importantes do governo colonial, enquanto os hutus eram marginalizados. Desta maneira, foi crescendo a desconfiança e o rancor entre as etnias.”    Professora de História Juliana Bezerra.

 

Sugestão de vídeos: 

 

Trailer: Hotel Ruanda

https://www.youtube.com/watch?v=3wf8prFBpIM

 

 

ENTENDA O GENOCÍDIO EM RUANDA

https://www.youtube.com/watch?v=aCx5xosJwxg

 

 

Massacre de Ruanda foi um dos maiores genocídios da história mundial

  https://www.youtube.com/watch?v=geOkJ8p6CX8

 

 

 

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Márcio José Matos Rodrigues -Professor de História



Figura:

https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk03OmYhGjIzDpLxULG6Yh--NjQ__2w:1618255392321&source=univ&tbm=isch&q=imagem+de+massacre+de+1994+em+ruanda

 


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