quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Homenagem ao grande pianista brasileiro Nelson Freire

 





No dia primeiro de novembro de 2021, aos 77 anos, faleceu na cidade do Rio de janeiro o pianista Nelson José Pinto Freire. Críticos de música consideraram Freire como um dos principais pianistas de sua geração. Era conhecido por sua "execução decorosa de piano" e "profundidade interpretativa”. Tinha grande técnica e uma fantástica sensibilidade para tocar os temas dos maiores compositores do mundo na área da música erudita, aliando o virtuosismo a uma emoção concentrada, precisa.  Apresentou-se em mais de 70 países. O último disco dele foi lançado em 2019 pela Decca com o nome de: Encores.  Além da Decca, outras gravadoras que gravaram discos de Freire foram: Sony Classical, Teldec  e  Philips. Ganhou prêmios como o Gramophone Award e o Diapason d’Or. Foi três vezes indicado ao Grammy. Foi solista em grandes orquestras como a Orquestra Filarmônica de Berlim, a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo, a Royal Concertgebouw Orchestra, a Orquestra Sinfônica de Londres, a Orquestra de Paris, a Orquestra Nacional de França, a Filarmônica de Nova York, a Orquestra de Cleveland e a Orquestra Sinfônica de Montreal.   

Ele nasceu em Boa Esperança, Minas Gerais em 18 de outubro de 1944. Começou a tocar piano aos três anos, vendo sua irmã estudar o referido instrumento. Aos cinco anos já se apresentava em seu primeiro recital no Teatro Municipal de São João Del Rei. Nesse recital Nelson tocou a Sonata para piano em Lá maior, K331, de Mozart.

Para que ele pudesse se aperfeiçoar como pianista, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, tendo ele sido finalista, aos 12 anos, do Primeiro Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro. Ganhou do Presidente Juscelino Kubitschek uma bolsa de estudos e se mudou para Viena em 1959, sendo aluno do pianista Bruno Seidlhofer. Com 15 anos, ele já se destacava em concertos.  Ele foi classificado pela revista Time, após uma apresentação em Nova York, quando tinha 19 anos, como: “um dos maiores pianistas desta ou de qualquer outra geração”.Conquistou em 1964 o primeiro lugar no Concurso Internacional de Piano Vianna da Motta em Lisboa e recebeu em Londres as medalhas de ouro DinuLipatti e Harriet Cohen. Mesmo tendo se tornado famoso, ele permaneceu humilde e muito dedicado. Era perfeccionista e chamado por outros músicos talentosos de “Reverendo Nelson”.

Entre seus discos gravados, Freire gravou músicas de Chopin (aos 12 anos), Schumann, Brahms, Liszt, Grieg, Tchaikovsky e Villa-Lobos. Gravou obras de Rachmaninoff, Lutoslawski e Ravel junto com a pianista argentina Martha Argerich. Com a orquestra Sinfônica Brasileira, sob a regência do maestro Isaac Karabtchevsky Nelson gravou as Bachianas Brasileiras número 3. Ele se tornou um grande intérprete de Beethoven e de Chopin. Também fez interpretações da obra do compositor brasileiro Villa-Lobos e tocava também obras de Mozart. Foi muito elogiado por sua interpretação do Concerto para Piano e Orquestra N.º 2 de Chopin, na ocasião dos 150 anos de aniversário da morte do compositor.

Antes de 2001 (quando começou a lançar grandes discos, como o dedicado à obra de Debussy), ele passou vários anos sem querer fazer gravações, pois dizia que a música só acontecia ao vivo, com o público. Em dezembro de 2001, foi presidente do júri do Concurso de Piano Marguerite Long em Paris.

Foi o único pianista brasileiro, de acordo com informação do Instituto Piano Brasileiro, a ser incluído no projeto Great Pianists of the XXth Century, com uma coleção de 200 CDs que foram lançados pela Phillips. Também lançou álbuns, nos anos 2000, com gravações dos Estudos e Noturnos de Chopin, como tambémseleções de obras de Liszt, Schumann, Beethoven, Bach e Debussy; e dois Concertos de Brahms, gravados com a Orquestra Gewandhaus, de Leipzig, sob regência de Ricardo Chailly, tendo recebido na época por esse álbum o prêmio de melhor disco do ano, pela revista Gramophone, de Londres.

Nelson Freire em 2012 lançou o álbum Brasileiro, com obras de Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, Lorenzo Fernandez, Henrique Oswald, Alexandre Levy, Barrozo Netto, Claudio Santoro e Francisco Mignone. Ganhou nesse ano o prêmio Grammy Latino.

O cineasta João Moreira Salles, em 2003, registrou a trajetória artística de Freire no documentário Nelson Freire, que mostra a rotina e as turnês mundiais do maior pianista brasileiro na atualidade. É mostrada a infância, os primeiros acordes e os sacrifícios feitos pela família.   O documentário venceu o Grande Prêmio de Cinema Brasil 2004 na categoria. João Moreira Salles esteve com Nelson por dois anos e registrou 70 horas de material gravado.

Foi realizado em 2015 pela Orquestra Filarmônica de Minas Gerais em Boa Esperança, um concerto ao ar livre para Nelson Freire, sendo ele o solista. Freire ficou muito emocionado e resumiu suas emoções em uma palavra: “Indescritível”.

Sobre ser mineiro Freire disse:

“A raiz mineira não te solta. Nem que queira. Mas a gente não quer. A alma mineira, como dizia Carlos Drummond de Andrade, é algo para toda vida”

Sobre a morte do pianista, o site da rádio France Musique, que é especializada em música clássica e faz parte da rede pública Rádio França, houve o seguinte comentário:

“É um monumento, um monstro sagrado do piano que nos deixa. Com ele, uma extravagância incomum no teclado se extingue, misturada com uma rara sensibilidade e expressividade”.

Também o famoso site “SplippedDisc", sobre música erudita, enalteceu o pianista brasileiro: "luto por um gigante do piano, aos 77 anos".

O conceituado projeto "Silk Road Symphony" lamentou no twitter a morte do pianista: "Notícias muito tristes. Acabamos de saber da morte de Nelson Freire, que fez parte do nosso conselho musical por mais de 5 anos. Obrigado, Nelson, por todo o apoio humano e pela maestria artística e musical".

A comunidade da música erudita do Brasil e de outros países lamentou a morte de Freire. O pianista tinha sofrido uma queda em 2019 em Copacabana, ficando por um tempo em casa isolado, recuperando-se. Os seus planos de voltar aos palcos em 2020 foram frustrados por causa da pandemia.

O maestro e pianista João Carlos Martins comentou: “Eu considerava o Nelson, talvez hoje, o maior pianista da atualidade. E, sendo brasileiro, uma honra para o nosso país. O Nelson dignificou o nome do Brasil em todos os continentes e, ultimamente, eu o considerava o maior pianista da atualidade”.

A produtora de arte clássica Myrian Dauelberg fez o seguinte comentário: Passei a tarde toda de ontem com ele, ele chegou a tocar piano e ainda brincou comigo: 'você sabe muito bem que eu não vou voltar a tocar piano como tocava antes'. Ele era muito perfeccionista".

E o pianista Arthur Moreira Lima disse sobre a morte de Freire: "Uma noticia muito triste. conheço Nelson, que sempre chamei de nelsinho, porque nos conhecemos crianças ainda com menos de 10 anos. É muito triste para mim e uma grande perda para todos nós que gostávamos tanto dele e sobretudo para a musica brasileira , para a cultura brasileira."

O maestro Isaac Karabtchevsky elogiou Freire: "Como definir um gênio? Um gênio é exatamente isso. Ele descobria efeitos, descobria cores, descobria uma qualidade sonora que emanava do texto musical. Esse era o poder do Nelson".

Ana Flavia Cabral, vice-presidente executiva da Orquestra Sinfônica Brasileira disse:
"O Nelson Freire começou sua carreira com a Orquestra Sinfônica Brasileira, venceu o concurso pra solistas em 1956, depois venceu novamente em 1957 deixando uma plateia não só carioca, mas uma plateia mundial, boquiaberta com o seu talento".

O maestro João Carlos Martins, amigo de Freire, comentou: "Quando eu perdi minha mão direita, uma madrugada, ele mandou um whatsapp depois de ouvir um CD meu e, me incentivando, falou "João Carlos, continue porque sua música é pra poucos.E eu respondi pra ele: Nelson, a sua diferença entre nós dois é que a sua música é pra muitos".

Entre os discos gravados por Freire há álbuns considerados antológicos. Por exemplo: The Nocturnes (2010).  E seis discos anteriores, foram agrupados em 2014 na caixa The Complete Columbia Album Collection, editada pela Sony Music.

Freire tinha sido convidado para ser jurado no importante Concurso Chopin de Varsóvia, que se realizou em outubro de 2021, mas ele cancelou antes sua participação. Em 2019 ele se acidentou em uma caminhada, tendo quebrado um dos ossos do braço direito. Para o jornal O Globo, em 2001, Freire disse:

“Não ouço nem durante, nem depois meus discos. Já tem uns cinco anos isso, foi acontecendo aos poucos. Porque se ouço, fico querendo mudar”, disse o pianista ao jornal O Globo, em 2001.

O velório dele foi realizado no Theatro Municipal do Rio, que fez um post em homenagem ao músico destacando a honra de ter tido o pianista no palco. Ele foi enterrado no dia 3 de novembro de 2021 em Boa Esperança, Minas Gerais, no mesmo túmulo onde seus pais encontram-se enterrados, no cemitério municipal da cidade.

Sugestão de vídeos para assistir:

 

Pianista Nelson Freire realiza concerto nas comemorações dos 90 anos da UFMG

 

https://www.youtube.com/watch?v=wVoJO7VLTsI

NELSON FREIRE CHOPIN CONCERTO NO 2 PROMS 'LIVE' 2010

 

https://www.youtube.com/watch?v=ktertRR5iZs

 

Nelson Freire plays Beethoven Moonlight Sonata (Complete)

 

https://www.youtube.com/watch?v=eFIe8xoS1jI

 

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Márcio José Matos Rodrigues-Professor de História


Figura: https://www.google.com/search?q=imagem+do+pianista+nelson+freire&sxsrf=AOaemvIWwXKCNga_CT3VraWv5FLiTg_h5g:1636076534538&tbm=isch&source

Um comentário:

  1. Músicas eruditas são fenomenais, conseguem tocar a alma e despertar a essência, a beleza ❣🥂🥂

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